Na música O Meu Guri, de Chico Buarque, uma mulher diz que reza para o filho chegar logo ao barraco porque a “onda de assalto está um horror”. O problema, que ela se recusa a enxergar, é que o filho é o assaltante. E mesmo quando este aparece morto, estampado na manchete policial de um jornal, ela nega a realidade, diz que o rapaz finalmente ficou famoso, subiu na vida, afinal, “ele disse que chegava lá”.
O interessante é que no jornalismo também tem gente assim, como essa mãe. O artigo Os cúmplices do plano para tirar Moraes do caminho das máfias bolsonaristas, de
Moisés Mendes, publicado no Brasil 247 nesta quinta-feira (18), também inventa um substitutivo para a realidade.
No primeiro parágrafo, o jornalista diz que “Eduardo Bolsonaro foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão e será, depois de cumpridos os prazos para recursos e chicanas protelatórias, mais um foragido da Justiça. Outros terão o mesmo destino e buscarão abrigo fora do Brasil.”
Até outro dia, era a direita que zombava de Lula na cadeia, o chamava de presidiário e confeccionava bonecos do presidente com roupa de presidiário. Hoje, esse papel se inverteu, quem quer colocar pessoas na cadeia, e comemora a cada condenação, é a esquerda verde-amarelo.
“A cada condenação no Supremo”, prossegue o articulista, “se o relator for Alexandre de Moraes, os jornais das corporações irão requentar o debate raso e cansativo envolvendo golpistas alcançados pela Justiça: o ministro, por ser alvo dos criminosos, não pode julgá-los.”
Parece mentira, mas o jornalista, que crer ter um coração democrata, está defendendo que um juiz pode ele mesmo julgar alguém que supostamente o ameace ou prejudique. Como aconteceu no julgamento-farsa da trama golpista, onde Alexandre de Moraes figurou como vítima, relator e julgador. Contestar isso não é um debate raso, mesmo que a contestação parta da grande imprensa. Pode ser cansativo, claro, para quem se recusa a ver o que está acontecendo.
Segundo Mendes, “a cada condenação no Supremo, se o relator for Alexandre de Moraes, os jornais das corporações irão requentar o debate raso e cansativo envolvendo golpistas alcançados pela Justiça: o ministro, por ser alvo dos criminosos, não pode julgá-los.”
Como aquela mãe, Moisés Mendes não enxerga, ou finge, que o STF é o golpista. Tirou Lula das eleições, botando-o na cadeia, o que foi crucial para a eleição de Bolsonaro; e, hoje, coloca o ex-presidente em cana porque os planos são outros.
Segundo escreve Mendes, “o Supremo responderá, a cada condenação, como acontece agora, que o alvo dos bandidos é o STF, a instituição, e não apenas Moraes. Outro juiz relator dos processos também seria ameaçado por eles. E assim já se esboça como será a vida de Flávio Dino com as investigações das quadrilhas das emendas parlamentares.”
O alvo dos bandidos, ou da burguesia, não é o Supremo, por isso se está fazendo de tudo para preservar a instituição. Foi com Alexandre de Moraes que acabou a lua de mel.
Esse ministro indicado ao Supremo pelo judas Michel Temer, recebeu carta branca da burguesia e reinou como um absolutista, até que ultrapassou alguns limites, mexeu com interesses do grande capital, e agora querem sua cabeça.
Na torcida
Ampliando sua tietagem, para não dizer sabujice, Mendes diz que o poderoso “Dino recebe ameaças virtuais e presenciais e ouviu de funcionária de uma companhia aérea, no aeroporto: “É melhor matar do que xingar”. Dependendo do que acontecer nas eleições de outubro, Dino passará a ouvir a mesma frase de quem manda matar e de quem se encarrega de executar a ordem.”
Na verdade, Flávio Dino não foi ameaçado por uma mulher. Segundo reportagem, “uma comissária de bordo de uma companhia aérea, ao identificar seu nome no cartão de embarque de um voo em aeroporto de São Paulo, manifestou a um agente de polícia judicial a vontade de xingar o ministro. Em seguida, corrigiu-se, afirmando que seria melhor matar do que xingar”.
O ministro, que a esquerda pequeno-burguesa tem como paladino, extrapolou esse comentário lateral e disse absurdamente “que outros funcionários, da mesma ou outra empresa aérea, [potencialmente] sejam contaminados com idêntico ódio. [E que] isso pode significar até riscos para segurança de aeroportos e de voos e, por conseguinte, de outros passageiros. Imaginemos se isso se alastra para outros segmentos de negócios: um cliente corre o risco de, por exemplo, ser envenenado?
Não foi divulgado o que aconteceu com a comissária, mas é possível presumir; pois, como disse o ministro “pode ter sido um ‘caso isolado’. Porém, com o andar do calendário eleitoral, pode não ser. Então é melhor prevenir.”
Mocinhos e bandidos
No mundo de Moisés Mendes, os ministros do STF, são intrépidos defensores da moral e da justiça, que estão sendo perseguidos por mafiosos sanguinários. Moraes, por exemplo, “seria assassinado por militares [dos kids pretos] que só não levaram a ideia adiante por incompetência, mas muito mais por covardia.”
Para o jornalista, “a insistência com que a grande imprensa tenta desqualificar Moraes – como faz de novo nos jornais dessa quinta-feira – é a prova da cumplicidade com essas ameaças”, mas a conta não fecha, pois a imprensa, que representa os interesses da burguesia, também está atrás dos “mafiosos”.
Na cabeça de Mendes, que não é tão brilhante quando a de Moraes, “a grande imprensa que dá destaque à falsa controvérsia sobre a atuação de Moraes, ao invés de exaltar a condenação histórica do primeiro filho do chefe da organização criminosa, é cúmplice dos que tentam se livrar do ministro.”
Não é cúmplice coisa nenhuma, Alexandre de Moraes estava liberado para sambar sobre a Constituição para pegar Bolsonaro e sua turma. O problema só apareceu quando seu nome foi ligado ao caso do Banco Master. Não fosse isso, e o filhote de Michel Temer ainda estaria nas graças da imprensa venal.
Tomado de coragem e com a voz embargada, Mendes ameaça, diz “Folha, Estadão e Globo escondem a relevância da condenação de Eduardo, no contexto da resistência política da família, para destacar as suspeitas sobre Alexandre Moraes. Serão cobrados por tudo o que acontecer com a continuidade e o agravamento da perseguição ao ministro”. Serão cobrados mesmo? E quem vai entregar a fatura?
Mendes se esquece que Moraes é como um Joaquim Barbosa, um Sérgio Moro, que têm seu protagonismo, mas podem ser descartados quando perdem a função.





