Editorial

Defender os trabalhadores é ser de esquerda

Entre o banqueiro e o operário, entre o latifundiário e o trabalhador sem terra, entre o imperialismo e a soberania nacional, não existe neutralidade

Lula

Durante a cúpula do G7, o presidente Lula afirmou, diante do chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, e da chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, que “nunca” foi esquerdista. Segundo publicou o Brasil 247, Lula teria ainda dito que “o mundo não é de esquerda” e completou que “o mundo é do caminho do meio”.

A frase revela uma adaptação cada vez mais aberta do governo Lula às pressões da burguesia e do imperialismo. Em Portugal, Lula criticou o neoliberalismo. Diante do G7, afirma que não é de esquerda. Em período eleitoral, Lula fala o que julga conveniente para cada plateia.

Essa política é desastrosa. Ao dizer, nesse ambiente, que “nunca” foi esquerdista, Lula envia uma mensagem: o seu governo não representa perigo para os interesses fundamentais desses setores. Essa é a essência da declaração. E é exatamente isso que a classe trabalhadora brasileira não pode aceitar.

Lula não foi eleito para provar moderação ao FMI. Foi eleito pelos trabalhadores, pelos pobres, pelos setores populares que queriam derrotar a direita, recuperar os direitos no golpe de Estado, defender os salários, enfrentar a destruição dos serviços públicos e colocar o Estado brasileiro a serviço da população. A base que garantiu a vitória de Lula não foi às urnas para que o presidente, no exterior, se apresentasse como um homem do “caminho do meio”.

O “caminho do meio”, na luta de classes, é uma fraude. Entre o banqueiro e o operário, entre o latifundiário e o trabalhador sem terra, entre o imperialismo e a soberania nacional, não existe neutralidade. Governar “pelo meio” significa, na prática, ceder aos mais fortes. Significa fazer concessões permanentes aos capitalistas e pedir paciência aos trabalhadores.

Esse caminho não preserva o legado de Lula. Ao contrário, o destrói. O que tornou Lula uma figura histórica não foi a aprovação dos governos europeus, nem os elogios do FMI, nem a simpatia dos grandes capitalistas. Foi sua ligação com a classe operária, com as greves do ABC, com a luta contra a ditadura e com a expectativa de milhões de trabalhadores de que o Brasil pudesse ser governado contra os interesses da burguesia.

Ao negar a esquerda, Lula enfraquece a si mesmo. Ele desarma politicamente sua própria base social. Dá argumentos à direita, que sempre apresentou o PT como uma fraude, e desmoraliza os setores populares que defenderam sua eleição. Mais ainda: cria uma frustração profunda entre os trabalhadores, porque promete, em certos momentos, enfrentar o neoliberalismo, mas, nos momentos decisivos, recua diante dos representantes do imperialismo.

Não há legado possível sem programa. Não basta dizer que é amigo dos trabalhadores. É preciso governar em defesa deles. E defender os interesses dos trabalhadores é, necessariamente, ser de esquerda. Se Lula faz questão de se apresentar como amigo do regime político, corre o seríssimo risco de transformar sua última etapa política em uma grande frustração popular. Pode perder as eleições por desmobilizar sua própria base. E, mesmo que vença, pode encerrar sua carreira como o presidente que capitulou vergonhosamente diante da ofensiva neoliberal.

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