Editorial

Derrota difícil de engolir

Imperialismo, embora reconheça que um acordo fosse necessário, não consegue admitir que o Irã é o grande vitorioso da guerra

A revista britânica The Economist, um dos principais porta-vozes do grande capital, publicou, neste domingo (15), uma análise sobre o acordo anunciado entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irã para encerrar a guerra de quase quatro meses entre os dois países e reabrir o Estreito de Ormuz. O texto procura apresentar a situação como um caso em que “ninguém ganhou”. A fórmula, no entanto, serve apenas para encobrir o que a própria revista é obrigada a reconhecer ao longo do artigo: o imperialismo norte-americano e “Israel” não conseguiram impor suas condições ao Irã.

O artigo afirma que o acordo é apenas “o começo do fim” da guerra, que ainda restam negociações sobre o programa nuclear iraniano e que os combates podem recomeçar caso as partes tentem obter um resultado melhor. Até aí, trata-se de uma observação banal. Toda trégua entre inimigos dessa envergadura pode ser rompida. O problema está na conclusão que a revista tenta vender: a ideia de que, se não há paz definitiva, então não houve vencedor.

Ocorre que a guerra não foi iniciada para produzir uma situação neutra. Donald Trump havia dito ao povo iraniano que “a hora da sua liberdade está próxima”, isto é, anunciou abertamente a perspectiva de derrubar o regime iraniano. Os Estados Unidos exigiam que o Irã entregasse seu urânio enriquecido aos norte-americanos. “Israel”, por sua vez, defendia que qualquer acordo deveria atingir não apenas o programa nuclear, mas também os mísseis iranianos e o apoio do país às organizações da resistência no Oriente Médio.

Nada disso foi obtido.

Segundo o próprio The Economist, o Irã recusou a entrega do urânio enriquecido aos EUA. Os norte-americanos, depois de meses de ameaças, aceitaram discutir outras soluções, como a diluição do material ou sua eventual transferência a um terceiro país, com participação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A revista também admite que o acordo pode incluir alívio de sanções, permissão temporária para exportação de petróleo e liberação gradual de até US$24 bilhões em ativos iranianos congelados. Ou seja, depois de tentar estrangular economicamente o país e atacar sua estrutura militar e industrial, o imperialismo teve de aceitar a discussão de medidas que aliviam a pressão sobre a República Islâmica.

O caso de “Israel” é ainda mais claro. O texto diz que o balanço é pior para o Estado sionista. “Israel” queria que o acordo atingisse os mísseis iranianos e o apoio às organizações regionais. O acordo, segundo a própria revista, não deve incluir essas exigências. O programa de mísseis foi atingido, mas o Irã continuou disparando contra “Israel”. O apoio ao Hesbolá segue de pé.

Em outras palavras, “Israel” entrou na guerra para quebrar a espinha dorsal do Eixo da Resistência e saiu tendo de aceitar que essa força permanece de pé. O Hesbolá continua sendo um fator decisivo no Líbano. O Irã segue como potência militar regional. O Estreito de Ormuz continua sendo um instrumento de pressão nas mãos do país persa. As forças revolucionárias do Oriente Próximo não foram desorganizadas. Ao contrário, mostraram que podem enfrentar os EUA e “Israel” ao mesmo tempo.

É por isso que a conclusão de que “ninguém ganhou” é uma falsificação. Quando uma potência imperialista ataca um país muito menos poderoso, em termos econômicos e militares convencionais, e não consegue impor seus objetivos, quem venceu foi o país atacado. O Irã não precisava conquistar Nova Iorque para vencer a guerra. Bastava impedir que os EUA e “Israel” alcançassem seus objetivos. Foi exatamente o que ocorreu.

The Economist sabe disso. Por isso, tenta transformar a vitória iraniana em “vitória de Pirro”. A revista afirma que o povo iraniano está exausto, que a economia do país está em ruínas, que há inflação de alimentos e desemprego provocado pelos ataques israelenses.

Ora, se a situação econômica do Irã era tão grave, se a população estava tão cansada, se o regime estava tão pressionado, por que os EUA e “Israel” não conseguiram vencê-lo? Porque o regime iraniano conta com um apoio popular enorme, com um Estado organizado, com um poderoso exército revolucionário e com uma rede de aliados que se estende pelo Oriente Médio.

O que a revista britânica não consegue digerir é precisamente isso. O Irã não deu sinais de rendição. Não apareceu como um país prostrado. Não aceitou as imposições fundamentais de Trump. Não abandonou o Hesbolá. Não entregou seu programa de mísseis. Não se curvou diante da chantagem sobre o Estreito de Ormuz. A população iraniana, longe de se levantar em favor do imperialismo, saiu da guerra mais inclinada a apoiar o regime contra a agressão externa. A agressão dos EUA e de “Israel” fortaleceu o sentimento nacional contra o imperialismo.

Refletindo a política do Partido Democrata, The Economist critica Trump, mas com cautela. Lembra que ele prometeu dezenas de vezes estar perto de um acordo. Recorda que ele falou em libertar o povo iraniano e agora negocia com o mesmo regime que queria derrubar.

Mas a crítica não vai até o fim. A revista não pode dizer abertamente que Trump foi dobrado pelo Irã, porque isso revelaria algo mais profundo: não apenas a fraqueza pessoal de Trump, mas a fraqueza do próprio imperialismo.

The Economist reconhece que o acordo era necessário. O fechamento de Ormuz, a pressão sobre o petróleo, a instabilidade regional e a incapacidade de obter uma vitória militar criaram uma situação insustentável. O imperialismo precisava de um acordo. Mas reconhecer que precisava negociar com o Irã é uma coisa; admitir que foi obrigado a recuar diante de um país atacado por forças superiores é outra.

A fórmula “não houve vencedores” cumpre essa função. Serve para poupar os EUA da humilhação pública e para impedir que a vitória iraniana seja vista pelo que ela é: uma vitória política e militar de um país oprimido contra o imperialismo e seu principal posto avançado no Oriente Médio. Uma vitória que terá um efeito profundamente revolucionário na situação política mundial.

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