O cinismo é marca registrada da grande imprensa. O artigo O enigma de Trump, de Elio Gaspari, publicado na Folha de S. Paulo nesta terça-feira (16), trata com descaso as consequências dos bloqueios econômicos do imperialismo.
Gaspari diz que “ninguém sabe por que Donald Trump atacou o Irã e ninguém sabe por que ele suspendeu os bombardeios. Nem ele sabe que resultados conseguirá depois de uma guerra que já custou aos americanos perto de US$ 30 bilhões. Esse é o preço das guerras teatrais.”
Trump atacou porque essa foi uma exigência do imperialismo, do grande capital financeiro, cujo objetivo é destruir a influência do Irã sobre o Eixo da Resistência, que confronta sua dominação no Oriente Médio, bem como eliminar um importante nó na rede de rotas comerciais que envolvem a China, a Rússia, e o fluxo de mercadorias que podem escoar dali em direção à Europa, África e países árabes.
O presidente norte-americano não queria fazer a guerra, e o custo era um dos principais fatores. Como deve ser lembrado, Trump se elegeu prometendo o fim das guerras eternas, tentou encerrar o conflito na Ucrânia, mas não tem força suficiente para enfrentar o imperialismo.
Gaspari alega que os US$30 bilhões são “o preço das guerras teatrais”. Ocorre que esse é o custo imposto pela inacreditável rede de corrupção do imperialismo, que paga, por exemplo, até US$4 milhões por um único míssil Patriot.
Tudo “normal”
O jornalista escreve que “Trump foi atrás do Irã depois de um êxito surpreendente contra a Venezuela. Sequestrou o ditador, absorveu a ditadura e embolsou o petróleo. Começou a guerra com o Irã matando o líder supremo Ali Khamenei, tentou decapitar o regime dos aiatolás e atolou.”
Tratar Nicolás Maduro, um presidente eleito, como ditador, apenas demonstra a subserviência da Folha e seus funcionários aos interesses do grande capital. Além disso, ameniza o crime que é o sequestro de um presidente por uma potência estrangeira. O assassinato de Khamenei é crime, pois este não era um combatente, mas Gaspari não fala no assunto, o que é muito conveniente.
O jornalista reprova o presidente americano, diz que “Trump faz guerras como quem joga fliperama. Se der, deu. Se não, proclama-se vitória e sai-se de campo. Ao fim, a oposição iraniana que se levantaria ficou menor.”
Gaspari critica o fato da oposição iraniana “ficar menor”. Pelo jeito, gostaria que ficasse maior. Mas isso só seria possível, em tese, se a guerra não fosse travada apenas como um jogo e sim de maneira consistente.
A “oposição” como vimos no final do ano passado e início deste, era composta por mercenários pagos pelo Mossad, CIA e MI6, que cometeram todo tipo de atrocidades, desde incêndios a mesquitas, até atear fogo em agentes de segurança ainda vivos e decapitá-los. Colocaram fogo em carros de bombeiros, atiraram na multidão de cima de prédios e até crianças foram mortas.
Cuba
A Ilha de Cuba, que sofre bloqueio econômico há quase 70 anos, também é tratada como algo trivial. O país está agora sob um verdadeiro cerco que tem impedido a entrada de combustíveis e artigos essenciais.
O país enfrenta a escassez de suprimentos e matérias-primas para produzir 300 medicamentos essenciais. Estudos demonstram que, nos últimos 50 anos, mais de 500 mil pessoas morreram anualmente devido aos bloqueios. O número é algo em torno de 28 milhões de pessoas. Um verdadeiro genocídio, mas os ditadores são os venezuelanos, os cubanos, e outros inimigos do imperialismo.
Elio Gaspari diz que “até novembro, quando uma eleição poderá tirar os republicanos do controle da Câmara dos Representantes, Trump sairá atrás de uma vitória e Cuba é a primeira candidata. A Venezuela mostrou-se uma barbada porque a ditadura era corrupta, impopular e mantida às custas de uma eleição roubada.”, prova de que apoia a ação de Donald Trump, tão ditador e corrupto como os demais presidentes americanos, que ajudaram a roubar inúmeras eleições.
No Brasil, talvez Gaspari não consiga se lembrar, os democratas deram um golpe de Estado em Dilma Rousseff, mandaram prender Lula, e elegeram Jair Bolsonaro. Mas aí não foi roubo, e sim na Venezuela, que tem mais eleições que no Brasil.
Uma “vitória” às custas de Cuba seria apenas a continuação de um crime continuado que o jornalista não denuncia. E, como diz o ditado: quem cala consente.
Segundo o jornalista, “Em Cuba, a crise energética levou a ruína para o cotidiano dos habitantes, gostem ou não do regime.” Crise por quê? Qual o motivo? Brotou do chão, ou é fruto de um bloqueio criminoso?
Outro dado que mostra a filiação política de Gaspari, é no trecho em que afirma que “o Caribe, passado mais de meio século da revolução castrista, com sua aura romântica, a pista parece livre.” Insinuando que os cubanos não lutariam, pois estariam desiludidos. Esse tipo de comentário mostra o cinismo, e desumanidade, do jornalismo “democrático”, que finge não ver os crimes cometidos contra populações inteiras que não querem se submeter ao imperialismo.
“O estabelecimento de uma nova ordem em Cuba”, continua o jornalista no seu tom arrogante, “dá a Trump uma vitória cuja extensão ainda é imprevisível. Dá ao secretário de Estado, Marco Rubio (filho de cubanos), um êxito que o coloca mais perto da Casa Branca em 2028 e pode dar alguma sobrevida ao complexo comercial e burocrático das Forças Armadas, como sucedeu na Venezuela.”
Se isso é assim, que nome se deve dar quando uma potência coloca a população inteira de um país sob severa privação em nome de negócios?
O problema para Gaspari não é esse tipo de monstruosidade, mas a “revolução castrista”, como se a revolução tivesse um caráter pessoal, não a vontade de um povo de não ser escravo.
Aderindo aos criminosos norte-americanos, Gaspari escreve que “Cuba tem um especial atrativo para Trump e sua turma: uma mudança de regime, mesmo parcial, trará consigo um boom imobiliário de grandes proporções. Grosseiramente, pode-se estimar que com a venda de um estúdio em Miami será possível comprar um apartamento de três quartos e sala novo na ilha.”
Não se sabe se Gaspari é do ramo imobiliário. Mas parece que pelo menos de apartamentos ele entende.





