O empate da Espanha com Cabo Verde, nesta terça-feira, deveria servir para esfriar um pouco a histeria contra a Seleção Brasileira. Antes de a Copa do Mundo começar, a Seleção Espanhola era apontada por muitos como uma das grandes favoritas ao título. Continua sendo uma candidata forte, apesar de ter empatado com uma seleção muito inferior à de Marrocos.
Não há nada de anormal nisso. Futebol é 11 contra 11. Uma seleção melhor pode empatar, pode perder, pode jogar mal. A Argentina perdeu para a Arábia Saudita na Copa passada e terminou campeã do mundo. A história das Copas está cheia de tropeços iniciais de grandes equipes. O problema é que essa compreensão elementar do futebol desaparece quando se trata do Brasil.
A Seleção Brasileira empatou em 1 a 1 com Marrocos, semifinalista da última Copa do Mundo, uma das seleções mais fortes do torneio. O time marroquino não chegou à semifinal por acaso. Pelo contrário, poderia ter ido ainda mais longe se não tivesse sido prejudicado diante da França. Agora, chega ao Mundial com uma equipe ainda melhor, reforçada por jogadores jovens e de grande qualidade.
Mesmo assim, a imprensa tratou o empate brasileiro como se fosse uma catástrofe. A CNN falou que o Brasil “só empata”. O Globo Esporte destacou a repercussão internacional com a frase Assim, Brasil não é candidato. No UOL, Walter Casagrande colocou o resultado “totalmente” na conta de Carlo Ancelotti. Milly Lacombe publicou uma coluna intitulada Hexa, teu nome é tédio, dizendo que o Brasil fez um jogo “horroroso e covarde”.
De fato, o Brasil começou mal, tomou um grande sufoco nos primeiros 25 ou 30 minutos, errou passes, sofreu com a pressão marroquina e saiu atrás no placar. Mas essa não foi a partida inteira. Depois do gol de Vini Jr., o Brasil equilibrou o jogo. No segundo tempo, Marrocos já não teve o mesmo domínio, e a Seleção passou a jogar mais no campo adversário, ainda que sem a qualidade necessária para virar.
Esse dado foi praticamente enterrado pela imprensa. Para ela, vale apenas a parte ruim do jogo brasileiro. O início nervoso, os erros de Paquetá, a má atuação de Raphinha, a escolha de Igor Thiago, a ausência de Endrick. Mas quando se ignora que o adversário era uma seleção fortíssima, entre as melhores do mundo, a análise deixa de ser futebolística e passa a ser uma campanha contra o próprio País.
O caso da Espanha deixa isso ainda mais evidente. A seleção espanhola empata com Cabo Verde e continua sendo tratada como candidata ao título. O Brasil empata com Marrocos e, imediatamente, é apresentado como uma equipe sem chances, decadente, incapaz. A Espanha pode tropeçar. O Brasil, não. A Espanha pode ter uma tarde ruim. O Brasil, não. A Espanha continua forte. O Brasil estaria condenado.
Essa diferença de tratamento não é casual. Ela expressa a posição de uma imprensa antinacional, anti-Brasil, anti-povo brasileiro. Uma imprensa que se acostumou a torcer contra tudo aquilo que mobiliza o povo. E poucas coisas mobilizam tanto o povo brasileiro quanto a Seleção em uma Copa do Mundo.
Por isso, não é surpresa que alguns articulistas tenham recorrido novamente ao 7 a 1 de 2014. Essa derrota é repetida como uma espécie de castigo permanente contra o povo brasileiro. Não aparece como uma derrota a ser superada, como parte da história do futebol, mas como uma humilhação que deveria acompanhar o Brasil para sempre. É o prazer pequeno-burguês de lembrar ao brasileiro que ele não deveria ter orgulho de nada.
A campanha contra a Seleção também tenta esconder um fato fundamental: o Brasil jogou sem Neymar, seu principal jogador. Nenhuma outra seleção do mundo teria a ausência de seu principal nome tratada como detalhe sem importância.
O maior adversário do Brasil, como sempre, não está apenas dentro de campo. Marrocos, Espanha, Argentina, França e Alemanha são obstáculos esportivos. A imprensa brasileira é outra coisa. Ela atua para desmoralizar a Seleção, diminuir seus jogadores e declarar: o Brasil não pode confiar em si mesmo.





