Nesta quarta-feira (10), a crise na Bolívia ficou marcada por uma grande marcha popular em La Paz e a prisão de Vicente Salazar, dirigente da Federação Departamental Única de Trabalhadores Camponeses de La Paz Túpac Katari. A mobilização chegou às imediações da Praça Murillo, sede do poder político boliviano, no 41º dia de protestos contra o governo de Rodrigo Paz.
A marcha reuniu organizações camponesas, povos quíchuas e aimarás do norte de Potosí, setores de El Alto, a Túpac Katari e a Central Operária Boliviana (COB). Os manifestantes exigem a renúncia de Paz e denunciam as medidas neoliberais adotadas pelo governo.
A Polícia Boliviana atacou a mobilização com gás lacrimogêneo e prendeu várias pessoas. De acordo com a COB, cerca de 20 pessoas foram detidas na jornada, entre elas Salazar, preso nas proximidades da rua Loayza e levado para dependências policiais. Até o momento da publicação da denúncia, as autoridades não apresentaram um balanço oficial dos presos.
A prisão de Salazar foi denunciada por David Mamani, também dirigente da organização camponesa, como parte de uma ofensiva judicial e policial contra as bases mobilizadas. A direção da Túpac Katari afirmou que está em estado de alerta para localizar os trabalhadores e comunários presos durante a repressão.
“Denunciamos que estes fatos geram uma profunda preocupação em nossas bases e nas organizações sociais, pois são percebidos como ações que buscam calar a voz de quem representa legitimamente as demandas do povo”, afirmou a Federação Departamental Única de Trabalhadores Camponeses Túpac Katari, em comunicado.
Antes de ser preso, Vicente Salazar havia defendido as reivindicações das comunidades e denunciado a Lei 1732, promulgada por Rodrigo Paz para regular os estados de exceção no país. A medida abre caminho para a intervenção das Forças Armadas contra protestos, dependendo ainda de decreto e aprovação legislativa. Para as organizações populares, a lei é uma ameaça direta aos trabalhadores, camponeses e índios que ocupam as ruas contra o governo.
Mesmo após a repressão, a COB convocou a 42ª jornada de mobilizações, chamando os trabalhadores a se manterem firmes e organizados. “A luta é dura, o caminho é difícil e os obstáculos são muitos, mas a força de um povo unido sempre será maior que qualquer adversidade”, afirmou a central operária.
As manifestações começaram no início de maio e já completam mais de 40 dias. Nesta quarta-feira, organizações sindicais desceram de El Alto em direção ao centro de La Paz, mas foram bloqueadas pela Polícia nas imediações da Praça Murillo.
A mobilização do dia 41 reuniu cerca de 3.000 pessoas, número inferior ao de outras jornadas, que chegaram a concentrar dezenas de milhares de manifestantes. Ainda assim, a continuidade dos protestos expressa que o governo não conseguiu conter a revolta popular, apesar das prisões e da ameaça de uso das Forças Armadas.
No mesmo dia, Evo Morales participou de uma concentração chamada Pela Vida para Salvar a Bolívia, realizada em Chimoré, no departamento de Cochabamba. Segundo a Rádio Kausachun Coca, mais de 120 mil pessoas participaram do ato, exigindo a renúncia de Rodrigo Paz.
“Vamos ensinar como se governa”, afirmou Morales, ao comparar os resultados de seu governo com a situação atual do país. O ex-presidente denunciou Paz como mentiroso e corrupto e afirmou que os movimentos sociais seguirão em luta.
Morales também defendeu a participação política dos movimentos populares. “Nós apostamos em uma revolução democrática com o voto”, declarou. Em seguida, afirmou que a luta continuará “com ou sem Evo”, indicando que a mobilização não depende apenas de uma figura política, mas das organizações camponesas, operárias e populares.





