A Bolívia chegou, nesta quarta-feira (10), ao 41º dia de mobilizações contra o governo de Rodrigo Paz. A crise, que começou no dia 1º de maio, combina bloqueios de estradas, marchas de trabalhadores, camponeses, índios, transportadores e setores populares, desabastecimento de combustíveis e alimentos, repressão policial e militar e uma nova escalada do governo em direção ao estado de exceção.
Nas últimas horas, a situação se agravou com a promulgação da Lei 1740, que regula os estados de exceção. Organizações sociais, sindicatos camponeses e o ex-presidente Evo Morales denunciam que a medida prepara o terreno para a intervenção das Forças Armadas e da Polícia contra os bloqueios e mobilizações. Segundo a denúncia apresentada internacionalmente, a lei dá “presunção de legalidade” às ações das forças repressivas, permitindo operações conjuntas e o uso de armas de fogo contra a população civil.
O documento foi assinado por Evo Morales, pela Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), pela Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas Originárias da Bolívia, pela Confederação Sindical de Comunidades Interculturais da Bolívia e pela Coordenação das Seis Federações do Trópico de Cochabamba.
As organizações denunciam que o governo iniciou um processo de declaração de estado de exceção “com o fim de dar carta branca a militares e policiais para o uso da força sem responsabilidade penal”. Também afirmam que a norma é inconstitucional e reduz a capacidade de fiscalização da Assembleia Legislativa sobre as ações do Executivo.
Na quarta-feira (10), centenas de trabalhadores, camponeses e moradores de El Alto desceram em marcha até La Paz para exigir a renúncia de Rodrigo Paz. A mobilização foi convocada pela Federação Departamental Única de Trabalhadores Camponeses Tupac Katari e teve concentração no Multifuncional da Ceja de El Alto.
À marcha se somaram setores da Central Obrera Boliviana (COB), das Federações de Juntas Vecinales de El Alto e La Paz, sindicatos do transporte pesado e interprovincial, além de moradores autoconvocados. Também participaram setores camponeses das 20 províncias do departamento.
Diante da mobilização, a Polícia reforçou os anéis de segurança em torno da Praça Murillo, onde ficam os palácios do Executivo e do Legislativo. O governo declarou estado de prontidão policial na capital e tentou apresentar a marcha como uma ameaça à ordem pública.
Durante a mobilização, foi detido Vicente Salazar, dirigente da COB. Segundo as informações divulgadas, Salazar foi apreendido por policiais nas imediações da Praça Murillo e levado à Força Especial de Luta Contra o Crime. Sua detenção ocorre em meio a uma onda de perseguição contra dirigentes sindicais e camponeses que encabeçam os protestos contra o governo.
Em Cochabamba, Evo Morales participou de uma marcha das Seis Federações do Trópico, que saiu de Lauca Ñ em direção a Chimoré. A mobilização foi chamada de “concentração pela vida para salvar a Bolívia”. Além da renúncia de Rodrigo Paz, os setores mobilizados denunciam a crise de abastecimento de combustíveis, a má qualidade do combustível vendido aos transportadores e as medidas privatizadoras do governo.
Segundo a Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), havia, nesta terça-feira (9), 79 vias nacionais bloqueadas. A maior concentração estava em Cochabamba, com 22 pontos de bloqueio, e em La Paz, com 19. Potosí registrava 15 pontos de conflito, Chuquisaca 10, e Santa Cruz mantinha um bloqueio na região de San Julián, na estrada que liga o departamento ao Beni.
Os bloqueios afetam o transporte de alimentos, combustíveis, medicamentos, oxigênio medicinal e outros insumos. Em La Paz, o transporte urbano funciona de forma reduzida por falta de combustível. Motoristas têm passado noites em filas nas proximidades dos postos para conseguir abastecer.
O preço do frango chegou a 120 bolivianos, levando a Empresa de Apoyo a la Producción de Alimentos a fechar duas sucursais para realizar inventários de emergência. A crise de abastecimento, no entanto, não surgiu apenas dos bloqueios. Os setores mobilizados denunciam que o próprio governo mantém sem solução a escassez de combustíveis e a venda de combustível de má qualidade, que estaria danificando parte do parque automotor boliviano.
Em Santa Cruz, manifestantes retomaram o bloqueio em San Julián após um quarto intermediário de quatro horas, entre 4h e 8h da manhã. A medida havia permitido a passagem temporária de caminhões e ônibus, mas foi retomada em seguida. O ponto de bloqueio já completou 28 dias na estrada troncal que conecta Santa Cruz à Chiquitania e ao Beni.
A crise política tem como pano de fundo o programa econômico aplicado por Rodrigo Paz desde sua posse, em novembro de 2025. Segundo a denúncia apresentada por Evo Morales e pelas organizações sociais, o governo impulsiona reformas estruturais de caráter privatizador sem consulta prévia.
Evo Morales afirmou, em entrevista à rádio Kausachun Coca, que o governo iniciou, em acordo com os Estados Unidos, a privatização dos recursos naturais da Bolívia, principalmente o lítio e as chamadas terras raras. O ex-presidente denunciou a existência de um “pacto secreto” com o governo de Donald Trump para entregar recursos estratégicos a empresas transnacionais, sobretudo norte-americanas.
Segundo Morales, além do lítio e das terras raras, estaria em curso a privatização de empresas estratégicas do país. As denúncias ocorrem depois de meses de medidas econômicas que atingem diretamente trabalhadores, pequenos comerciantes, camponeses e transportadores.
Entre as medidas denunciadas estão a eliminação do Imposto às Grandes Fortunas, a retirada de subsídios aos hidrocarbonetos, mudanças no regime de pequenos comerciantes, reformas sobre recursos naturais e propostas de privatização em áreas como saúde, educação, serviços básicos, mineração, eletricidade e investimentos.
A Lei 1720 também foi apontada como um dos detonadores da mobilização nacional. A norma autorizava o Instituto Nacional de Reforma Agrária a reclasificar pequenas propriedades rurais como médias propriedades, afetando direitos territoriais dos índios. Após a pressão social, incluindo uma marcha de índios do norte do país até La Paz, a lei foi revogada. A mobilização, no entanto, continuou por causa do conjunto da política econômica do governo.
A denúncia internacional cita ainda a inflação de 20,4% em 2025 e a projeção de queda de 3,2% do Produto Interno Bruto em 2026, atribuída ao Banco Mundial, como elementos que aprofundam a crise social.
As organizações sociais denunciam que a repressão do governo já produziu mortos, feridos e centenas de detidos. O documento internacional apresenta uma cronologia de violência estatal desde dezembro de 2025.
Naquele mês, operativos das forças de segurança contra protestos em Colcapirhua, no departamento de Cochabamba, resultaram na morte de Mario Padilla e Sinforiano Carrillo, além de dezenas de feridos. Entre janeiro e abril de 2026, segundo a denúncia, houve uma escalada repressiva em diversos departamentos.
No dia 14 de maio, foram registrados confrontos em La Paz contra cooperativistas mineiros. No dia 16 de maio, mais de 3.500 policiais e militares foram mobilizados em operações de desbloqueio na estrada La Paz–Oruro, em El Alto, na Avenida Juan Pablo II, em Rio Seco, na Zona Sul, em Rio Abajo e nas rotas para Copacabana e Los Yungas. A denúncia afirma que ao menos quatro pessoas foram mortas, entre elas os comunários Rubén Callisaya Marca e Alberto Cruz Chiche, Mallku de Taraco.
Também teriam sido detidas arbitrariamente mais de 127 pessoas, algumas em suas casas, sem ordem judicial e sem informação imediata às famílias. Mais de 50 pessoas ficaram feridas, incluindo dois jornalistas.





