O identitarismo experimenta um recuo. É o que comprova o artigo A reação antigênero e a disputa política sobre corpos trans, de Bruna Benevides, publicado no sítio Poder360 neste domingo (7).
No início, o texto alega que “o Brasil carrega, há mais de uma década, a marca cruel de liderar os rankings globais de assassinatos de pessoas trans. Isso não é fruto do acaso nem resultado de episódios isolados de violência. É consequência direta de uma estrutura que ainda insiste em negar humanidade, dignidade e cidadania a travestis e transexuais.” Esse número, entretanto, é contestado, pois há países que simplesmente não notificam esse tipo de crime. E há quem diga que o que tem aumentado é a notificação.
Independentemente de os números serem ou não os maiores do mundo, o fato é que a política identitária é um fracasso.
Bruna Benevides escreve que “diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: representatividade política e visibilidade significam, automaticamente, melhores condições de vida? A resposta ainda está longe de ser simples. A presença de pessoas trans no Congresso, nas universidades, na cultura e na mídia representa uma conquista histórica construída por gerações que resistiram à exclusão, à pobreza e à violência. Pela 1ª vez, muitos jovens trans conseguirão imaginar um futuro fora da marginalização compulsória.”
Os identitários colocam como prioridade a luta por “lugares de poder”, “posições de mando”, “mulher negra no STF”, etc., mas o fato é que as conquistas, se é que se pode chamar assim, são mínimas. Se um país não cresce, se a classe trabalhadora não avança, a conquista de direitos nunca vai obter bons resultados.
Reação
Para a autora, “essa conquista veio acompanhada de uma reação igualmente intensa. Quanto mais as pessoas trans têm ocupado espaços públicos e institucionais, mais se tornam alvo de uma ofensiva organizada da agenda antigênero.” A reação era esperada porque o identitarismo é agressivo e impositivo.
No Brasil, com a perseguição às opiniões divergentes, surge uma aversão natural. Qualquer pessoa pode ser aprisionada por transfobia e estão lutando para que as penas sejam cada vez maiores, e a população rejeita isso.
Existe a questão do uso de banheiros femininos por homens que se identificam como mulheres. Isso tem gerado muito desconforto entre as mulheres.
O identitarismo não soube respeitar o fato de que a maioria da população é conservadora. Por isso, “a extrema direita compreendeu rapidamente que mobilizar medo em torno dos debates de gênero e das pautas trans produz engajamento político e radicalização social.”, e, como era de se esperar, “mulheres trans e travestis passaram a ser retratadas como ameaça, fraude ou perigo para mulheres, crianças e famílias.”
Segundo a autora, “isso não se trata apenas de divergência teórica ou ideológica visto que existe hoje uma estratégia internacional articulada que transforma pessoas trans, sobretudo mulheres trans, em inimigos sociais para fortalecer projetos autoritários de poder.”
As pessoas, de um modo geral, são avessas à presença de mulheres trans em áreas privativas das mulheres porque sabem das diferenças entre os sexos. O homem, na maioria, é muito mais forte que as mulheres. Além disso, têm surgido inúmeros relatos de abusos nos presídios femininos e notícias de crimes envolvendo pessoas trans.
O texto alega também que “essa agenda antigênero não nasceu no Brasil. Ela se consolidou a partir da articulação entre setores ultraconservadores, grupos políticos extremistas e organizações financiadas internacionalmente que atuam contra políticas de direitos humanos, diversidade e igualdade.”
“A retórica”, prossegue Benevides, “se repete em vários países: ataques às universidades, perseguição às políticas de inclusão, demonização da educação sexual e tentativas de impor modelos rígidos de família, gênero e comportamento.” Portanto, isso deveria servir de alerta para o identitarismo, que deveria tentar mais a via do convencimento do que forçar a aceitação de uma sociedade conservadora.
O mundo real
Alimentado pelo ambiente universitário e financiamento de ONGs, o identitarismo esteve em alta e se sentiu à vontade para disputar espaço com as mulheres, conseguiu leis cada vez mais repressivas, mas a população continuou conservadora como sempre, as bases materiais da sociedade não se alteraram e agora está havendo um refluxo.
A autora alega que “a transfobia deixou de operar apenas como preconceito individual e passou a funcionar como ferramenta de mobilização coletiva. Sob o discurso da “liberdade de expressão”, contra o ‘identitarismo’ ou o ‘wokeismo’ legitimam-se narrativas que ampliam violências cotidianas em escolas, hospitais, espaços públicos e ambientes de trabalho, e o efeito disso é concreto.”, mas a liberdade de expressão não tem nada a ver com isso.
Na verdade, o ataque à liberdade de expressão é tão reacionário que é apoiado e encampado pelo Supremo Tribunal Federal. Sob a desculpa de se proteger as minorias, instaurou-se a censura. Quem pode apoiar isso?
Os direitos das minorias sexuais, infelizmente, estão sofrendo a rejeição imposta pelo identitarismo. A esquerda precisa abandonar essa ideologia direitista e lutar pela emancipação da sociedade, sempre atenta às necessidades de cada setor da luta social, sejam mulheres, indígenas, negros, minorias sexuais. O que não se pode é judicializar as lutas, pois impõe a união com as instituições do Estado burguês, o que só pode alimentar a aversão da classe trabalhadora.




