A Central Obrera Boliviana (COB) denunciou uma “caça humana” contra dirigentes das mobilizações, enquanto o governo de Rodrigo Paz avança com prisões, ameaças militares e uma lei de estado de exceção.
A denúncia da COB foi divulgada no 37º dia de protestos, marchas e bloqueios de estradas convocados pela central sindical. As mobilizações começaram em 1º de maio, inicialmente em defesa de um aumento salarial de 20%, rejeitado pelo governo. Com o avanço da crise econômica e da repressão, as manifestações passaram a reunir diversas organizações sociais em torno da exigência de saída de Rodrigo Paz.
A repressão se intensificou após a Justiça boliviana confirmar a detenção preventiva por 180 dias do dirigente vecinal de La Paz, Justino Apaza, enviado para a prisão de San Pedro. Segundo seus familiares, Apaza foi capturado na porta de sua casa “à força e sem apresentar ordem judicial”.
O Ministério Público investiga Apaza por supostos delitos de instigação pública, associação delituosa, terrorismo, financiamento ao terrorismo e atentados contra a segurança dos serviços públicos e meios de transporte. O dirigente é apontado pelas autoridades como um dos principais promotores dos cercos às cidades.
A prisão de Apaza foi seguida pela captura temporária da ex-senadora ligada a Evo Morales, Simona Quispe. Segundo a reportagem, eEla foi interceptada por encapuzados e levada a dependências da Força Especial de Luta Contra o Crime (Felcc) em um micro-ônibus sem placas. Quispe foi liberada no dia seguinte por falta de provas.
Também foi presa Yesenia Vargas, secretária da Federação Cocaleira Carrasco, do Trópico de Cochabamba. Pouco antes de ser detida em El Alto, Vargas declarou à Rádio Kawasachun Coca:
“Estamos aqui, estamos firmes, porque este governo tem que sair. Não vou permitir que este governo fique mais cinco anos saqueando nosso país.”
Ao mesmo tempo em que realiza operações policiais contra dirigentes sociais, o governo Paz avança no Parlamento com medidas para ampliar a repressão. O Senado aprovou, em primeira e segunda leitura, o Projeto de Lei de Regulamento de Estado de Exceção, enviando a proposta para a Câmara dos Deputados.
Setores da oposição e movimentos sociais denunciam que a medida abre caminho para um grau maior de repressão estatal contra manifestantes e contra os bloqueios nas estradas. A tramitação da proposta ocorre em meio à multiplicação de prisões e ao uso de acusações graves contra lideranças populares.
A Defensoria do Povo da Bolívia informou que, em mais de 30 dias de conflitos sociais, foram registradas 10 mortes, 37 feridos e 365 pessoas presas durante operações policiais e militares.
Segundo o segundo relatório do órgão sobre a crise, três mortes foram produto de enfrentamentos, enquanto outras sete foram relacionadas aos bloqueios de estradas, que teriam impedido ou atrasado o acesso de pacientes a atendimento médico especializado.
A Defensoria também apontou como origem da crise uma combinação de fatores econômicos e sociais, entre eles escassez de combustíveis, aumento do custo de vida, dificuldade de acesso a divisas, encarecimento de produtos básicos e descontentamento com a resposta estatal.
O órgão registrou mais de 100 pontos de bloqueio em sete departamentos, com Cochabamba como o departamento mais afetado, seguido por La Paz e Oruro.
Sobre as prisões, a Defensoria informou que, das 365 pessoas detidas, 247 foram liberadas, 103 foram imputadas penalmente, 50 respondem em liberdade, 19 cumprem detenção domiciliar, 12 estão em detenção preventiva, 5 têm medidas substitutivas e 17 já foram sentenciadas por procedimentos abreviados.
Os delitos atribuídos pelas autoridades incluem associação delituosa, instigação pública, destruição de bens do Estado, atentados contra organismos de segurança e tentativa de homicídio.
A escalada repressiva também aparece nas declarações do ministro da Defesa, Ernesto Justiniano. Após os enfrentamentos registrados em San Julián, no departamento de Santa Cruz, no sábado, com cerca de 26 feridos, dois deles em estado grave, o ministro classificou o episódio como um “levante armado”.
“Esses fatos podem ser vistos como levante armado, como um ataque ao Estado, portanto, vamos agir com a maior força possível, para que não convertam o país em uma máfia criminosa”, ameaçou Justiniano.
A operação de desbloqueio em San Julián contou com a participação da Polícia, das Forças Armadas e de grupos de extrema direita, entre eles integrantes da Unión Juvenil Cruceñista.
Segundo o ministro, disparos contra efetivos policiais e militares poderiam ser enquadrados como “ataque ao Estado”, “terrorismo” e ação de “grupos irregulares”. A formulação busca transformar uma rebelião popular contra o governo em caso de segurança nacional, abrindo caminho para medidas ainda mais duras.
O saldo informado do operativo inclui seis policiais feridos e um camponês, quatro deles por disparos de arma de fogo. Apesar da operação, os uniformizados recuaram, e o bloqueio em San Julián foi mantido.
A Administradora Boliviana de Estradas (ABC) informou, no sábado, a existência de 80 pontos de bloqueio ativos distribuídos em seis departamentos. Cochabamba aparecia como o mais afetado, com 22 cortes de estrada, seguido por La Paz, com 19; Potosí, com 15; Oruro, com 12; Chuquisaca, com 9; e Santa Cruz, com 3.
O fechamento prolongado das estradas por mais de um mês provocou uma crise de abastecimento, dificultando o transporte de combustíveis, alimentos, insumos médicos e oxigênio hospitalar, principalmente para La Paz e El Alto. Segundo os dados divulgados, os preços de produtos de primeira necessidade duplicaram ou triplicaram em algumas regiões.
A Câmara Nacional de Indústrias (CNI) afirmou que a crise já provocou perdas de US$2 bilhões ao setor industrial. O dado vem sendo utilizado pelos setores empresariais para pressionar pelo desbloqueio das estradas, enquanto o governo tenta apresentar a mobilização popular como ameaça à ordem pública.
A crise, no entanto, tem origem na própria política do governo Paz. O aumento do custo de vida, a escassez de combustíveis, a falta de dólares e a rejeição ao reajuste salarial exigido pela COB abriram caminho para uma mobilização que já ultrapassou o terreno sindical e se transformou em uma crise nacional.





