O Auditório Paraíso, na capital paulista, foi palco na última quinta-feira (4) de uma dura crítica à perseguição, por parte do Judiciário brasileiro, aos defensores da Palestina. Convidado de honra no ato de abertura do XII Congresso Nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Ahmed Shehada, presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal), foi aplaudido de pé após cerca de 20 minutos de discurso.
Em uma fala marcada por um misto de luto pessoal e profunda indignação jurídica, o dirigente palestino-brasileiro dissecou as engrenagens da perseguição política a ativistas no Brasil, atacou a confusão deliberada entre antissionismo e antissemitismo e revelou o que chamou de “absurdo laico”: o uso de mitos bíblicos por magistrados e promotores brasileiros para justificar sentenças criminais.
Logo nos primeiros minutos de sua intervenção, Shehada fez questão de desarmar a principal armadilha retórica que, segundo ele, tem sido utilizada para sufocar o debate público: a falsa equivalência entre a crítica a uma ideologia de Estado e o ódio racial ou religioso.
“A luta do povo palestino não é uma luta religiosa. Por isso estamos juntos. Tem comunista, tem cristão, tem muçulmano, progressista, todos estamos juntos”, asseverou. Para ele, a tentativa de enquadrar a resistência palestina como um embate sectário oculta a verdadeira natureza do conflito, que é “política, uma luta contra a ocupação, contra a colonização”.
Shehada expôs o absurdo lógico e jurídico de ser acusado de racismo por denunciar seus algozes.
“Essa arma suja que o lobby sionista usa no Brasil… coíbe a perseguição aos progressistas e defensores da humanidade. Até a vítima, como eu, fica acusada de racismo se criticar ou se gritar contra o opressor”, declarou. Ele ressaltou que transformar a reivindicação territorial e o luto palestino em “antissemitismo” não apenas distorce o conceito histórico da palavra, mas “impõe à vítima uma dupla penalização”.
“Ele [o palestino] já foi vítima e continua sendo vítima, como eu, que não posso ver ninguém da minha família. E não passa um ano em que não matem alguém da minha próxima família. E tem que aceitar isso como justa essa ocupação, esse genocídio, essa limpeza étnica, e não criticar Israel? Se você critica, você é antissemita, você é racista e querem me processar pela lei de antirracismo por criticar Israel ou chamar de genocidas os que matam os palestinos todos os dias”, questionou, apontando a hipocrisia de ser processado no Brasil por chamar de “bandidos” aqueles que usurparam suas terras.
O presidente do Ibraspal citou o caso específico de José Maria, presidente do PSTU, no qual sentenças proferidas e pareceres do Ministério Público utilizaram jargões e conceitos religiosos.
Shehada expôs o abismo jurídico de tais sentenças:
“Um país laico usa a palavra de um mito bíblico. O termo de um mito bíblico que é ‘essa Palestina, terra palestina ocupada, essa terra ancestral do povo judeu’.”
O presidente do Ibraspal questionou severamente a base legal da magistratura e do Ministério Público em tais episódios.
“Eu não sei onde um juiz, um promotor, achou na lei internacional, ou na lei brasileira, ou na história, essa realidade. Onde ele achou? E como pode usar esse termo bíblico num país laico? Legaliza a ocupação e a expulsão e condena alguém na base dessas alegações que são um mito, não têm fundamento nenhum”, fustigou.
Para Shehada, o uso de uma “doutrina bíblica” em um tribunal laico do século XXI para legitimar a expropriação de lares de muçulmanos e cristãos palestinos é um escárnio com a própria estrutura do Direito. Ele argumentou que o povo palestino “não é um ator abstrato nesse debate acadêmico ou político”, mas um corpo histórico e concreto, submetido a deslocamentos forçados desde muito antes de 1948.
Abordando diretamente os questionamentos e acusações frequentemente lançados contra ele em debates públicos — notadamente a pecha de “negar o direito de existência de Israel” —, Shehada não recuou. Pelo contrário, apropriou-se da acusação para reafirmar sua oposição categórica e estrutural ao projeto sionista, separando-o estritamente da identidade judaica.
“’Ah, você nega a existência de Israel? Você nega?’ Eu nego. Eu sempre vou negar”, declarou enfaticamente. No entanto, ele fez a distinção crucial que a mídia frequentemente ignora: “Não nego a existência de nenhuma religião, de nenhum povo, de nenhuma etnia. E não quero matar os judeus, pelo contrário. Nós vivemos juntos e eu, pessoalmente, tenho amigos judeus.”
O que Shehada rejeita é um Estado etnocêntrico construído sobre a demolição de outra sociedade. “Israel pode existir em qualquer lugar, mas não na minha conta”, argumentou.
“O projeto sionista nega a opção de um Estado democrático laico para todo mundo, em que a gente viva todos em paz. Eles negam isso. Tem que ficar um Estado judaico. Então o cristão, o muçulmano tem que ficar apagado. Quero que termine esse projeto para sempre. Acabar com esse projeto. Para todos podermos viver em paz.”
O dirigente buscou respaldo no Direito Internacional clássico. Ele lembrou à plateia que o Estado de “Israel”, para ser admitido nas Nações Unidas em 1949, comprometeu-se a implementar a Resolução 194, que garante o direito inalienável de retorno dos refugiados palestinos às suas casas — uma promessa que permanece ignorada há mais de sete décadas.
Além disso, Shehada resgatou a memória da Resolução 3379 da Assembleia Geral da ONU (1975), que declarou formalmente o sionismo como “uma forma de racismo e discriminação racial”. Embora tenha reconhecido que a resolução foi revogada em 1991 no rastro do colapso da União Soviética e sob intensa “chantagem do imperialismo”, ele defendeu que a realidade no terreno apenas confirmou a tese original.
“As críticas às políticas associadas à ocupação e expansão territorial, ao apartheid, ao tratamento desigual da população palestina, tornaram-se mais explícitas e intensificadas nas décadas seguintes”, observou.
Apesar do tom grave, da denúncia de censura e do peso do genocídio em curso, Ahmed Shehada encerrou sua densa reflexão com uma visão otimista sobre o futuro da luta anticolonial. Ele compreende que o sacrifício palestino, embora devastador, desencadeou um ponto de inflexão na consciência política mundial.
“A Palestina se tornou um símbolo mundial desse processo. Quando milhões de pessoas marcham nas ruas das capitais mundiais, não estão apenas defendendo a Palestina, eles estão defendendo o princípio de que nenhum povo deve ser submetido à opressão”, afirmou.
A questão palestina, segundo ele, transcendeu as fronteiras do Oriente Médio para se tornar uma “linha divisória” moral em escala planetária entre a opressão e a liberdade, entre a vida humana e o terrorismo de Estado.



