O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou possuir provas de fraude eleitoral na primeira volta das eleições presidenciais colombianas. A denúncia foi feita nesta terça-feira (2), depois da divulgação da pré-contagem que colocou o candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, à frente de Iván Cepeda, candidato ligado ao Pacto Histórico. Petro declarou que tem “bases comprovadas” para sustentar a denúncia e que está disposto a entregá-las à autoridade competente.
Segundo o presidente colombiano, as irregularidades estariam concentradas na manipulação do censo de eleitores e no sistema de pré-contagem utilizado no processo eleitoral. Petro afirmou que sua decisão de não reconhecer os dados divulgados pelo software dos chamados irmãos Bautista se deve a informações que, segundo ele, demonstrariam alterações graves no sistema.
“Apresento as bases comprovadas do possível fraude, que posso entregar à autoridade competente”, declarou Petro. O presidente acrescentou que não reconheceu os dados da pré-contagem “porque tem dados” e afirmou que seu compromisso com o povo colombiano e com a luta de toda a sua vida o obriga a tornar públicas as irregularidades que diz ter encontrado.
De acordo com Petro, o registrador nacional teria se negado permanentemente a entregar o código-fonte do sistema, elemento considerado por ele indispensável para garantir a transparência da eleição. O presidente também recordou que uma sentença do Conselho de Estado, de 2018, já havia declarado vulnerável o software eleitoral, tanto a ataques internos quanto externos.
O ponto mais grave da denúncia diz respeito às modificações feitas no sistema em 26 de maio de 2026, poucos dias antes da votação. Segundo os dados apresentados por Petro, o software teria sido alterado duas vezes naquele dia: a primeira às 13h21min35s e a segunda às 19h21min13s. Para o presidente, essas mudanças envolveram o censo eleitoral, os postos e as mesas de votação.
De acordo com a denúncia, o censo oficial de eleitores era de 41.421.973 pessoas, mas teria aparecido no sistema dos irmãos Bautista com 42.307.373 registros. A diferença, segundo Petro, é de 885.409 novas cédulas que não teriam sido inscritas dentro do prazo legal.
O presidente também apontou uma diferença no número de postos de votação. Segundo os dados apresentados, os postos oficiais eram 13.742, mas o sistema privado teria registrado 14.438, o que significaria 696 postos adicionais. No caso das mesas, a cifra oficial era de 120.527, enquanto o sistema de contagem teria registrado 122.020, uma diferença de 1.493 mesas.
Petro afirmou ainda que apareceram 5.300 mesas com mais de 300 votos em um único dia, chegando, em alguns casos, a até 700 votos. Segundo ele, é justamente nesse universo que se localiza a vantagem de cerca de 635 mil votos de Abelardo de la Espriella sobre Iván Cepeda.
A Missão de Observação Eleitoral da União Europeia declarou que não encontrou manipulação na contagem e afirmou que o processo teria ocorrido de maneira “transparente, ordenada e fluida”. A Registradoria colombiana também afirmou que, com quase todas as mesas revisadas, a variação entre a pré-contagem e a apuração seria mínima, de 0,06%.
Essas explicações, no entanto, não encerram a crise. A denúncia de Petro coloca no centro do debate a dependência do sistema eleitoral colombiano de softwares privados, a falta de acesso ao código-fonte e a atuação de organismos que, em nome da “normalidade institucional”, procuram tratar como encerrada uma disputa que ainda está sob escrutínio.
O caso ganha ainda mais importância porque a eleição colombiana ocorre sob aberta pressão da direita continental e do imperialismo. Donald Trump declarou apoio a Abelardo de la Espriella para o segundo turno, classificando Iván Cepeda como representante da “esquerda radical marxista” e afirmando que a eleição é crucial para as relações entre Colômbia e Estados Unidos. De la Espriella agradeceu o apoio do presidente norte-americano.
Trata-se de uma intervenção direta na política colombiana. A Colômbia é um país estratégico para os Estados Unidos na América Latina, funcionando há décadas como uma das principais bases políticas e militares do imperialismo no continente. Uma vitória da extrema direita serviria para reorganizar a ofensiva contra a Venezuela, contra o movimento popular colombiano e contra toda a esquerda latino-americana.
Por isso, a denúncia de Petro não pode ser tratada como um simples incidente técnico. Mesmo que os organismos eleitorais procurem desqualificar imediatamente suas acusações, o problema central permanece: a eleição que pode levar a extrema direita de volta ao poder ocorre em meio a suspeitas de manipulação, falta de transparência no sistema de pré-contagem e aberta interferência estrangeira.
A crise colombiana mostra, mais uma vez, os limites da democracia burguesa na América Latina. Quando os interesses da direita e do imperialismo estão em jogo, todo o aparato institucional se mobiliza para preservar a aparência de normalidade, mesmo diante de denúncias graves feitas pelo próprio presidente da República.
O segundo turno colombiano, marcado para 21 de junho, será realizado sob enorme tensão política. De um lado, está Iván Cepeda, candidato do campo governista e expressão da continuidade, ainda que limitada, do ciclo aberto com Petro. De outro, Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita, apoiado por Trump e pelos setores mais reacionários do continente.
A denúncia de Petro, portanto, aprofunda a crise do regime colombiano. Ela revela que a disputa eleitoral não se dá em terreno neutro, mas em um ambiente controlado por instituições, empresas privadas, interesses estrangeiros e pela pressão cada vez mais aberta da direita internacional.





