Pré-candidato à Presidência

Rui Pimenta: ilusões de Lula com Trump caíram por terra

Presidente nacional do PCO concedeu nova entrevista ao canal Galo Preto

Lula

No programa Galo Preto, transmitido nesta terça-feira (2), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, analisou a nova ofensiva dos Estados Unidos contra o Brasil, a situação eleitoral brasileira, a crise dos regimes latino-americanos e a rebelião na Bolívia.

Para Rui Pimenta, a medida derruba a ilusão de que o governo brasileiro teria conseguido resolver sua relação com Trump por meio de gestos diplomáticos. “Caiu tudo por terra”, afirmou. “Não tem essa ideia de que dá para resolver todos os problemas na conversa. É uma fantasia”.

O dirigente do PCO afirmou que ainda é preciso avaliar se as decisões de Trump são resultado direto da atuação da família Bolsonaro ou se o presidente norte-americano está se aproveitando da crise brasileira para impor uma agenda própria. “Eu fico um pouco na dúvida sobre se essas decisões, o tarifaço e a decisão sobre o PCC, são influência da família Bolsonaro sobre o Trump ou se o Trump está aproveitando a situação de crise no Brasil para levar adiante uma coisa que é dele mesmo”, disse.

Segundo Pimenta, o método de Trump é a chantagem. Ele comparou o novo tarifaço com negociações anteriores, nas quais os Estados Unidos anunciaram medidas agressivas para depois extrair concessões do governo brasileiro. “É o método do Trump. Ele tem como método a chantagem política”, afirmou.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a possível pressão das operadoras de cartão de crédito contra o Pix. Rui avaliou como plausível a hipótese de que os monopólios financeiros norte-americanos estejam pressionando o governo Trump contra o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

“Há uma pressão dos cartões de crédito contra o Pix brasileiro. Estão perdendo muito dinheiro com isso. Evidentemente estão perdendo dinheiro”, afirmou. O dirigente ironizou o argumento de que o Pix representaria uma “concorrência desleal”: “Para o monopólio, toda concorrência é desleal”.

Rui afirmou ainda que qualquer governo que tente acabar com o Pix cometeria suicídio político. “Se qualquer governo, o Lula ou qualquer outro, acabar com o Pix, não tem futuro nenhum. É suicídio isso”, disse. Para ele, o governo brasileiro terá de resistir à pressão de Trump: “o governo Lula vai ter que aguentar a pressão do Trump. Não vai ter muita alternativa não.”.

A ofensiva norte-americana, no entanto, não se limita ao tarifaço. Rui também comentou a decisão dos Estados Unidos de classificar organizações criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho e o PCC, como organizações terroristas. Para o presidente do PCO, trata-se de uma manobra perigosa, que abre caminho para novas formas de intervenção imperialista.

Ele criticou a posição do governo Lula sobre o tema. “Eu li a nota do Lula, é uma nota capituladora. Ele fala que o que o Comando Vermelho e o PCC fazem é terrorismo. Não é terrorismo nada. Isso aí é uma invenção. É uma organização criminosa”, afirmou.

Para Pimenta, aceitar a classificação imposta pelos Estados Unidos significa ceder à pressão imperialista. “Esse negócio de terrorismo, aceitar que essas organizações são terroristas, é uma capitulação diante da pressão do imperialismo”, declarou.

Questionado sobre qual deveria ser a posição da esquerda diante da ofensiva norte-americana, Rui foi direto: “a esquerda teria que repudiar. Tem que haver uma mobilização, não pode aceitar”.

O problema, segundo ele, é que a esquerda brasileira está profundamente adaptada ao imperialismo. Rui citou o peso das ONGs internacionais e de figuras ligadas ao capital estrangeiro dentro do governo e da esquerda. “Como é que um governo como esse vai enfrentar de fato o imperialismo? É uma guerra retórica”, disse.

Para o presidente do PCO, não basta acusar Flávio Bolsonaro de traição ou fazer propaganda moral contra a direita. “Não adianta nada falar que o Flávio Bolsonaro é o Silvério dos Reis. Sinceramente, eu acho que isso é um tiro de pólvora seca em termos de propaganda”, afirmou. A tarefa, segundo ele, é mobilizar o povo “contra a direita e contra o imperialismo”.

A discussão avançou para o problema da defesa nacional. Rui afirmou que o Brasil é um país militarmente desprotegido diante dos Estados Unidos. “O Brasil é um país desprotegido. Se os Estados Unidos decidissem agir contra o Brasil, o Brasil não tem defesa nenhuma”, disse. Embora as Forças Armadas brasileiras sejam grandes em comparação com as de outros países latino-americanos, Rui avaliou que elas não têm capacidade real de enfrentar o imperialismo.

Para ele, o problema não é apenas técnico ou militar, mas político. O sistema político brasileiro, segundo Rui, é incapaz de sustentar uma política consequente de enfrentamento aos Estados Unidos. “Os partidos políticos são todos pró-imperialistas. Então você precisaria ter uma mudança muito significativa no sistema político”, afirmou.

A resposta, de acordo com o presidente do PCO, não pode ser simplesmente a compra de armamentos modernos. “Se o imperialismo vier para cima com tudo do Brasil, a tendência de quase todo o sistema político é capitular”, afirmou. Por isso, disse, “a primeira coisa é mobilizar o povo”.

Rui Pimenta também defendeu que o Brasil deveria estreitar relações com China e Rússia. Segundo ele, a política de Lula foi a de cortejar os países imperialistas, principalmente a Europa e os Estados Unidos. “Se houver um conflito com o Brasil, os europeus não vão ficar do lado do Brasil. O imperialismo tem uma política mais ou menos coesa nessas coisas”, afirmou.

O dirigente do PCO também tratou da situação eleitoral brasileira. Para ele, a eleição de 2026 está longe de estar definida. Ele criticou a avaliação de setores da esquerda segundo a qual Lula já estaria praticamente reeleito. “O panorama eleitoral está completamente indefinido”, afirmou.

Segundo Rui, o PT subestima o bolsonarismo e o desgaste do próprio partido. “A base do bolsonarismo é uma base bastante sólida, infelizmente”, declarou. Para ele, a prisão de Jair Bolsonaro não destruiu o movimento bolsonarista, como muitos setores da esquerda imaginavam. “O pessoal acreditou que, se colocasse o Bolsonaro na cadeia, o bolsonarismo viria abaixo. Um cálculo totalmente errado”.

Rui destacou que o bolsonarismo é unificado, em grande medida, pelo antipetismo. “O PT está no governo há muito tempo, criou-se uma opinião contrária, e o bolsonarismo tem capitalizado esse antipetismo”, afirmou.

Mais adiante, ao responder a um comentário do público que classificava os eleitores de Bolsonaro como “canalhas”, Rui rejeitou essa abordagem. Para ele, a esquerda precisa compreender por que milhões de pessoas apoiam o bolsonarismo.

“O país está dividido meio a meio. Nós estamos dizendo que metade da população brasileira é canalha? Não é assim”, afirmou. Segundo Rui, muitos apoiadores de Bolsonaro são trabalhadores ou setores populares revoltados com a situação, mas politicamente atrasados. “Eles são setores revoltados mais conservadores. Então eles são atraídos pela demagogia do bolsonarismo”.

Para Rui, sem compreender esse fenômeno, a esquerda não conseguirá disputar a base popular da direita. “Tem muito trabalhador que vota no Bolsonaro hoje em dia. Nós não vamos procurar chegar nesse trabalhador? Precisa tomar cuidado com isso”, afirmou.

O presidente do PCO também analisou a crise da esquerda latino-americana. Para ele, a ascensão da extrema direita não é apenas resultado da força da direita, mas do esgotamento dos regimes políticos tradicionais, tanto à esquerda quanto à direita. “Há um esgotamento da esquerda latino-americana. Esse esgotamento não é só da esquerda. É um esgotamento tanto da esquerda como da direita tradicional. É um esgotamento do regime”, disse.

Rui Pimenta citou o desaparecimento do PSDB no Brasil como exemplo da liquidação da direita tradicional. Na Argentina, na Colômbia, no Chile e em outros países, segundo ele, o fenômeno é semelhante: os partidos tradicionais entram em colapso e a extrema direita capitaliza a crise.

“A extrema direita tem mais condição, mais estrutura. É uma força política burguesa”, afirmou. No Brasil, disse Rui Pimenta, o bolsonarismo representa setores médios da burguesia brasileira, enquanto as frações mais diretamente ligadas ao grande capital perderam espaço eleitoral próprio.

Para ele, o terceiro governo Lula expressa o esgotamento político do PT. “Ele não apresentou nada, ele não ofereceu nada. É um esgotamento do PT. O esgotamento é visível”, afirmou. A saída, segundo Rui, seria uma esquerda que rompesse com o regime político. “Ou você tem um setor de esquerda que apareça contestando o status quo ou a extrema direita vai tomar conta”.

Ao tratar da Bolívia, Rui afirmou que o levante popular no país aponta o caminho para a América Latina. “O povo boliviano tem uma maior capacidade de mobilização e, num certo sentido, está mostrando o caminho para os demais, para os brasileiros, para os argentinos, para todos”, afirmou.

Segundo Rui, a Bolívia vive uma situação pré-revolucionária, marcada pela mobilização de operários, camponeses e setores indígenas. Ele destacou que a força do movimento boliviano está na aliança entre trabalhadores das cidades e o campesinato. “A mobilização é uma aliança entre os setores operários das cidades e o campesinato”, disse.

Rui comparou a situação atual com a Revolução Boliviana de 1952, quando se materializou uma importante aliança operário-camponesa. “Na Bolívia nós já vimos essa aliança. Essa é a aliança da Revolução de 1952”, afirmou.

Para ele, a situação boliviana coloca novamente o problema do socialismo. “O capitalismo latino-americano está falido. Não é só aqui. O europeu está falido, o norte-americano também está falido, mas aqui a falência é total”, disse. Sobre a Bolívia, concluiu: “se a gente falar que a saída da Bolívia é o capitalismo, isso é um sofrimento imenso para a maioria daquele país.

Outro tema importante foi o identitarismo. Ele afirmou que a esquerda não compreende que o identitarismo não é uma força de oposição, mas parte do próprio regime. “O identitarismo não é o antissistema. O identitarismo é o status quo”, afirmou.

Ele citou a rede Globo como exemplo de instituição dominante que incorporou a política identitária. “No Brasil, se você quer coisa mais identitária do que a Rede Globo? Identitário não é um movimento de uns pobres coitados lutando contra os opressores. Os opressores são identitários”, disse.

Segundo Rui, essa política favorece a extrema direita, que se apresenta como antissistema diante de uma esquerda cada vez mais associada aos setores dominantes. “A extrema direita se beneficia muito disso e a esquerda paga um preço altíssimo”, declarou.

A entrevista também abordou o crescimento da discussão sobre comunismo na Internet. Rui Pimenta avaliou positivamente o interesse crescente da juventude pelo socialismo, apesar de considerar confusas muitas formulações dos chamados “webcomunistas”.

“Não há motivo nenhum para duvidar da viabilidade do comunismo”, afirmou. Ele lembrou que a história registrou revoluções importantes na Rússia, na China, no Vietnã e em outros países. “A história provou que isso é uma tendência real”, disse.

Para Rui, a crise atual do capitalismo recoloca o problema da revolução. “O período em que os capitalistas tinham o controle da situação passou”, afirmou. Ele acrescentou que as alternativas reformistas e democráticas estão sendo negadas pelos acontecimentos atuais. “As propostas reformistas, a ideia de que a democracia vai resolver o problema, isso está sendo completamente negado pelos acontecimentos atuais”.

Sobre os jovens comunistas da Internet, Rui Pimenta afirmou que o fenômeno revela um interesse real da juventude. “Eu acho que é um fenômeno interessante porque mostra o interesse da juventude no tema do socialismo”, disse. Embora critique a falta de uma doutrina mais sólida, Rui afirmou que a discussão é positiva: “quanto mais discussão houver sobre o socialismo, sobre a revolução, melhor”.

Ele também apontou a necessidade de uma teoria revolucionária séria no Brasil. Para Rui Pimenta, o PT criou uma tradição política oportunista e teoricamente pobre. “O PT não tem doutrina. O PT vive numa espécie de folclore político que eles vão criando à medida que vão avançando”, afirmou.

Na mesma linha, criticou o PSOL e o PCdoB. Segundo Rui, o PSOL é “mais raso” que o PT, enquanto o PCdoB, que já foi um partido mais doutrinário, tornou-se um partido eleitoral. “Não pode haver um movimento revolucionário sério sem uma doutrina revolucionária séria”, declarou.

O programa também discutiu o ressurgimento do trabalhismo entre jovens. Rui avaliou o fenômeno como positivo, embora mais confuso teoricamente que o socialismo. “É uma tendência de tipo anti-imperialista. Esse negócio do trabalhismo é um nacionalismo. Eu acho isso positivo”, afirmou.

Segundo ele, o PCO deve dialogar com todos os setores dispostos a defender o Brasil contra o imperialismo. “Nós não temos nada a ver com o trabalhismo diretamente, mas, na medida em que eles querem defender o Brasil contra o imperialismo, tudo bem, vamos discutir”, disse.

Ao final, Rui Pimenta defendeu a necessidade da vanguarda revolucionária. Para ele, a ideia de que o povo se auto-organizará espontaneamente, sem partido e sem direção, não corresponde à realidade. “Você precisa ter um partido que dirija e esse partido deveria ser a vanguarda da classe”, afirmou.

 

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