Esses dias, após usar o ChatGPT para alguns trabalhos e ouvir respostas bastante naturais, me lembrei de um filme de 2013 chamado Ela (Her, 2013), do diretor norte-americano Spike Jonze. Resolvi voltar a esse filme para ver o quanto ele já retratava a atual situação que vivemos.
Confesso que, após assistir dessa vez, fiquei desapontada. Ao contrário daquele momento, hoje vejo a película como uma peça de publicidade superficial, disfarçada de ficção científica intelectual.
Spike Jonze é um cineasta contemporâneo, trabalhador de Hollywood, com vasta experiência na indústria de entretenimento (TV, videoclips, cultura pop). Seus filmes têm uma aparência de independentes e intelectuais, mas, na verdade, fazem parte de uma cinematografia que tem Wes Anderson como principal representante. A cinematografia é bonita e autoral; o tema é instigante, mas, no final, temos apenas filmes publicitários, com ótima fotografia.
Na semana passada, analisei O Assassino do Czar, filme de produção russa e inglesa de 1991, e destaquei o evidente apagamento da luta de classes e da operação que visa elevar a memória do Czar Nicolau II. Ela realiza operação semelhante, mas deslocada para o capitalismo contemporâneo.
Ambientado em Los Angeles, em um futuro próximo, o enredo acompanha Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor divorciado de vida alienada e pequeno-burguesa (semelhante à da audiência que o assiste). Seu trabalho consiste em escrever cartas para estranhos em uma firma especializada (referência que, na minha opinião, vem do filme Central do Brasil, 1998, de Walter Sales).
Ele enfrenta uma profunda melancolia, provocada pelo fim de seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Solitário, adquire um avançado software dotado de inteligência artificial como companhia.
O sistema não é como os chatbots que usamos hoje, mas um serviço de voz inteligente. Surge, então, Samantha (Scarlett Johansson), que rapidamente desenvolve uma personalidade própria e estabelece com Theodore uma relação afetiva que evolui para um romance.
Ao redor desse núcleo gravitam Amy (Amy Adams), amiga de Theodore que também enfrenta uma crise conjugal; Paul (Chris Pratt), chefe do protagonista; e Isabella (Portia Doubleday), jovem que aceita servir de intermediária física entre Samantha e ele.
A partir dessa premissa, Spike Jonze parece construir uma narrativa sobre solidão, amor, tecnologia e as transformações das relações humanas na era digital.
Contudo, em vez de investigar as condições materiais que produzem a solidão e a alienação, o filme transforma esse sofrimento em uma fábula psicológica sobre um indivíduo com dificuldade de socialização.
Desde o início, a narrativa estabelece que trocas sentimentais entre seres humanos se transformaram em mercadoria e fonte de lucro. Theodore vende sua capacidade de escrever durante o expediente e, quando volta para casa, não consegue organizar a própria vida afetiva. Sua alienação não começa com a inteligência artificial, mas como uma extensão de seu trabalho.
A cidade em que vive reforça essa percepção. Los Angeles aparece como uma sucessão de interiores, corredores, elevadores, vagões de metrô e apartamentos impecáveis. Quase não há conflito social, pobreza, organização coletiva ou qualquer sinal das relações de produção que sustentam aquele mundo. O capitalismo é naturalizado em produtos, trabalho e conforto. Sem contradições sociais, o filme faz com que a depressão seja apenas um problema psicológico.
Nesse cenário, Samantha representa uma inovação. O mercado, depois de transformar emoções em serviço, passa a oferecer uma tecnologia capaz de administrar o sofrimento produzido por essa mesma forma de vida. Samantha, como tecnologia controlada pela burguesia, não elimina a alienação, mas a torna suportável.
Há uma pequena cena para compreender isso. Durante a instalação do sistema operacional, Theodore escolhe uma voz feminina. A escolha não é imposta pela tecnologia, mas corresponde ao desejo do consumidor. Samantha assume, então, uma forma historicamente construída: a da mulher destinada ao cuidado emocional. Ela escuta, acolhe, organiza a rotina de Theodore, estimula sua criatividade e permanece sempre disponível. O trabalho afetivo, historicamente atribuído às mulheres, reaparece agora como serviço tecnológico.
Mas Samantha possui uma característica ainda mais importante: ela não tem corpo. É justamente essa ausência que explica sua aparente perfeição. Samantha não envelhece, não adoece, não ocupa espaço, não interrompe a rotina de Theodore nem impõe as limitações próprias da vida material. Ela existe apenas como um produto perfeito.
Nesse ponto, a tecnologia deixa de ser o foco e passa a funcionar de maneira simbólica e contraditória. De um lado, o filme parece construir uma versão contemporânea da musa romântica: uma mulher idealizada e inatingível, refletindo o espírito dos poetas do século XIX, agora na forma de um software.
A fantasia mostra seu limite na cena em que Samantha convida Isabella para servir de intermediária física no relacionamento. Até então, Theodore conseguia idealizar a inteligência artificial justamente porque ela existia apenas como voz. Quando um corpo real entra em cena, a relação não se sustenta. Os gestos tornam-se artificiais, o constrangimento domina e o romance deixa de funcionar.
O corpo devolve à relação aquilo que Samantha não pode suprir: a materialidade da existência. A tecnologia não consegue abolir o fato de que o sentimento amoroso acontece entre seres concretos, limitados por tempo, espaço e necessidades materiais.
A mediação comercial entre Theodore e Samantha adiciona outra contradição: o produto se torna um substituto da prostituição. Podemos falar da digitalização ou da transformação digital da mais velha profissão do mundo, visto que ela oferece a fantasia que ele quer. Porém, se a prostituição comercializa o corpo, Samantha comercializa a subjetividade.
No final, a narrativa oferece apenas soluções individuais. Sem questionar as condições sociais que produzem a alienação, o enredo reorganiza a vida emocional do protagonista, que supera o fim do seu casamento. Como em grande parte do cinema burguês contemporâneo, é apenas psicologia da adaptação.
Esse é o principal limite de Ela. Spike Jonze identifica o mal-estar de uma sociedade em que até o afeto foi mercantilizado, mas não alcança as relações sociais que produzem esse mal-estar.
A forma do filme, entretanto, permite uma leitura que vai além de suas próprias limitações. Ela é também um sintoma: ao deixar de apontar que a sociedade de classes capitalista produz sujeitos dispostos a comprar, como mercadoria, aquilo que antes era construído nas relações humanas, o filme reafirma a fábula sobre um sistema perfeito que precisa mostrar aos que vivem nele que sua insatisfação é um defeito pessoal e que tudo é uma questão de esforço pessoal e de superação.




