Polêmica

A esquerda ‘antissistema’ reformista

A maioria da esquerda no Brasil abandonou o socialismo e passou a defender reformas no Estado burguês, o que não passa de capitulação

Falso Espelho (1928) - René Magritte

A esquerda brasileira, em sua maioria, não consegue mais falar em socialismo. No artigo O que é ser antissistema?, de André Valuche, publicado no sítio Esquerda Online nesta terça-feira (2), o que se apresenta ali é um reformismo tímido.

No olho, o texto diz que se trata de “Um artigo de inquietação para buscar respostas e caminhos de ação política.” Para quem é marxista, a resposta já existe, é preciso emancipar a classe trabalhadora e, consequentemente, a humanidade. Isso só pode ser conquistado com a derrota da burguesia e seu Estado.

Valuche inicia seu artigo dizendo que “observando o resultado do primeiro turno das eleições na Colômbia, as movimentações políticas no Peru e a disputa intensa que se desenha no Brasil, volta ao centro do debate uma questão fundamental: afinal, o que significa ser antissistema?” Em seguida, escreve que “é preciso responder a essa pergunta de forma nítida e categórica.”

Para o autor, “ser antissistema é defender os interesses e os direitos fundamentais da maioria do povo trabalhador. É estar ao lado dos explorados e oprimidos. É defender a população negra contra o racismo, as mulheres contra o feminicídio, a população LGBTQIA+ contra a discriminação e a violência, os povos indígenas em seu direito à terra e à autodeterminação”.

E quais são os interesses da classe trabalhadora? O fundamental é a extinção de todas as classes. Todos os outros interesses são parciais e subordinados a este. A violência racial, contra as mulheres e minorias, é fruto direto de uma sociedade dividida em classes, e só poderá ser combatida de fato com o socialismo.

Enquanto não se conquista a emancipação, é preciso, claro, lutar pelos direitos democráticos da população, pois nada será conquistado sem lutas. Porém, é preciso um cuidado nessa questão, pois, sob o pretexto de se garantir direitos, o identitarismo se infiltrou na esquerda e tem servido para aumentar a repressão.

Surgiram diversas leis repressivas, como a do racismo que, em última instância, e como este Diário já tinha alertado, tem servido para proteger os verdadeiros racistas. Hoje, no Brasil, quem critica o genocídio que os sionistas têm perpetrado na Faixa de Gaza é acusado e processado por antissemitismo, ainda que muitos judeus, inclusive rabinos, não se cansem de denunciar o sionismo como sendo o pior inimigo do judaísmo.

Não se pode chamar de homem uma pessoa do sexo masculino que se identifique como mulher. Isso pode dar cadeia e, dependendo do entendimento do juiz, as penas são duríssimas, equiparáveis a um homicídio simples.

Em nome de se proteger as mulheres, criaram o crime de “misoginia”, um tipo de crime subjetivo, que contraria o Direito, e que pode ser equiparado ao crime de racismo. Essa medida, da deputada Tabata Amaral, foi abraçada em peso pela direita, já foi aprovada no Senado e está em tramitação para a Câmara.

A pena por “misoginia” pode encarcerar uma pessoa entre 2 e 5 anos, além de multa. Porém, existem ainda os agravantes, que podem dobrar a pena.

A esquerda, que diz querer lutar pelos direitos da classe trabalhadora, está munindo o Estado burguês com outras ferramentas para oprimir ainda mais os trabalhadores.

Vale destacar que dentre esses instrumentos existe a supressão da liberdade de expressão, uma bandeira histórica da esquerda que os pequeno-burgueses de hoje tratam como defesa do fascismo.

Questões menores

Uma das manias da maioria da esquerda é se apegar a assuntos que saem corriqueiramente na grande imprensa, como dizer que o sistema “convive historicamente com práticas de corrupção e com a apropriação privada de recursos que deveriam servir ao interesse público”. Serve-se de exemplos como “Claudio Castro aliado da família Bolsonaro e o Banco Master saquearam o estado com negócios sujos e ligações com o tráfico de drogas”, que cabem muito bem em manchetes sensacionalistas.

Castro, como outros, é funcionário da burguesia. A corrupção faz parte desse negócio. Se ele supostamente ganha dinheiro com esquemas, os seus patrões estão lucrando muito mais.

O caso do Banco Master, que ganhou os noticiários ultimamente, demorou 10 anos para um desvio de R$ 52 bilhões, dinheiro que os grandes bancos arrancam do orçamento público em poucos dias apenas com o pagamento de juros da dívida.

A corrupção, quando comparada ao rombo no orçamento provocado por uma dívida criminosa, acaba sendo uma questão lateral. Cláudio Castro e outros políticos não se apropriam do Estado para benefício próprio, eles atuam para o grande capital.

Muitos grupos de esquerda se esquivam de apontar os bancos, o capital financeiro, como o principal inimigo da classe trabalhadora, pois financiam muitas ONGs que dizem proteger os negros, a natureza, etc.

O programa

Segundo o autor do artigo, “diante dos desafios colocados para o próximo período, é necessário construir um programa verdadeiramente antissistema. Um programa que enfrente os privilégios do andar de cima e proponha mudanças estruturais capazes de reduzir as desigualdades sociais”. E qual é o programa desse partido que estão precisando criar outro?

Quem vai sair às ruas para “o combate aos supersalários no serviço público, a revisão dos privilégios dos altos cargos dos poderes da República e mecanismos de maior controle democrático sobre os mandatos parlamentares”? Isso não mobiliza a classe trabalhadora. E o inimigo é a burguesia, não o supersalário, que só pode ser combatido dentro das pressões da classe trabalhadora contra o Estado.

Da mesma maneira, é inócuo “abrir debates sobre o funcionamento das instituições e sobre formas de ampliar a participação popular nas decisões políticas”.

O “debate” da esquerda sobre o funcionamento das instituições, na terra de Joaquim Barbosa, é fazer propaganda para colocarem uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal.

De qual ampliação da participação popular estão falando, a criação de conselhos populares com poder deliberativo, ou querem ONGs administrando o Estado?

O “programa”, é preciso que se diga, não passa de um programa eleitoral; por isso, fala em saúde, educação e segurança pública, outra bandeira da direita que a esquerda pequeno-burguesa abraçou.

Finalmente, essa esquerda fala em “construir uma alternativa antissistema”, “projeto”, “democracia”, “igualdade”, mas não fala em socialismo, pois isso não dá voto, a classe média não gosta.

A maioria da esquerda capitulou para a burguesia, se presta agora a ser polícia anticorrupção e propor reformas no Estado burguês para diminuir um pouco as desigualdades. Isso nunca irá emancipar a classe trabalhadora.

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