O artigo Pressão popular obriga Câmara dos Deputados a aprovar fim da escala 6×1, de Felipe Annuziata, publicado no sítio A Verdade nesta quinta-feira (28), procura apresentar a aprovação da proposta sobre a escala 6×1 como resultado de uma grande mobilização popular.
É o que se lê no olho do texto, segundo o qual, “após 38 anos de mobilização da classe trabalhadora brasileira e o crescimento de 14% das greves em 2025, deputados federais aprovam emenda na Constituição pelo fim da escala 6×1 e reduzir a jornada de trabalho”.
A formulação exagera o que ocorreu. A classe trabalhadora passa por um período de refluxo. Além do avanço da política neoliberal e dos ataques aos direitos trabalhistas realizados pelo golpista Michel Temer, que praticamente acabou com as contribuições sindicais, os anos de governos petistas colocaram a CUT e os sindicatos em uma situação de paralisia.
Existia, nas direções sindicais, a crença de que a mobilização por direitos prejudicaria o governo. Na realidade, ocorreria o contrário. Uma base trabalhadora forte daria mais sustentação aos governos petistas. Sem esse apoio organizado, esses governos acabaram reféns da direita, fazendo acordos ora com o Congresso, ora com o Supremo Tribunal Federal (STF).
Inflando os números
Segundo o artigo, “diante da crescente pressão popular, com manifestações em shoppings, supermercados, greves nas fábricas e manifestações de rua, a Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta (27/05), a PEC 8/2025 que decreta o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais”.
O movimento pelo fim da escala 6×1 não surgiu apenas no Brasil. Iniciativas semelhantes aparecem em outros países e encontram certo apoio até em setores da burguesia, que entendem a mudança como parte de uma política mais ampla de flexibilização da jornada de trabalho.
Um dos objetivos da classe dominante é impor a escala 4×3, proposta que já ganha força porque traz vantagens para os capitalistas. Uma delas está no modo de calcular horas extras, finais de semana e dias de descanso, que podem deixar de ser pagos como hoje.
Com a flexibilização, vem a redução salarial. Na prática, os trabalhadores podem ser empurrados a procurar outros empregos para complementar a renda, passando a trabalhar em uma escala 7×0.
A flexibilização também permite que empresas com ciclos sazonais mantenham um número menor de empregados fixos, contratando apenas nos períodos de maior demanda.
A burguesia terá de fazer ajustes para se adaptar à nova escala. No entanto, a “crescente pressão popular” apontada pelo artigo não apareceu nas ruas. A CUT tentou organizar manifestações, mas levou pouquíssima gente pras ruas, principalmente comparado à sua capacidade de mobilização.
Também é exagerado dizer que “nos últimos meses, a pressão dos trabalhadores cresceu e a pauta da redução da jornada para 36 horas semanais se ampliou fortemente, o que levou os setores do Centrão a buscarem algum acordo com a social-democracia no Congresso e os chefes dos sindicatos patronais”.
Quem viu as manifestações que levaram ao fim da ditadura militar e as greves do ABC sabe o que é pressão popular. Mesmo os confrontos de 2013, motivados inicialmente pelo preço do transporte público, foram muito superiores ao que se vê agora. Naquela ocasião, o governo estadual foi obrigado a recuar.
A luta parlamentar
Toda a movimentação em torno da escala se desenvolve dentro do Congresso. Como diz o próprio texto, “no início desta semana, o governo federal e o chefe do Centrão e presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB) apresentaram um acordo em que se aprovaria o fim da escala 6×1 60 dias após a promulgação da PEC e a redução gradual da jornada semanal de trabalho durante 14 meses, sendo 42 horas já em 2026 e 40 horas em 2027”.
A aprovação na Câmara foi praticamente unânime: 461 votos a favor e 19 contrários. A esquerda deveria desconfiar de um placar tão elástico quando não houve uma mobilização operária capaz de impor uma derrota desse tamanho ao Congresso.
Houve uma pequena resistência, descrita pelo artigo da seguinte forma: “durante toda a tramitação da PEC na Câmara, os deputados fascistas tentaram barrar o fim da escala 6×1 apresentando propostas para aumentar a jornada de trabalho para 52 horas semanais, depois tentaram aprovar que houvesse uma transição de 10 anos para se alcançar as 44 horas semanais”.
Como era de se esperar, essas iniciativas não prosperaram. Ainda assim, o autor procura tirar conclusões eleitorais, afirmando que “nas ruas o aumento da pressão popular, refletindo inclusive no processo eleitoral, com a queda dos candidatos fascistas e de direita em pesquisas, obrigou o Centrão a recuar em aceitar alguma das propostas dos fascistas”.
Ainda falta muito para as eleições, e as pesquisas não indicam o que ocorrerá até outubro.
Imprensa burguesa
Na grande imprensa, há certa resistência à aprovação da medida, mas nada decisivo. A burguesia sabe que alguns setores da economia terão perdas e, por isso, procura ajustes até encontrar uma forma mais conveniente de acomodar a mudança. O Senado ainda deve propor alterações, mas não há indicação de que vá rejeitar a proposta.
Empolgado com essa “vitória”, o autor do artigo afirma que “é preciso ampliar o número de greves no país e construir grandes mobilizações. A classe trabalhadora brasileira mais uma vez mostrou que pode vencer mesmo com um Congresso lotado de fascistas e corruptos.”
É preciso ampliar o número de greves e organizar grandes mobilizações. O problema é que isso não está acontecendo.
Uma prova do marasmo é que nem o 1º de Maio foi comemorado adequadamente. A CUT se omitiu completamente da capital paulista, e os partidos menores não conseguiram organizar um ato unificado.
Em uma de suas análises políticas semanais, Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, disse que o partido preferiu fazer um ato próprio porque, nos atos da esquerda, é preciso disputar até o direito de falar ao microfone. Há uma completa falta de democracia.
Fica a pergunta: se esses grupos não conseguem sequer permitir o uso da palavra em seus próprios atos, como pretendem organizar grandes mobilizações?





