Polêmica

Esquerda ‘Datena’ quer agora combater o crime organizado

Não se pode chamar de esquerda um grupo que se propõe a combater o crime, fazer o papel de polícia do Estado burguês

Chacina

A esquerda brasileira vai de mal a pior, como demonstra o artigo É possível derrotar o crime organizado! Por um plano de esquerda contra as máfias, publicado no sítio Revista Movimento, ligado ao MES-PSOL, nesta terça-feira (2).

No Brasil, a maior parte da esquerda pequeno-burguesa tem sua política determinada pelas iniciativas da direita. Em setembro de 2025, por exemplo, a Rede Globo convocou manifestações e setores da esquerda compareceram. O mesmo ocorre agora. Donald Trump resolve “combater o crime organizado”, e essa esquerda passa a defender uma política própria para “combater” a si mesma.

Para disfarçar o servilismo, o olho do texto afirma que “o combate ao crime organizado brasileiro passa necessariamente por um projeto de país que também enfrente a atual dinâmica da acumulação capitalista, altamente financeirizada, monopolizada e especulativa”.

O problema é que o “combate ao crime organizado” não é tarefa da esquerda. A esquerda não deve fazer o papel de polícia do Estado burguês.

A reboque do imperialismo

No primeiro parágrafo, o MES afirma que “a recente classificação pelo governo dos Estados Unidos do Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas coloca, mais uma vez, o tema do crime organizado como parte central da política brasileira”. Ou seja, é o imperialismo que determina a política dessa esquerda.

Um dos argumentos do MES é que “as facções criminosas são empresas capitalistas, em busca de lucro, estreitamente conectadas com grandes empresas, a política e o capital financeiro”. Se esse é o caso, por que lutar especificamente contra o “crime organizado” em vez de lutar contra o capitalismo?

Outra preocupação do grupo é que “há um processo de monopolização do crime organizado brasileiro, que tem levado à financeirização desses mesmos grupos. Operações bilionárias, como as feitas hoje pelo CV e PCC, são impensáveis sem que haja uma relação umbilical dessas facções com os grandes bancos, o Estado brasileiro e empresas multibilionárias”.

A conclusão do trecho é que “o combate ao crime organizado brasileiro, portanto, passa necessariamente por um projeto de país que também enfrente a atual dinâmica da acumulação capitalista, altamente financeirizada, monopolizada e especulativa. O enfrentamento à política econômica neoliberal e ao crime organizado precisam andar de lado a lado”.

Foi necessário misturar tudo para esconder a política real do MES: fazer demagogia com a classe média, de quem pretende obter votos, e com a burguesia, a quem procura se mostrar confiável.

Naturalmente, essa esquerda não vai defender o “combate ao crime” nos mesmos termos de qualquer demagogo da direita. Por isso, o artigo afirma que “é preciso ampliar o debate sobre qual o programa de combate ao crime organizado da esquerda radical, para afirmar que derrotar o crime organizado brasileiro e as máfias é possível”.

Em seguida, apresenta uma lista, uma espécie de plataforma eleitoral, com propostas que “não pretendem em absoluto esgotar o tema, nem se colocar como respostas finais”. Seriam, segundo o próprio texto, “mais provocações do que propostas fechadas”.

Seguem daí quase 18 mil caracteres divididos em sete tópicos e subtópicos. O texto fala em “derrotar a máfia do capital financeiro”, mas mira principalmente bancos menores, inclusive alguns que chegaram a incomodar os grandes bancos, como o Master.

O artigo fala também em combate à lavagem de dinheiro e em enfrentamento ao armamento e ao tráfico de armas. Trata-se de uma proposta extremamente reacionária, ainda mais para um grupo que se reivindica revolucionário.

O combate às armas é uma bandeira típica da direita. Para se justificar, o autor do texto, Theo Louzada Lobato, recorre a Bolsonaro e defende encerrar progressivamente os clubes de tiro, restringir licenças de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores) e reforçar a fiscalização sobre importação e circulação de armamentos.

Não bastasse isso, o MES propõe “valorizar” o trabalho das polícias, chamadas no artigo de “agentes de segurança”. Todos sabem que se trata de agentes da repressão. Para esses “revolucionários”, “é necessário refletir sobre as próprias condições econômicas desses agentes, para que haja um combate à infiltração e cooptação do crime no aparelho estatal”.

A velha demagogia sobre o controle da violência policial também aparece. No entanto, o que se pede ali são “melhores condições para agentes da segurança pública: Debater planos de carreira e salariais dignos, que compreendam o risco que vivem diariamente os agentes de segurança e permitam uma boa condição de vida também é fundamental”. Afinal, uma polícia mais bem remunerada também estará em melhores condições de reprimir a população.

Degeneração política

O artigo do MES é uma capitulação completa. Um grupo que se reivindica do trotskismo passa a defender a reforma do Estado burguês e o “combate ao crime”, como faz qualquer político da direita.

A política de “combate ao crime” é, ela própria, uma política criminosa contra os trabalhadores. A burguesia, responsável pelas desigualdades sociais e pela violência, promete acabar com a criminalidade que ela mesma produz e, sob esse pretexto, reprime de maneira cada vez mais violenta a população. Faz todo tipo de demagogia para obter votos e continuar explorando a miséria.

Não se pode chamar de esquerda um grupo que se proponha a “combater o crime”, organizado ou não. É preciso combater a burguesia, o capitalismo e denunciar a origem social da violência.

Quem se propõe a “combater o crime” coloca-se ao lado de Cláudio Castro e de tantos outros governos que lançam a polícia contra as favelas e promovem chacinas contra a população pobre.

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