É preciso fazer algumas considerações sobre o artigo Lançamento do Manifesto Internacional Contra o Fascismo, publicado no sítio Esquerda Online nesta segunda-feira (1º).
O texto começa afirmando que “mulheres de várias partes do mundo comprometidas com a democracia e os direitos humanos assinam o Manifesto Internacional contra o Fascismo 26. Este documento foi escrito pela primeira vez em 2018 e tem uma segunda edição atualizada que foi apresentada no dia 31 de maio, no final do 2º Festival MEL – Mulheres em Luta, que aconteceu em São Paulo.”
O manifesto foi apresentado no encerramento do 2º Festival MEL – Mulheres em Luta, realizado em São Paulo, em 31 de maio. Trata-se de uma iniciativa inscrita na tendência atual de setores da esquerda que apresentam a política como uma oposição entre “democracia” e “fascismo”. Não é algo estranho. Entre os nomes que assinam o documento, há pessoas ligadas a ONGs financiadas por grandes grupos capitalistas, como o Banco Itaú, o que compromete qualquer defesa consequente do socialismo.
Segundo o artigo, “essa articulação nasce para enfrentar o neofascismo latente em 2026. Além disso, vem para fortalecer a solidariedade internacional entre mulheres, abrindo caminho para a construção de uma internacional feminista em 2027.”
Desigualdade social
No segundo parágrafo do manifesto, as signatárias escrevem que “desde esse encontro sediado no Brasil, onde acabamos de viver o trimestre mais feminicida do século XXI, nos levantamos”. Sem entrar no mérito de o número de assassinatos de mulheres ter aumentado ou não, o fato é que a violência é produto das desigualdades sociais.
Os bancos, no Brasil, abocanham mais da metade do orçamento público, o que impede a construção de creches, a ampliação dos serviços públicos de saúde e a adoção de medidas concretas em defesa das mulheres trabalhadoras. Além disso, a política de juros praticada pelo Banco Central (BC), controlado pelos banqueiros, tem endividado e asfixiado as famílias.
A luta pelos direitos das mulheres passa, necessariamente, pela luta contra o sistema financeiro, que aprofunda a desigualdade social e aumenta a violência contra os setores mais explorados da população. A questão é simples: como lutar contra o sistema financeiro quando se é patrocinado por ele?
O manifesto afirma que as mulheres se levantaram porque, “nas palavras do imperialismo norte-americano, as ‘brasileiras são programadas para criar confusão’.” Em seguida, chama “as mulheres de todo o mundo, trabalhadoras, de todos os povos explorados e oprimidos, de todas identidades de gênero, sexualidades e de todas as idades, a se reconhecerem como aquilo que verdadeiramente somos na prática: um cordão sanitário global contra o fascismo”.
O imperialismo norte-americano não está sozinho. Os países mais ricos da Europa apoiam e atuam em conjunto com os Estados Unidos.
As políticas identitárias, apresentadas como defesa das mulheres, têm servido para dissolver a própria noção objetiva de mulher. Ao tratar a condição feminina como uma declaração subjetiva, esse tipo de política substitui a defesa material das mulheres trabalhadoras por uma disputa jurídica e burocrática favorável à intervenção do Estado.
No terreno jurídico, aquilo que é apresentado como defesa de minorias transformou-se, muitas vezes, em leis que ajudam o Estado a perseguir a população.
A ‘novidade’
O artigo também afirma que “estamos vivendo uma nova etapa da crise global do capitalismo. Depois da pandemia, em meio a guerras, do aprofundamento da emergência climática e da explosão das desigualdades, o sistema tenta reorganizar sua dominação através do autoritarismo, do militarismo, do racismo, da misoginia e da exploração extrema da vida e da natureza.”
A formulação é equivocada. O que há é o aprofundamento da crise aguda do capitalismo. A ideia de uma “nova etapa” serve, muitas vezes, para justificar a necessidade de “novas” formas de luta, isto é, para dar aparência inovadora ao abandono do socialismo e à defesa da democracia burguesa.
Um dos problemas do documento é apresentar o fascismo de maneira genérica e imprecisa. O manifesto afirma que “o fascismo do nosso tempo alimenta-se do negacionismo científico, do racismo, da misoginia, da violência de gênero, da LGBTfobia, do fundamentalismo religioso, da destruição dos direitos sociais e do planeta. É o projeto do ódio, das guerras e da morte.”
Embora fale em “negacionismo científico”, o identitarismo nega a realidade biológica do sexo, elemento fundamental para a defesa dos direitos das mulheres. Foi a partir dessa realidade objetiva que as mulheres foram colocadas em condição de opressão.
Ao reunir, no mesmo parágrafo, “guerras”, “morte” e “fundamentalismo religioso”, o manifesto produz uma confusão política. Grupos de esquerda que dizem defender os direitos das mulheres, em geral, não apoiam países atacados pelo imperialismo quando estes são acusados de “fundamentalismo”.
Quando o Talibã derrotou e expulsou a OTAN do Afeganistão, muitos setores da esquerda lamentaram a derrota imperialista sob o argumento de que o Talibã oprimiria as mulheres. Ocorre que as mulheres afegãs foram atiradas na miséria e sofreram todo tipo de violência sob a ocupação dos “países civilizados”.
Na agressão brutal do imperialismo contra o Irã, inúmeros grupos afirmaram “apoiar o povo”, mas não o governo, justamente aquele que combatia os agressores e contava com apoio popular generalizado, com manifestações gigantescas tomando as ruas das principais cidades iranianas todos os dias.
“Israel”, país artificial que mantém um regime de apartheid e tem caráter abertamente fascista, é apoiado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, apresentados como democráticos. Enquanto esses governos “democráticos” massacram crianças e mulheres, a maioria da esquerda recusa-se a apoiar o Hamas, principal partido da Resistência Palestina, por se tratar de uma organização islâmica.
A rejeição ao “fundamentalismo” tem servido para proteger os verdadeiros fascistas, racistas e assassinos de mulheres.
Democracia burguesa e fascismo
Na Alemanha, regime apresentado como democrático, inúmeros vídeos mostram mulheres sendo violentamente espancadas pela polícia por usarem um lenço ou por pronunciarem frases em apoio ao povo palestino.
No Reino Unido, milhares de manifestantes foram presos e acusados de terrorismo por denunciarem o genocídio na Faixa de Gaza.
A pergunta que se coloca é: que democracia é essa que não fica devendo nada ao fascismo?
A esquerda pequeno-burguesa vende uma ilusão. A democracia burguesa e o fascismo são formas distintas de domínio da burguesia. Lutar pela “democracia”, em abstrato, não vai emancipar as mulheres. Apenas as coloca a reboque das democracias liberais, que fazem guerras e atuam ao lado do Estado genocida e fascista de “Israel”.





