O risco Colômbia, artigo de Arnóbio Rocha, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (1º), mostra o caráter conciliatório de parte da esquerda brasileira, que não consegue fazer o balanço correto da situação política, e de que a conciliação com setores direitistas apenas afastou o eleitorado.
Para Arnóbio Rocha, “o Presidente Gustavo Petro se colocou à esquerda de Lula, foi para o enfrentamento mais direto, em vários temas se posicionou de forma diversa do Presidente brasileiro, o que lhe rendeu um apoio maior na esquerda do Brasil, quase como um contraponto.”
A percepção do endireitamento de Lula é bastante evidente, e uma consequência direta das escolhas feitas pelo presidente, que preteriu a base e fez acordos por cima, desde a escolha do vice, Geraldo Alckmin, que só foi aplaudida pela esquerda tucana. O governo Petro, por sua vez, esteve bastante isolado e talvez isso explique a sua maior radicalização.
Rocha escreve que “de certa forma, Petro e Boric, apontavam caminhos alternativos frente ao pragmatismo que Lula e o PT conduzem o Brasil, com 5 vitórias e dois segundos turnos no Brasil, num duro cenário político e complexidade.” Isso que é chamado de “pragmatismo”, nada mais é que uma política de colaboração de classes.
O problema é que o PT não é o único a seguir esse método, cujo objetivo é conquistar cargos dentro do aparato do Estado.
Nas últimas presidenciais, como este Diário já mostrou, boa parte da esquerda dita revolucionária trabalhou contra a candidatura de Lula em prol de uma aliança com setores do “campo democrático”, o que incluía até o tucano João Doria.
Também denunciamos a eleição de Boric, que não apontou nenhum caminho alternativo, mas a capitulação completa diante do imperialismo. Boric se alinhou ao governo Biden e passou a atacar a Venezuela, bem como Cuba, que chamou de ditadura.
Boric não foi capaz nem de tirar da prisão manifestantes que saíram às ruas protestando contra o governo de extrema direita, o pinochetista Sebastián Piñera.
Outro aspecto do parágrafo destacado é o uso da expressão “num duro cenário político e complexidade”. A questão posta aí é que medidas teriam sido tomadas por um Partido dos Trabalhadores pressionado pelas circunstâncias, dureza e complexidade da situação política, o que serviria como justificativa para seu endireitamento.
Direitização dos “revolucionários”
“Boric ao vencer”, escreve Arnóbio Rocha, que diz que “ainda lembr[a] na sua vitória, o Psol o tinha como a referência, uma espécie de modelo a ser seguido, vindo de grupo que não da esquerda tradicional chilena, PC e PS. O Governo Boric efetivamente fracassou, não apenas eleitoralmente, nem se viabilizando nas eleições vencidas por um soldado de Pinochet.”
É verdade, o Psol mandou seu então presidente, Juliano Medeiros, para a posse do chileno, evidenciando o caráter direitista desse partido, que em sua fundação se dizia uma alternativa ao Partido dos Trabalhadores.
O fracasso de Boric era mais do que esperado. Toda a esquerda que se alia à direita perde votos, inclusive para a extrema direita, que se apresenta demagogicamente como antissistema.
Rocha diz ter ouvido diversas vezes, “que a tática política de Petro era mais adequada e que Lula e o PT deveriam se referenciar nas atitudes que o Presidente colombiano assumia e que seu governo teria uma sucessão mais tranquila, pois enfrentava melhor o ultraliberalismo.” Embora não se vá referendar a política de Gustavo Petro, uma política mais à esquerda do PT teria trazido mais votos, pois o eleitorado sabe que é preciso radicalizar para que algo mude em favor do trabalhador.
Vitória da extrema direita
“A vitória da extrema-direita no primeiro turno traz uma dura lição de que cada país tem sua realidade”, escreve Arnóbio Rocha, e que “seus enfrentamentos, conjunturas distintas, nem sempre o que se aplica aqui, serve para lá, ou o contrário. Assim é legítimo que a esquerda não petista busque outras experiências, mas também é legítimo que se reconheça que a experiência petista tem muita raiz e é a resistência (com todas as contradições) ao ultraliberalismo, pela própria complexidade local”.
A “esquerda não petista”, excluindo basicamente o Partido da Causa Operária (PCO), tem levado uma política atrelada ao Partido Democrata dos Estados Unidos, que supostamente seria uma alternativa à extrema direita. Se esquecem que o governo Milei recebeu as bênçãos de Joe Biden.
A “luta antifascista” nada mais é que conciliação de classes que a maioria da esquerda tem levado adiante.
O melhor seria conciliar?
Para o articulista, “talvez o momento é de apoio incondicional na Colômbia para reverter uma situação extremamente difícil e decisiva para os EUA, como também ao Brasil, ainda que em tantas situações, Petro não seguiu a liderança brasileira, o que é legítimo, mas poderia ter buscado uma maior unidade.” – o que seria um erro. grifo nosso.
Trata-se de uma leitura equivocada a ideia de que “para o Brasil, a unidade da Esquerda, dos setores democráticos, até na centro-direita, foi a chave da vitória de 2022, aparentemente será mais uma vez em 2026, esse caminho poderia ajudar o candidato de Petro, ajustar o discurso e a tática eleitoral.” Na campanha presidencial, houve um grande repúdio popular contra os “setores democráticos” e a “centro-direita”.
Durante as manifestações na Avenida Paulista, Ciro Gomes foi vaiado e obrigado a deixar o ato. João Doria não teve sequer coragem de comparecer.
Caso Gustavo Petro busque “maior unidade” – talvez nem haja essa possibilidade –, pode acontecer o mesmo que aconteceu com Lula, que encarou uma eleição apertada.
A direita tem avançado na América Latina, e mesmo no mundo, a busca por acordos mais ao centro não tem ajudado, pode-se dizer, até, que tem piorado a situação da esquerda, que se descaracteriza e passa a agir como defensora da democracia liberal. Em outras palavras, se torna um apêndice do imperialismo.




