Universidade Marxista

Cadeiras elétricas, garrafas, ferro em brasa: a tortura da SAVAK

Relatórios da Anistia Internacional e de observadores europeus documentaram em detalhe os métodos de tortura aplicados pela polícia política do Xá Mohamed Reza Pahlavi

A campanha atual em defesa da ditadura do Xá Mohamed Reza Pahlavi pela propaganda sionista e imperialista tenta esconder um conjunto de relatórios produzidos durante o próprio regime por observadores internacionais. Advogados europeus e norte-americanos enviados como observadores aos julgamentos políticos no Irã descreveram, com detalhamento técnico, os métodos de tortura aplicados pela SAVAK. As marcas no corpo dos réus eram visíveis durante as audiências. As confissões eram extraídas sob suplício prolongado. Os relatos foram publicados nos jornais e revistas da época, inclusive em veículos da própria imprensa imperialista.

A Universidade Marxista realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). Os métodos de tortura da SAVAK e a tentativa atual de reabilitar a memória da ditadura serão analisados pelo ministrante do curso, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.

O caso que ficou mais documentado internacionalmente foi o julgamento de 14 intelectuais iranianos em 1965, a maioria recém-retornada de universidades inglesas. Eles foram acusados, cinco meses após a prisão, de conspiração contra o Estado, trama para assassinar o chefe de Estado e propagação de ideologia “anti-xaísta”. Observadores internacionais constataram que não havia qualquer base material para a acusação. Constataram também a brutal tortura a que os réus haviam sido submetidos antes do julgamento.

O relatório da Anistia Internacional

O Dr. Hans Heldmann, observador enviado pela Anistia Internacional, escreveu em seu relatório: “era evidente que os réus foram severamente torturados durante os interrogatórios. [Eles foram] despidos e as confissões foram obtidas por meio de chicotadas. Era possível ver marcas de cigarro nas costas e nos braços dos réus. Nikkah recebeu choques elétricos. Kamerani foi pendurado de cabeça para baixo. Garrafas foram inseridas no ânus de Kamerani e seu reto ficou gravemente ferido devido à quebra das garrafas. Kamerani teve que ser hospitalizado. As pernas de Kamerani ficaram feridas por terem sido esfregadas com arame farpado. Os ferimentos ainda podem ser vistos. O ferimento causado por uma barra de ferro quente também é visível”.

O relatório do advogado italiano

O advogado italiano Dott Cavaliere, também presente como observador internacional, descreveu o sistema de tortura em termos ainda mais sistemáticos: “descobrimos que essas torturas incluíam o uso de cadeiras elétricas especiais com choques que aumentavam e se intensificavam gradualmente, a inserção de fios elétricos nas orelhas e outras partes do corpo, a inserção de objetos no ânus e o enforcamento dos prisioneiros de cabeça para baixo por longos períodos, sempre acompanhados de chicotadas, quebra de dentes e espancamentos com cassetetes”.

A combinação dos métodos, segundo o protocolo descrito, exigia treinamento dos agentes. Os relatos coincidem com aquilo que se sabe sobre os centros de tortura da CIA na América Latina e da polícia secreta sionista contra os palestinos. As três agências haviam treinado a SAVAK.

A confusão deliberada da acusação

A revista britânica The Economist, em 6 de novembro de 1965, publicou o relato de um correspondente especial enviado para cobrir o julgamento: “os advogados da Itália, Grã-Bretanha e Alemanha que assistiram ao julgamento parecem ter ficado muito incomodados com o fato de a acusação não ter apresentado nenhuma prova de conspiração. As provas são uma mistura confusa de críticas às suas tendências esquerdistas, posse de literatura marxista, atividades políticas como estudantes na Inglaterra, apoio a uma greve de taxistas em Teerã e, no caso do Sr. Mansouri, uma confissão estranhamente produzida. De acordo com a acusação, tudo isso se soma a uma conspiração com rótulo de Pequim. Pessoas de fora, que de fato apreciam a oportunidade incomum que tiveram de ouvir o julgamento, permanecem inquietas e não convencidas com o que ouviram”.

O caso dos 55 estudantes do Nação Islâmica

Outros 55 membros do partido Nação Islâmica foram acusados, na mesma época, de conspirar para a derrubada do governo e de receber armas de um país estrangeiro não identificado. A maioria era de estudantes do ensino médio e universitários, alguns menores de idade. Um observador da Associação Internacional de Advogados Democráticos relatou que os acusados denunciaram, em juízo, não ter podido examinar o caso contra si próprios e ter sido torturados enquanto detidos.

Os julgamentos eram afirmados oficialmente como abertos. Na prática, nem iranianos nem estrangeiros podiam ingressar nas audiências sem um passe especial expedido pelo regime. Os interrogatórios ocorriam em sigilo absoluto. Aos advogados de defesa não era permitido auxiliar os réus durante a fase de instrução. O sistema judicial inteiro funcionava como uma cobertura formal para a tortura aplicada nos centros da SAVAK.

Audição prejudicada por descargas elétricas

A advogada norte-americana Assheton, presente como observadora da Anistia Internacional em outro julgamento, em janeiro de 1969, descreveu o estado físico de um réu chamado Shahzad: “era evidente que o réu Shahzad tinha dificuldades auditivas durante o julgamento; segundo rumores, sua audição havia sido prejudicada por descargas elétricas aplicadas em seus ouvidos. Ele foi o primeiro dos seis réus a declarar, no terceiro dia do julgamento, que suas confissões falsas haviam sido obtidas por meio do uso intensivo de tortura”.

A advogada complementou: “parece que Jazani teve uma garrafa quebrada inserida em seu ânus. Zarifi ficou internado por 12 dias e depois foi amarrado a uma cadeira de ferro com fogo aceso embaixo dela. Parece que essas torturas foram infligidas dez a doze meses antes do início do julgamento”.

A fonte dos relatos

A documentação reunida não vem de fontes simpáticas à revolução de 1979. Os observadores eram advogados e juristas europeus e norte-americanos enviados por instituições como a Anistia Internacional e a Comissão Internacional de Juristas. Os veículos que publicaram os relatos eram revistas da própria imprensa imperialista, como The Economist e The Times. O regime do Xá foi denunciado por aparelhos do próprio imperialismo que o sustentava, embora essa denúncia tenha sempre tido caráter parcial e isolado, sem nunca denunciar o apoio fundamental que CIA, MI6 e Mossad davam à ditadura.

O curso A história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.

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