A Justiça boliviana deixou sem efeito, nesta sexta-feira (29), a ordem de apreensão contra Mario Argollo, secretário-executivo da Central Operária Boliviana (COB), e Vicente Salazar, dirigente da Federação de Trabalhadores Camponeses “Túpac Katari”. A decisão foi tomada pelo Tribunal Segundo de Sentença Anticorrupção e Violência contra a Mulher, que concedeu tutela em uma ação de liberdade apresentada em favor dos dois dirigentes.
A anulação do mandado é um recuo importante do regime de Rodrigo Paz diante da pressão popular. A ordem havia sido emitida em meio às investigações contra os bloqueios e protestos que se espalham pelo país, com acusações como instigação pública ao delito e terrorismo. Para os setores mobilizados, tratava-se de uma tentativa de tornar a greve ilegal e intimidar as principais lideranças da rebelião.
A situação de Argollo e Salazar havia se tornado uma das principais barreiras para qualquer diálogo. Organizações ligadas à COB exigiam garantias para seus dirigentes antes de participar de mesas convocadas pelo governo ou por instituições mediadoras. Mesmo após a decisão judicial, Argollo afirmou, em vídeo divulgado da clandestinidade, que não decidirá sozinho se participará de negociações: segundo ele, caberá às bases definir se os setores mobilizados vão ao diálogo ou se mantêm a luta.
A crise, no entanto, está longe de terminar. Segundo informações divulgadas em 29 de maio, os bloqueios continuam em seis departamentos, com mais de 100 pontos nas estradas. Em La Paz, o transporte permanece paralisado, enquanto uma greve de fome de mulheres instalada na Defensoria do Povo entrou no quinto dia. Também foram registrados novos bloqueios em Senkata, em El Alto, e mobilizações em regiões como Chayanta, em Potosí.
A repressão já deixou um saldo grave. A Defensoria do Povo informou que, entre 1º e 24 de maio, foram registrados sete mortos, 23 feridos e 321 presos no contexto da crise social. Parte dos casos ainda está sob investigação do Ministério Público.
A COB endureceu sua posição contra o governo. Em comunicado, a central acusou Paz de mentir ao povo boliviano e afirmou que a fome, a crise econômica e o abandono social não podem mais ser escondidos por discursos oficiais. A palavra de ordem defendida pela entidade é a renúncia do presidente.
As mobilizações reúnem operários, camponeses, mineiros, professores, transportadores, moradores de El Alto e organizações indígenas. A pauta começou com reivindicações econômicas, como aumento salarial, combate à carestia, abastecimento de combustível e rejeição a medidas neoliberais, mas se transformou em uma luta abertamente política contra o governo de Rodrigo Paz.
Enquanto isso, o governo tenta retomar o controle pela força. Paz já deu passos para viabilizar um estado de emergência, medida que poderia permitir o envio de tropas às ruas. Integrantes do governo afirmam que a renúncia está descartada e classificam as exigências populares como ameaça à ordem institucional.
A anulação da ordem de apreensão, portanto, não encerra a rebelião. Pelo contrário: mostra que a mobilização obrigou o governo e a Justiça a recuarem em um ponto Mario argollocentral. Agora, a continuidade do conflito dependerá das bases da COB e dos setores camponeses, que seguem nas ruas, nas estradas e nos bloqueios exigindo respostas à crise e a saída de Rodrigo Paz.





