Durante um ato na zona sul da cidade de Cochabamba, realizado para anunciar o fornecimento de água a vários distritos, Rodrigo Paz afirmou que “já vai chegar a cadeia” para Evo Morales. A declaração foi feita em meio ao estado de exceção decretado pelo governo e às operações repressivas contra bloqueios, sindicatos e organizações camponesas que protestam contra a atual orientação do país.
Evo respondeu em suas redes sociais, denunciando o caráter ameaçador da declaração presidencial.
“Não nos intimidam as ameaças de Rodrigo Paz. O povo sabe distinguir entre aqueles que governaram com resultados e aqueles que governam com ameaças”, afirmou o ex-presidente.
Morales também comparou a atual situação econômica com o período em que esteve à frente do Estado boliviano. Segundo ele, durante seu governo, a economia crescia a 5%, mais de 3 milhões de bolivianos saíram da pobreza, não faltava combustível e não se colocou em risco a segurança energética do país com combustível de baixa qualidade para beneficiar negócios privados.
O ex-presidente também recordou as tentativas de associar seu governo ao narcotráfico.
“Durante anos tentaram nos estigmatizar com o narcotráfico. Hoje, os escândalos de narcotráfico e corrupção são tão graves que são denunciados inclusive pelos próprios aliados do governo”, disse.
A resposta de Evo foi uma denúncia direta contra Paz:
“O presidente pode agir como um valentão a partir do poder, mas governar exige capacidade, não ameaças. E o país exige soluções, não abusos”.
A ameaça contra Evo ocorre no mesmo momento em que o governo altera profundamente a política cambial da Bolívia. Na sexta-feira (26), o Ministério da Economia anunciou o fim do câmbio fixo, que vigorava desde 2011. O Banco Central da Bolívia passou a administrar um regime cambial flexível.
Com a nova regra, o câmbio oficial passou de 6,96 bolivianos para 9,73 bolivianos por US$1 a partir de segunda-feira (29). Isso significa uma alta de quase 40% no preço oficial do dólar. Na prática, trata-se de uma desvalorização da moeda boliviana.
Evo Morales classificou a medida como uma “desvalorização encoberta”.
“Não estamos diante de uma unificação do tipo de câmbio. Estamos diante de uma nova desvalorização encoberta de um governo que renunciou a defender a economia do povo”, afirmou.
A alta do dólar encarece importações, combustíveis, alimentos, medicamentos e produtos básicos. Também atinge diretamente salários, aposentadorias e economias populares.
Morales denunciou que a decisão favorece os especuladores e prejudica as famílias bolivianas e os poupadores dos fundos de pensão. Segundo ele, com o novo regime, “já não será o Estado quem defenderá o valor de nossa moeda, mas os especuladores que imporão o preço do dólar”.
A mudança encerra um dos pilares da política econômica que marcou o período posterior à nacionalização dos hidrocarbonetos e ao fortalecimento do Estado boliviano. A estabilidade cambial foi uma das bases que permitiram ao país manter crescimento, ampliar políticas sociais e reduzir a pobreza durante os governos de Evo Morales. O governo Paz rompe com essa orientação e transfere a conta da crise aos trabalhadores.
A ofensiva contra Evo e a mudança cambial ocorrem em meio à repressão contra o movimento popular. Organizações da América Latina divulgaram uma declaração repudiando o estado de exceção na Bolívia e as detenções de dirigentes sindicais e populares.
A declaração denuncia o governo de Rodrigo Paz pela repressão e pelo uso das Forças Armadas em território boliviano. O documento aponta detenções arbitrárias contra dirigentes sindicais, operações irregulares, desobstruções violentos em estradas nacionais e ataques contra comunidades de índios e camponesas que exigem a renúncia do presidente.
As organizações também denunciam a atuação de grupos civis armados contra manifestantes, diante da passividade das forças repressivas. O documento afirma ainda que a política repressiva conta com apoio do imperialismo norte-americano e de governos da região, que fornecem armamento, insumos de repressão e apoio logístico.
Segundo a declaração, o objetivo é apresentar o protesto social como “narcoterrorismo” para justificar a violência do Estado. O documento afirma que o povo boliviano tem o direito inalienável de se manifestar e exigir suas reivindicações.





