Ric Jones

Médico homeopata e obstetra. Escritor, palestrante da temática da Humanização do Nascimento no Brasil e no exterior.

Coluna

Língua

Idioma e sociedade de classes

“Gosto de roçar a minha língua na língua de Camões” (Caetano Velloso)

Ontem presenciei um curto debate nas redes sociais a respeito do uso de uma palavra: “alevantar”. Um sujeito, ao ler a expressão, criticou o que julgou ser o uso errado do idioma, dizendo se tratar de “coisa de petista”. Acho que cabem algumas considerações, até porque a forma como falamos e escrevemos tem a ver com questões políticas e de classe.

Mesmo aqueles que afirmaram que “alevantar” estava certo também, de certa forma, estavam errados. Digo isso porque o conceito de “certo” e “errado” em se tratando de língua portuguesa não faz sentido nenhum. Como dizia meu filho, quando tinha uns 10 anos, “falar ‘menas’ é uma questão de tempo”. Se as pessoas usarem desta forma no futuro, irá verter para o cotidiano da fala e, posteriormente, para o vernáculo mais erudito. Tratar da fala como errada ou certa é, em verdade, uma forma de estabelecer diferença de classes, baseando-se na maneira como as pessoas falam. O debate poderia ser entre “norma culta” x “norma popular”, mas até esse debate já está um pouco defasado, porque, para alguns autores, existem tantas línguas quanto falantes, e nos comunicamos porque reconhecemos semelhanças entre as nossas falas – nossos idiomas pessoais – e as de nossos interlocutores.

Dizer que uma expressão é “errada” é um equívoco conceitual, pois não leva em consideração a função precípua dos idiomas. Usando um exemplo que li do linguista Marcos Bagno, dizer que “alevantar” está errado seria o mesmo que afirmar que uma cobra é um animal “errado” porque não tem pernas. Ora… errado em relação ao quê? Uma cobra é absolutamente adaptada ao seu meio ambiente – aliás, a mais tempo do que nós. Pela mesma perspectiva, uma expressão funciona se está adaptada à comunicação de ideias e se transmite conceitos e símbolos aos outros falantes, e “alevantar” cumpre essa função, pois todos que a leem entendem o que significa. O preconceito linguístico é uma forma clara de estabelecer barreiras de classe, por isso é usado em qualquer comunidade. Entretanto, é importante ter uma postura crítica em relação a estas diferenças culturais, para evitar exclusões baseadas na forma específica como as pessoas se comunicam. Por certo que, se uma pessoa fala e/ou escreve na norma popular será discriminada por não conhecer o idioma das classes “superiores”. Entretanto, essa forma de falar não é errada, feia ou menor; ela é o motor das transformações da fala. Na verdade, ela está na linha de frente da construção do idioma. A norma culta olha para o passado; a popular para o futuro.

Questionar o preconceito de classe que se insere nas críticas ao modo de falar, em especial das pessoas mais simples, não significa desprezo pelo aprendizado da norma culta. Ela é importante para que as pessoas falem em círculos de poder superiores, como na academia ou nas empresas. Entretanto, a língua que falam em casa ou com seus iguais não está “errada”, e nem é culturalmente inferior. Desta forma, acreditar que uma expressão está errada, apelando para um positivismo linguístico maniqueísta, deturpa a própria função dos idiomas. Uma língua falada funciona como os seres vivos, que por meio de metamorfoses infinitas se ajustam às necessidades oferecidas pelo meio ambiente mutante. Da mesma forma, a língua se modifica em decorrência das necessidades dos humanos, implicando na transformação dinâmica dos idiomas, dos sotaques, das expressões e das gírias com as quais estes se expressam.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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