Apenas algumas semanas após as eleições de abril, que alçaram o candidato dos banqueiros europeus, Péter Magyar, ao poder na Hungria, a farsa “democrática” do novo governo já começa a mostrar sua verdadeira face. Nesta semana, o novo primeiro-ministro, incensado pela imprensa imperialista como o “salvador da democracia”, propôs uma emenda constitucional sob medida para proibir seu principal adversário político de retornar ao poder. Trata-se, na prática, do aprofundamento do golpe de Estado orquestrado de fora para dentro do país europeu.
A manobra governista, noticiada com entusiasmo e cumplicidade pela imprensa burguesa internacional — incluindo a revista brasileira Veja —, consiste em limitar o mandato dos primeiros-ministros a um máximo de oito anos. O objetivo da medida não tem nada a ver com princípios democráticos abstratos; seu alvo tem nome e sobrenome: Viktor Orbán. Após governar o país por 16 anos, Orbán foi derrotado em abril em um pleito marcado por uma brutal interferência política e econômica da União Europeia. Agora, temendo o forte apoio popular que o ex-premiê ainda detém, o imperialismo europeu quer banir o líder nacionalista do regime político por meio de uma canetada constitucional.
O cinismo da operação é total. A proposta de emenda argumenta falsamente que Orbán teria “eliminado o controle democrático” sobre o Estado, quando é justamente o governo de Magyar quem utiliza a máquina estatal para cassar e inviabilizar os direitos políticos de seu oponente. Além da manobra limitadora, o novo governo também prevê dissolver fundações, estatizar veículos de imprensa controlados pela oposição e destituir cargos públicos estabelecidos no governo anterior, promovendo uma verdadeira caça às bruxas no aparato estatal contra qualquer força que não reze pela cartilha de Bruxelas e de Washington.
A eleição de abril e a ditadura do capital financeiro
Para compreender a fundo a manobra constitucional de Magyar que tenta banir Viktor Orbán do regime político, é preciso voltar os olhos para o verdadeiro caráter das eleições parlamentares de abril. A imprensa burguesa e os monopólios internacionais de comunicação celebraram a derrota da coalizão Fidesz como uma “vitória da democracia” e um “respiro para a Europa”. Nada mais falso. O que ocorreu na Hungria não foi uma escolha livre, mas uma típica operação de mudança de regime conduzida pelo imperialismo, utilizando o calendário eleitoral apenas como uma fachada de legitimação.
O imperialismo não perdoou a política externa de Orbán. Embora o ex-primeiro-ministro seja um político conservador e de direita, seu governo vinha mantendo uma postura de defesa da soberania nacional e de independência relativa que se tornou absolutamente intolerável para a burocracia da União Europeia e para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em meio à guerra provocada pelo imperialismo na Ucrânia, a recusa da Hungria em enviar armamentos para o títere regime nazista de Kiev, a manutenção de laços comerciais cruciais com a Rússia e a defesa de uma política de neutralidade transformaram Orbán no inimigo número um de Washington e Bruxelas dentro da Europa.
A arma utilizada para derrubar o líder húngaro após 16 anos no poder foi o terrorismo econômico. Durante os últimos anos, a União Europeia bloqueou e reteve covardemente dezenas de bilhões de euros em fundos de coesão e recuperação destinados à Hungria, utilizando o pretexto cínico de punir “violações do Estado de Direito” e “leis anti-LGBTQ”. Na prática, tratou-se de uma chantagem aberta e criminosa contra o povo húngaro: ou o país destituía Orbán e elegia um funcionário submisso aos ditames da Europa, ou a economia nacional continuaria sendo asfixiada e estrangulada pelo bloqueio financeiro.
Foi exatamente nesse cenário de crise artificialmente fabricada de fora para dentro que a figura de Péter Magyar foi fabricada. Antigo burocrata e dissidente do próprio partido de Orbán, Magyar foi rapidamente catapultado da obscuridade para os holofotes. Com o apoio maciço de ONGs financiadas pelo capital internacional e uma campanha de marketing impulsionada por toda a imprensa imperialista, seu recém-criado partido, o Tisza, canalizou o descontentamento popular gerado pelo bloqueio econômico.
Magyar venceu por ser o “homem de Bruxelas” — a garantia de que a sabotagem econômica europeia chegaria ao fim. A eleição de abril que forçou a saída e a posterior renúncia de Orbán a seu mandato de deputado não passou, portanto, de um golpe de Estado, onde o poder financeiro internacional fraudou o processo político ao apontar a arma da fome e da bancarrota contra a cabeça de um país inteiro.
A velocidade com que as engrenagens se moveram após a queda de Orbán em abril desmascara qualquer argumento de “normalidade institucional”. Poucos dias após a posse de Péter Magyar, a burocracia de Bruxelas — que passou anos alegando entraves jurídicos intransponíveis para reter os fundos húngaros — sinalizou o destravamento imediato de bilhões de euros. Um verdadeiro suborno europeu. O dinheiro público, que por direito pertence ao povo húngaro, foi utilizado como mercadoria de troca para recompensar o novo governo pela sua submissão colonial ao capital financeiro internacional.
O preço cobrado pela União Europeia pela liberação desses fundos é a liquidação da soberania nacional da Hungria e sua conversão em um protetorado da OTAN. O governo de Magyar já iniciou a guinada que o imperialismo tanto exigia: o alinhamento contra a Rússia. A Hungria, que sob a gestão anterior funcionava como um importante freio diplomático no Leste Europeu ao recusar o envio de armas e fundos para sustentar o regime de Kiev, agora prepara-se para abrir suas fronteiras para o trânsito militar da OTAN e integrar-se plenamente ao esforço de guerra da aliança imperialista.
É exatamente aqui que a manobra de Magyar para banir Orbán por meio de uma reforma constitucional revela sua importância. Os arquitetos do golpe sabem perfeitamente que o entusiasmo inicial com a liberação dos fundos europeus desaparecerá assim que a realidade econômica se impuser. A integração submissa à União Europeia exige, invariavelmente, a aplicação de receitas neoliberais de austeridade, cortes de gastos sociais, privatizações e a absorção dos custos brutais da guerra na Ucrânia.
Quando a classe trabalhadora húngara começar a sentir o peso do encarecimento da vida e da perda de direitos, a tendência natural será o colapso da popularidade do governo Magyar e o fortalecimento da oposição. Sabendo que não conseguirão sustentar o regime pró-imperialista no voto quando a crise estourar, a burguesia húngara aliada ao imperialismo decidiu fechar o regime. Mudar a Constituição para impedir que o principal líder da oposição concorra novamente é o seguro de vida que a ditadura da OTAN e da União Europeia precisa para garantir que a Hungria fique sob controle.




