Mais uma vez, o regime marroquino encontra-se numa posição delicada diante da opinião pública internacional após a condenação do cantor Saad Lamjarred a cinco anos de prisão pela Justiça francesa, num caso de violação ocorrido em 2018. Esta condenação não surge isoladamente, mas soma-se a uma condenação anterior, proferida em 2023, relacionada com outro caso de violação, transformando a situação numa sucessão de processos graves e não num incidente isolado.
Para o Movimento Progressista Marroquino, a questão já não é saber se Saad Lamjarred é culpado ou inocente. Trata-se de uma matéria apreciada pelos tribunais competentes com base nos elementos apresentados durante os processos judiciais. A verdadeira questão é outra: por que razão o Estado marroquino continuou, durante anos, através dos seus mecanismos oficiais e simbólicos, a promover este artista como uma figura representativa do país, apesar da gravidade das acusações e das condenações que pesam sobre ele?
Este caso revela uma crise mais profunda na própria estrutura de poder em Marrocos. Enquanto milhões de marroquinos enfrentam o desemprego, a pobreza e a degradação dos serviços públicos, os círculos de influência concentram-se na promoção de celebridades e na preservação da sua imagem pública.
Tal realidade reflete uma lógica política que procura direcionar a atenção da sociedade para o entretenimento e para o culto das figuras mediáticas, em vez de fomentar um debate sério sobre democracia, justiça social, distribuição da riqueza e reforma das instituições.
O caso Saad Lamjarred tornou-se, assim, um símbolo da contradição entre o discurso oficial sobre modernidade e direitos das mulheres e a prática concreta do poder. Um Estado que afirma defender a dignidade das mulheres vê-se repetidamente associado à defesa moral e simbólica de uma personalidade condenada por crimes de natureza sexual. A mensagem transmitida à sociedade é preocupante: a notoriedade e a proximidade aos centros de poder parecem garantir privilégios que não estão ao alcance do cidadão comum.
Numa perspetiva progressista e republicana, o problema não reside apenas na figura de Saad Lamjarred, mas numa estrutura política que transforma celebridades em instrumentos de propaganda e distração, enquanto as questões fundamentais da liberdade, da justiça social e da responsabilização política permanecem relegadas para segundo plano. Quando a prioridade das autoridades passa a ser a preservação da imagem dos famosos em vez da defesa intransigente da justiça, estamos perante uma inversão preocupante dos valores que deveriam orientar qualquer Estado moderno.
A liderança de uma nação deve ser avaliada pela sua capacidade de garantir a igualdade de todos perante a lei, e não pela sua disposição em proteger personalidades influentes ou populares. É precisamente por isso que a controvérsia em torno de Saad Lamjarred ultrapassa a figura do artista e se transforma numa questão política mais ampla. Ela expõe um modelo de governação que privilegia a gestão da imagem e do espetáculo em detrimento da construção de instituições fortes, transparentes e verdadeiramente comprometidas com os direitos dos cidadãos.
Para muitos opositores do regime, este episódio constitui mais um exemplo de uma liderança incapaz de responder às aspirações democráticas do povo marroquino, preferindo investir na promoção de símbolos mediáticos enquanto persistem problemas estruturais relacionados com a pobreza, a desigualdade, a corrupção e a ausência de mecanismos efetivos de responsabilização política. Nesse sentido, o caso Saad Lamjarred deixa de ser apenas um processo judicial e passa a refletir uma crise mais profunda: a crise de um sistema que continua a privilegiar a aparência em detrimento da justiça.





