Autoridades da Califórnia intensificaram a remoção e a destruição de veículos usados como moradia em Los Angeles e no condado de Alameda, após a entrada em vigor de uma nova lei estadual em 1° de janeiro de 2026. A medida permite demolir mais rapidamente veículos grandes avaliados em até US$ 4 mil quando seus donos não conseguem movê-los sem guincho, atingindo uma população que tem em ônibus, trailers e veículos recreativos sua última forma de abrigo.
A ofensiva ocorre em meio à crise de moradia no estado. Estimativas apontam que cerca de 34 mil pessoas sem teto dormem em veículos em uma noite comum na Califórnia, mas defensores afirmam que o número real pode ser o dobro. Para metade delas, a casa é um veículo recreativo, um ônibus adaptado ou um trailer estacionado na rua.
A advogada Tori Larett, que atua na defesa de pessoas sem moradia em Sacramento e dirige pesquisas da Coalizão Nacional de Moradia em Veículos nos EUA, afirma que o estado trava uma guerra contra esses moradores. Segundo ela, veículos grandes passaram a ser tratados pelo Estado como incômodo visual e símbolo da crise social nas ruas. A nova regra ampliou de US$ 500 para US$ 4 mil o limite de valor para veículos que podem ser destruídos rapidamente, o que aumenta o risco de perda definitiva da casa e dos pertences.
Em Los Angeles, a pressão é forte no Distrito 11 da Câmara Municipal, onde a vereadora Traci Park lidera operações de guincho. Ela afirma que os veículos formam acampamentos extensos, com lixo irregular, dejetos humanos, crimes e risco à saúde pública. O pesquisador Sam Lutzker, doutorando em sociologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), contesta essa descrição como regra geral. Após acompanhar cerca de 90 moradores de veículos, ele afirma que muitos vivem sozinhos ou em pequenos grupos, em ruas laterais, e não em grandes concentrações.
Lutzker reconhece que há veículos em más condições, mas critica a resposta baseada em multas, apreensões e destruição sem oferta real de alternativa. Segundo ele, há espera de dois a três meses para que uma pessoa receba atendimento de um funcionário responsável por encaminhá-la a abrigo. Os mais atingidos são justamente os que não têm dinheiro para consertar, abastecer ou mover o veículo.
A vida de Chanel Lara, de 29 anos, mostra essa perseguição. Ela saiu de Fresno para Los Angeles em busca de melhores condições e chegou a dormir em um Nissan Maxima, depois transformado em “barraca de metal” quando quebrou. Mais tarde, comprou por US$ 3,5 mil um ônibus escolar adaptado. Em Venice, bairro onde veículos de luxo usados como moradia costumam ser romantizados, ela denuncia a diferença de tratamento: quando pobres, negros e hispânicos vivem sobre rodas, são vistos como problema.
Quatro meses antes do relato, Lara voltou do trabalho e encontrou policiais e funcionários ameaçando rebocar seu ônibus. Para não perder a casa, subiu no teto, entrou pela saída de emergência e saiu dirigindo. Casos como o dela se repetem em uma cidade que promete abrigo, mas nem sempre entrega moradia estável.
David Boone, de 71 anos, também passou a viver em um trailer depois que o prédio onde morava estava para ser demolido. Com aluguéis acima de US$ 2 mil por mês, comprou o veículo por US$ 16 mil, mas descobriu depois as restrições impostas pela cidade. Já Kathy Coates, de 62 anos, e Amir Edwards, de 52, acumularam US$ 4 mil em multas e sofreram ataques enquanto viviam em um veículo-moradia.
A perseguição aos veículos expõe uma contradição: o poder público retira das ruas justamente o abrigo de quem não tem outro lugar para ir. Sem moradia garantida, a destruição dessas casas sobre rodas apenas empurra pessoas já vulneráveis para uma situação ainda pior. Enquanto isso, a acumulação de patrimônio imobiliário continua sendo uma forma rentável de especulação pelos rentistas, o que joga os aluguéis e os preços das casas para cima, tornando-os inacessíveis por parte da população. Isso acontece em um cenário em que há, de forma geral, mais casas do que pessoas nos grandes centros urbanos.





