Ric Jones

Médico homeopata e obstetra. Escritor, palestrante da temática da Humanização do Nascimento no Brasil e no exterior.

Coluna

Medicina, capitalismo e desastres

A submissão da saúde à ordem capitalista

Enquanto a medicina estiver inserida dentro do capitalismo, a venda de drogas continuar sendo um dos maiores negócios transnacionais e a sua publicidade continuar liberada — prometendo beleza, saúde, juventude eterna, felicidade e o fim da angústia —, casos como o do jovem fisiculturista encontrado morto ainda serão muito comuns. Os elementos que mais chamam a atenção nesse caso são a idade, a aparência saudável e o gênero da vítima. Sim, estas tragédias são muito mais comuns entre as mulheres, que são afetadas por esses tratamentos “mágicos” há milhares de anos, submetendo-se a tratamentos, cirurgias, dietas e drogas na ilusão de permanecerem eternamente desejáveis. Nem é preciso lembrar os “pés de lótus”, que deformavam os pezinhos das chinesas no período imperial, os “espartilhos”, as “canetinhas” e as cirurgias estéticas abusivas a que se submetem há milênios. Até dietas absurdas e restritivas foram causadoras de milhões de mortes. De acordo com estimativas, só no ano de 2023, dietas inadequadas foram responsáveis por mais de 4 milhões de mortes por cardiopatia isquêmica, os infartos. Também foram perdidos 97 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade, o chamado índice DALY. Trata-se, portanto, de uma mortandade superior à das guerras!

No início deste século, perdi uma amiga parteira, jovem, que se submeteu a uma lipoaspiração apenas poucas semanas após o nascimento de sua filha. As gordurinhas a mais lhe pareceram insuportáveis, e isso a levou para a cirurgia e ao trágico desfecho. Por muito tempo, acreditei que essa morte poderia ter sido evitada com adequado aconselhamento. Pensava: “se eu tivesse conversado com ela”, e isso me torturou por muito tempo. Entretanto, hoje penso com mais realismo. Que conselho poderia dar que seria capaz de suplantar a avalanche de publicidade que ela recebia desde a mais tenra infância sobre a necessidade de um corpo perfeito? O massacre publicitário a que ela foi submetida está em toda parte: nos filmes, nas novelas, nas revistas e na imagem do ser humano “moderno”, com seus corpos altamente “trincados”. Para isso, criaram uma quantidade gigantesca de drogas e tratamentos — sem falar nos influencers — que lucram com essa indústria. A morte desse jovem vai para a conta desse modelo de sociedade que faz da imagem corporal uma indústria de lucro e morte.

Claro, não se trata de criticar o natural e saudável desejo de ter saúde, nem a eventual necessidade de usar algum medicamento para esse fim. Porém, neste caso específico, fica muito claro que não se trata de uma busca por saúde. Havia o interesse por uma imagem idealizada de poder, um falo gigantesco usado para expressar externamente valores da masculinidade — assim como fazem as mulheres com sua feminilidade, abusando das inserções de silicone ou de cirurgias exageradas. O preço desses exageros fica muito claro: doenças e até a morte precoce, antes mesmo de atingir a maturidade. A indústria de drogas lava as mãos, pois, afinal, o sujeito é livre para usá-las, e não cabe a ela o dever de fazer avaliações morais ou estéticas sobre quem faz uso de seus produtos. Enquanto isso, as mortes por drogas legais se acumulam, tanto aquelas relacionadas a hormônios quanto às famosas “canetinhas” emagrecedoras, cujos resultados funestos ainda não apareceram por completo, mas podem ser descobertos em médio e longo prazos.

Uma vida mais saudável, sem drogas de qualquer natureza — salvo em caso de clara e evidente necessidade —, deveria ser a conduta de todos. Esta deveria ser, em especial, a recomendação dos médicos, pois estes estudaram os efeitos ruins dos remédios que prescrevem e os riscos associados ao seu uso. Entretanto, é da essência da medicina capitalista a adoção de tratamentos e remédios, cirurgias e intervenções sobre os corpos. Médicos são despachantes de drogas que, ao lado de auxiliarem o sujeito em algumas doenças, causam a alienação do paciente sobre a condução de sua própria saúde. Além disso, são os médicos os mais afetados pela publicidade da indústria farmacêutica, reféns de uma indústria bilionária que precisa de suas prescrições. É pouco provável que surja, por parte da corporação médica, uma reação forte capaz de evitar esse tipo de influência. Resta esperar que as pessoas, adequadamente orientadas, afastem-se das soluções mágicas e das propostas estéticas fantasiosas, aceitando a naturalidade dos seus corpos e o cuidado natural de sua saúde.

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* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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