Em inúmeros campos do conhecimento é possível ver de forma clara a relação promíscua entre saber e poder, bastando para isso que tenhamos a atenção e a coragem necessárias para reconhecer nossa parte nesse latifúndio. Na assistência ao parto, campo no qual atuei por mais de três décadas, nossa arrogância nos impediu de enxergar a evidência cristalina de que não havia – e não há – falta de conhecimento ou informação para adotar as melhores práticas. Em verdade, não há dificuldade alguma para encontrar as evidências científicas que sustentam a atenção humanizada ao parto, em especial após o advento da internet. Assim, a prática cotidiana se exerce pelo exercício autoritário de poder sustentado pela narrativa cientificista. Essa mudança exterminou o saber milenar das parteiras em nome do conhecimento médico, o qual se estabeleceu nos umbrais do século XX. E não se trata de desmerecer a importância dos avanços científicos da obstetrícia, mas de questionar a negativa em reconhecer suas falhas e suas inconsistências. Em especial, é essencial avaliar o que perdemos com a aventura tecnológica no parto.
Para manter perspectivas equivocadas intocadas, é fundamental realizar sobre as práticas emergentes uma série de ataques e criar desconfiança sobre seus resultados. Uma forma de fazer isso é por meio da dissonância cognitiva, que ficou conhecida no bolsonarismo. Tudo vira uma “opinião”, portanto, relativo e subjetivo. Parto normal é opinião, episiotomia é opinião e cesarianas em excesso são uma questão de gosto pessoal do cirurgião. Chomsky tratou desse tema ao questionar os “consensos manufaturados”, onde a repetição incessante de uma visão de mundo criava um sentimento de identidade entre aqueles que a adotavam. Por esta razão, muitos absurdos que testemunhamos na época Bolsonaro – a chamada de ETs por celular, as marchas ridículas, a continência para pneus, o deboche com as vítimas da Covid etc. – mesmo oferecendo um espetáculo ridículo produziam uma enorme energia de coesão. E ser aceito pelos iguais é uma das necessidades humanas mais primitivas. O mesmo acontece com os médicos, jogados em um sistema onde essas inverdades são repetidas até se tornarem verdades.
Na questão dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, em um mundo gerenciado pelo modelo patriarcal, é tolice continuar apostando em informação e conhecimento sem reconhecer que a inércia na atenção ao parto é devida às questões de poder e de quem o controla, o que impede as mulheres de conhecerem uma perspectiva alternativa para os seus partos. Sem tocar na ferida da ideia do parto como “evento médico”, controlado por cirurgiões e em hospitais especialmente criados para tratar doentes, não vamos avançar no atendimento à fisiologia do parto. Desta maneira, controlados pela ilusão do conhecimento objetivo, sem encarar a luta política por partos normais, seremos incapazes de salvar o nascimento humano de seu destino macabro: uma foto na página amarelada dos livros de medicina cibernética do século XXII, cuja legenda será um melancólico “parto ancestral”





