América do Sul

Principal organização operária da Bolívia quer derrubar o governo

Greve, bloqueios e protestos contra a crise econômica colocam o governo boliviano diante de sua maior crise

A direção da Central Operária Boliviana (COB), maior entidade operária e de massas do país, afirmou que as bases mobilizadas já ultrapassaram suas próprias direções na exigência da renúncia do presidente Rodrigo Paz. A declaração foi feita pelo secretário-geral da entidade, Claudio Choque, em meio à greve, aos bloqueios de estradas, aos protestos em La Paz e El Alto e ao agravamento do desabastecimento de combustíveis e alimentos.

Segundo Choque, a COB não está “fabricando” uma palavra de ordem artificial, mas transmitindo uma exigência que vem diretamente dos trabalhadores, camponeses, mineiros, professores, transportadores e moradores mobilizados. “Nós somos apenas porta-vozes das bases”, afirmou o dirigente, ao explicar que a reivindicação pela saída de Paz e de seus ministros surgiu dos setores que ocupam ruas, cidades e rodovias.

A mobilização tem como pano de fundo a piora das condições de vida no país. A população denuncia a falta de combustível, a alta dos preços dos alimentos, a perda do poder de compra dos salários e medidas consideradas neoliberais pelo movimento popular. A crise começou com reivindicações econômicas, como abastecimento de combustível de qualidade, aumento salarial e revogação da Lei 1720, mas evoluiu para uma pauta abertamente política: a saída do governo.

A pressão popular se ampliou nas últimas semanas. La Paz, sede do governo boliviano, foi parcialmente paralisada por bloqueios nos principais acessos. A falta de combustível reduziu o transporte público, esvaziou avenidas e afetou mercados. Segundo a imprensa local e internacional, os bloqueios também atingiram o abastecimento de alimentos, enquanto escolas passaram a funcionar em modalidade virtual e setores da população passaram a se deslocar a pé ou de bicicleta.

A COB já havia convocado greve geral por tempo indeterminado no início de maior. A paralisação teve participação de trabalhadores da saúde, fabris, mineiros, professores e representantes dos nove departamentos do país.

A repressão, no entanto, agravou a crise. O Ministério Público boliviano emitiu ordem de prisão contra Mario Argollo, secretário-executivo da COB, acusado de crimes como instigação pública ao delito e terrorismo. Para a direção sindical, a medida tem caráter político e busca tornar a greve ilegal e intimidar os setores que exigem respostas à crise.

Choque afirmou que as ordens de apreensão não vão deter as mobilizações. Pelo contrário, segundo ele, podem radicalizar ainda mais as medidas de pressão. O dirigente também condicionou qualquer diálogo real à suspensão das ordens de prisão e à libertação dos detidos durante os protestos. Ele defendeu que eventual reunião ocorra em local neutro, e não na Casa Grande do Povo, sede do Executivo, afirmando que o governo precisa “descer das nuvens” e conversar de maneira sincera com os setores mobilizados.

As manifestações reúnem setores diversos: operários, mineiros, camponeses, professores, motoristas, comerciantes, moradores de El Alto e índios. Em La Paz, colunas de manifestantes tentaram chegar à Praça Murillo, onde estão as sedes do Executivo e do Legislativo. A polícia respondeu com gás lacrimogêneo, enquanto manifestantes utilizaram pedras, paus, fogos e dinamite, em cenas que expressam a gravidade da crise social.

O governo Paz tenta apresentar os bloqueios como uma ameaça à ordem institucional. O presidente anunciou uma reorganização do gabinete, sem detalhar prazos ou mudanças concretas, e prometeu criar espaços de diálogo com setores sociais. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e governos aliados classificaram as mobilizações como tentativa de desestabilização.

A crise também se tornou diplomática. A Bolívia expulsou a embaixadora da Colômbia, Elizabeth García, depois que o presidente colombiano Gustavo Petro chamou a situação boliviana de “insurreição popular” e se ofereceu para mediar a crise. O governo boliviano acusou Petro de interferência em assuntos internos; a Colômbia respondeu com críticas ao que chamou de avanço do extremismo. A situação econômica ajuda a explicar a explosão social. A Bolívia enfrenta escassez de combustível, inflação elevada, falta de dólares e problemas de abastecimento que já vinham do governo anterior, mas que se agravaram sob Paz. Uma das primeiras medidas do novo governo foi acabar com subsídios aos combustíveis, prometendo que o mercado resolveria o problema. O resultado, segundo os manifestantes, foi o aumento dos preços, a continuidade das filas e a entrada de combustível de má qualidade, que gerou danos a veículos e protestos de transportadores.

A Associated Press informou que os bloqueios esvaziaram mercados em La Paz e afetaram reservas de oxigênio hospitalar. O governo boliviano afirmou que pelo menos três pessoas morreram depois que veículos de emergência foram impedidos de chegar a centros médicos. A agência também registrou que a COB, sindicatos camponeses e mineiros estão entre os setores que lideram as paralisações.

Apesar da tentativa do governo de isolar os manifestantes, a exigência pela renúncia de Rodrigo Paz ganhou força. O impasse segue aberto. De um lado, o governo busca ganhar tempo com promessas de reforma ministerial e acusações contra os setores mobilizados. De outro, a COB e as bases populares afirmam que a greve, os bloqueios e as marchas continuarão enquanto não houver resposta concreta às reivindicações.

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