Depois de duas semanas de protestos, bloqueios, greves e confrontos em La Paz, El Alto e nas principais estradas da Bolívia, a Polícia e as Forças Armadas foram lançadas contra trabalhadores, camponeses, índios, professores, transportadores e mineiros que exigem aumentos salariais, estabilização econômica, o fim dos planos de privatização e a renúncia do presidente.
A operação militar-policial, apresentada pelo governo como tentativa de abrir um “corredor humanitário”, mobilizou cerca de 3.500 agentes. O alvo principal foram os bloqueios instalados em pontos estratégicos de acesso a La Paz e El Alto, especialmente na rodovia La Paz-Oruro e nas regiões de Río Seco e Senkata. O resultado foi uma onda de prisões, feridos e perseguições contra manifestantes. A Defensoria do Povo registrou pelo menos 57 detidos em uma das operações; outros balanços apontam dezenas de presos em ações anteriores, elevando o número de manifestantes detidos para cerca de uma centena desde o agravamento da repressão.
A tentativa de esmagar o movimento, no entanto, não encerrou os protestos. Ao contrário: os bloqueios foram retomados em vários pontos, setores populares anunciaram novas mobilizações e a Central Obrera Boliviana (COB) afirmou que não será “dobrada” pela repressão. O governo, por sua vez, acabou mostrando sua fraqueza. Em poucos dias, foi obrigado a negociar com setores mobilizados, a sentar-se com os mineiros e a buscar acordos parciais para tentar desmontar uma crise que já coloca em questão a própria permanência no poder.
O episódio mais expressivo dessa situação ocorreu com os mineiros. Milhares de trabalhadores do setor chegaram a La Paz exigindo combustível, áreas de exploração, fornecimento de explosivos para o trabalho e outras reivindicações. A mobilização, entretanto, rapidamente assumiu um caráter político. Os mineiros passaram a exigir também a renúncia de Rodrigo Paz, acusado de não atender às demandas populares e de governar contra os trabalhadores.
Na quinta-feira (15), a Polícia tentou impedir a entrada dos manifestantes na Praça Murillo, centro político do país, onde ficam o Palácio de Governo e o Congresso. Os agentes usaram gás lacrimogêneo. Os mineiros responderam com pedras, hondas e dinamites, em uma demonstração do caráter combativo de um dos setores mais tradicionais da classe trabalhadora boliviana. O centro de La Paz foi paralisado.
Depois dos enfrentamentos, o governo teve de negociar. A reunião com representantes mineiros se estendeu por quase 12 horas, até a madrugada. O ministro da Economia, José Gabriel Espinoza, anunciou que “vários acordos” haviam sido alcançados, sem detalhá-los. O simples fato de um governo que tentava tratar os protestos como “desestabilização” ser obrigado a sentar à mesa com os mineiros mostra a força da mobilização.
O mesmo ocorre com os demais setores. Professores, camponeses, índios e transportadores mantêm a pressão. O magistério obteve a promessa de um bônus anual de 2.400 bolivianos, embora não tenha conquistado o reajuste salarial reivindicado. Os bloqueios seguem atingindo o abastecimento de La Paz, com alta de preços nos mercados e dificuldades no transporte de alimentos, combustíveis e insumos médicos.
Uma carta pública do vice-presidente Edmand Lara tornou ainda mais evidente o isolamento de Paz. Lara cobrou diálogo sem condições e perguntou: “a que tem medo, Presidente? Ao seu próprio povo?” O vice afirmou que a população “não é seu inimigo” e acusou os ministros de se esconderem em seus gabinetes enquanto policiais são usados como “carne de canhão”.
A carta é um documento importante da crise. Não veio de um dirigente sindical, nem de um partido opositor, mas de dentro do próprio governo. Ela mostra que a pressão dos trabalhadores colocou Rodrigo Paz na defensiva.
Desde o início de maio, a Bolívia vive uma onda crescente de protestos. A COB, a Federação Camponesa Túpac Katari, os Ponchos Rojos, setores do magistério, mineiros, indígenas e transportadores têm saído às ruas e às estradas contra a política econômica de Paz. As reivindicações incluem salários, combustível, alimentos, defesa das empresas públicas e rejeição à privatização. Mas a palavra de ordem que unifica cada vez mais setores é a saída do presidente.
Rodrigo Paz chegou ao governo em uma eleição marcada pela exclusão política de Evo Morales, p[ popular do país. A proscrição de Evo, a divisão do MAS e a ofensiva judicial contra a principal liderança dos índios da Bolívia retiraram das eleições qualquer aparência de normalidade. Milhões de bolivianos não reconheceram aquele processo como expressão legítima da vontade popular. O voto nulo, que alcançou mais de 19% e superou 1,2 milhão de eleitores, expressou essa recusa.
Diante da mobilização, Paz escolheu a repressão. Acusou os protestos de fazerem parte de um plano para “romper a ordem constitucional”, tentou associar os bloqueios ao narcotráfico e recebeu apoio de governos de direita da região. Argentina, Chile, Peru, Equador, Costa Rica, Paraguai, Panamá, Honduras e outros governos saíram em defesa da “ordem democrática”, isto é, da manutenção de um governo rejeitado pelas ruas. A declaração externa não fortaleceu Paz; apenas mostrou quais interesses sustentam seu governo.
Enquanto isso, a repressão produziu feridos, detenções e denúncias de abusos. A Defensoria do Povo informou a prisão de dezenas de pessoas e relatou casos de feridos, inclusive um manifestante com trauma ocular e facial. Também houve denúncias de agressões a jornalistas durante a cobertura dos confrontos. Mesmo assim, os bloqueios continuaram. Em vários pontos, a Polícia avançava durante a madrugada e os manifestantes retomavam os cortes horas depois.
A COB respondeu à repressão reafirmando a continuidade da luta. Seu dirigente, Mario Argollo, declarou que os trabalhadores de La Paz e El Alto não serão dobrados. Ele valorizou o “espírito combativo” dos manifestantes diante das forças repressivas e denunciou que o governo tenta calar a direção sindical com ações judiciais e processos penais. Para a central, o pacote de leis impulsionado por Paz prejudica as grandes maiorias e favorece empresas transnacionais.
Os bloqueios e marchas também ganharam reforço de setores ligados a Evo Morales, que se dirigem a La Paz para somar-se às mobilizações. Evo denunciou perseguição judicial e afirmou que o governo tenta encobrir sua incapacidade de resolver a crise social criminalizando os protestos. O ex-presidente acusa Paz de governar para as privatizações, para o Fundo Monetário Internacional e para os interesses estrangeiros.





