Oriente Médio

Emirados Árabes Unidos deportam ilegalmente trabalhadores xiitas

A política de expulsão de estrangeiros pelos EAU, principalmente vindos do Paquistão, ocorre após ataques do Irã contra instalações dos Estados Unidos no Golfo Pérsico

As autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) deportaram milhares de imigrantes, sem acusações formais nem possibilidade de recurso legal desde abril deste ano. A política de expulsão de estrangeiros pelos EAU, principalmente vindos do Paquistão, ocorre após ataques do Irã contra instalações dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. A medida atingiu trabalhadores em uma campanha que mirou principalmente aqueles identificados como muçulmanos xiitas, de acordo com reportagem do jornal russo PressTV publicada na quarta-feira (13).

A denúncia aponta que os trabalhadores foram obrigados a retornar a seus países de origem sem aviso prévio, sem explicação formal e sem garantia de recebimento de salários ou recuperação de bens. A reportagem afirma que uma lista de deportação obtida por seu correspondente indicava que a maioria dos expulsos de Dubai era formada por paquistaneses. Muitos dos atingidos se identificavam como xiitas, enquanto trabalhadores iranianos xiitas também teriam sido alvo das autoridades emiradenses.

Os relatos dos deportados indicam uma política de perseguição religiosa e política em meio à guerra contra o Irã. Um paquistanês expulso afirmou que foi chamado pelas autoridades sem qualquer aviso anterior e informado de que deveria deixar o país imediatamente. Outro relato aponta que paquistaneses foram interrogados sobre sua seita religiosa e que, depois do início da guerra contra o Irã, a pressão aumentou. Segundo esse depoimento, pessoas com nomes como Ali, Haidar, Hossain, Hassan e Abbas, ou que frequentavam mesquitas xiitas, passaram a ser alvo das deportações, mesmo quando não eram xiitas.

A situação descrita é especialmente grave porque envolve trabalhadores imigrantes que viviam havia anos em Dubai e dependiam do emprego para sustentar suas famílias no Paquistão. Um dos deportados afirmou que muitos retornaram sem salários, sem economias e sem qualquer explicação. Ele pediu que o governo paquistanês tomasse providências para recuperar empregos, salários pendentes e bens bloqueados. A expulsão sumária, nesses termos, coloca os trabalhadores em uma condição de completa vulnerabilidade, pois interrompe renda, moradia e vida familiar de um momento para outro.

O jornalista Nadir Balouch, de Islamabad, afirmou que mais de 5.000 famílias afetadas foram registradas até agora. Ele disse acompanhar o caso desde abril e atribuiu a campanha de expulsões ao contexto da guerra imposta ao Irã pelos Estados Unidos e por “Israel”. Segundo ele, a deportação em massa de paquistaneses, em sua maioria xiitas, refletiria o descontentamento dos Emirados com a aproximação do Paquistão com o Irã e com o papel de Islamabad nas negociações entre Teerã e Uóxinton.

O Ministério do Interior do Paquistão, no entanto, rejeitou as denúncias de deportação por motivo sectário e chamou as acusações de enganosas e politicamente motivadas. Essa negativa oficial, porém, não elimina os relatos dos deportados nem as informações sobre detenções repentinas, confisco de telefones, transferências por centros de detenção e expulsões forçadas. A reportagem também afirmou que houve congelamento de contas bancárias e perda de economias de trabalhadores atingidos pela campanha.

A denúncia se insere em um quadro mais amplo de alinhamento dos Emirados com os interesses dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã. A mesma reportagem menciona que, segundo outro jornal norte-americano citado no conteúdo, os Emirados teriam realizado ataques militares secretos contra o Irã em apoio direto à guerra. Um desses ataques teria mirado uma refinaria na ilha iraniana de Lavan, no Golfo Pérsico, em abril, período em que também havia uma tentativa de cessar-fogo mediada pelo Paquistão.

Ao atingir trabalhadores pobres e imigrantes, a medida transforma disputas militares e diplomáticas em punição coletiva contra pessoas sem poder político. A perseguição a xiitas paquistaneses, se confirmada nos termos relatados, revela o uso do aparato estatal emiradense para vigiar crenças religiosas, punir vínculos culturais com o Irã e intimidar comunidades estrangeiras. A ilegalidade denunciada está justamente na ausência de acusação formal, na impossibilidade de defesa e no caráter súbito das expulsões, que deixaram milhares de famílias sem proteção.

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