Polêmica

Quem criou a teoria do ‘imperialismo russo’ foi o… imperialismo – Parte 2

A esquerda pequeno-burguesa não pode defender abertamente o imperialismo, por isso cria diversos imperialismos, para então criticar Rússia e China

Imperialismo

Continuamos aqui o debate com o texto Notas sobre a turbulência mundial, de Valerio Arcary, publicado no sítio Esquerda Online, nesta sexta-feira (8), no qual o autor repete algumas concepções equivocadas acerca do imperialismo, muito comuns ultimamente na maioria da esquerda que se diz revolucionária. A primeira parte pode ser lida aqui.

No segundo parágrafo de seu texto, Arcary fala da instabilidade do governo Trump e que o sequestro de Nicolás Maduro seria a ressurreição da Doutrina Monroe. A realidade, porém, mostra que até agora esse fato não conseguiu sair do papel.

Acary diz que o mandatário norte-americano “declarou a recolonização do hemisfério ocidental, inclusive a Groenlândia, como espaço vital de Washington”, e que “os EUA ambicionam o deslocamento de Estados independentes para garantir o isolamento de Pequim”. A questão é que não adianta declarar, é preciso realizar e, até o momento, não se pode garantir que os EUA terão êxito, visto a crise é crescente, a despeito de seu poderio.

Para o autor, “o ataque contra a Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro no início de janeiro é indivisível desta estratégia”, diz, mas a questão é que essa é uma etapa ainda em andamento, e que vai se desdobrar conforme os Estados Unidos aumentem a pressão sobre o país.

“Os EUA ambicionam … o isolamento de Pequim”, diz Arcary, concluindo que  “a contra-ofensiva é uma resposta à estratégia chinesa de articulação de um bloco através dos Brics. – grifo nosso.

A ideia de que a China estaria em uma ofensiva e os Estados Unidos estariam reagindo é um completo absurdo. Primeiro porque reforça a ideia estapafúrdia de que os chineses sejam imperialistas. Segundo que a formação de blocos econômicos nesse caso é uma defesa de países pressionados pelo imperialismo.

Irã, China e Rússia são países sancionados de todas as maneiras pelo imperialismo e é natural que se juntem para se proteger. A formação de um bloco como o BRICS jamais poderia ser enxergado como uma ofensiva.

A confusão de Arcary é evidente, pois, se afirma que “intimidações políticas e provocações militares – seja contra a Rússia, a Venezuela, o Irã, Cuba e até mesmo alguns aliados na União Europeia – é pequeno diante do desafio estratégico de colocar Pequim na defensiva”, termina o parágrafo dizendo que “se a China, aliás, legitimamente, decidisse exercer seu controle sobre o estreito de Taiwan…”. Que espécie de país imperialista é esse que não consegue exercer controle sobre o próprio território? É o imperialismo que está tentando separar uma parte do território chinês; e não os chineses, por exemplo, que estariam tentando separar o Havaí, ou Alasca, dos EUA.

Crise imperialista

As definições que Arcary apresenta brigam com a própria realidade. No meio do parágrafo 3, por exemplo, diz que “o peso relativo dos EUA é declinante, irreversivelmente, mas somente se Washington não mobilizar ativa e até, agressivamente, suas, por enquanto, três grandes vantagens relativas em comparação com a China: (a) a superioridade militar dos EUA permanece intacta, e as demonstrações de força obedecem ao cálculo de intimidação; (b) a ilimitada capacidade de financiamento pela força do dólar como principal moeda de entesouramento permanece incólume, e garante o endividamento do Estado pode se expandir; (c) o sistema de alianças com a União Europeia e o Japão permanece sólida, apesar de tensões sobre os custos da OTAN”.

Os Estados Unidos perderam recentemente no Afeganistão; perde na Ucrânia e acaba de sofrer uma derrota histórica para o Irã. Então, é preciso explicar que tipo de “superioridade intacta” seria essa.

A derrota para o Talibã abriu uma crise interna no imperialismo, pois a União Europeia não aceitou a retirada de Biden, que fez o bloco perder uma posição importantíssima na Ásia Central. O Afeganistão era uma peça fundamental para pressionar o Irã, a China, a Rússia e controlar o Paquistão – para ficar em alguns exemplos.

As dívidas internas dos países imperialistas, especialmente dos Estados Unidos, impedem que se possa concluir que exista uma “capacidade infinita de financiamento”. Uma das exigências do governo Trump é que a União Europeia passe a investir mais no rearmamento europeu, o que também é um fator de crise e instabilidade social.

Os riscos e as pressões que o dólar vem sofrendo não saem dos noticiários. Os gastos militares dos EUA estão na casa de US$ 900 bilhões/ano, quase US$ 2,5 bilhões diariamente, enquanto os investimentos públicos se deterioram.

A recente derrota para o Irã acentuou a crise na OTAN iniciada com o fracasso na Ucrânia. O Japão, com a extrema direita no poder, andou ameaçando a China na questão de Taiuan, mas é difícil enxergar solidez no bloco imperialista

Em oposição aos três pontos de vantagem dos Estados Unidos, Arcary diz que “a China ainda está em posição, militarmente, inferiorizada, financeiramente, limitada, e os Brics ainda são somente um laboratório exploratório”, o que nos leva de volta à questão: que tipo de imperialismo é esse?

Luta de Classes

Dentre as muitas confusões da esquerda pequeno-burguesa, a principal é não entender que a luta de classes se dá em todos os níveis, inclusive dentro da própria burguesia. Os Estados Unidos são um exemplo típico: a alta burguesia americana vem perdendo seus rendimentos em função da ação predatória do grande capital financeiro. É por isso que aquele setor apoia Donald Trump, que vive dizendo que vai acabar com as guerras e repatriar o capital.

Sem entender esse princípio, é impossível explicar “a dificuldade de preservar estabilidade política sustentada pela coesão social interna”, e por que “avançou nos EUA um processo de fragmentação social e política”.

Essa esquerda está diante de um impasse: precisa defender a democracia liberal, que supostamente lutaria contra o fascismo, mas não pode fazê-lo abertamente. A solução natural foi o de acusar outros países de serem também imperialistas, o que permite que se critique a Rússia e a China.

A “solução” criada pela esquerda pequeno-burguesa, no entanto, cria outro problema: como explicar que um país pode ser simultaneamente oprimido e imperialista?

O resultado não pode ser outro, textos cada vez mais confusos, e a esquerda depende de clareza, pois é a única maneira de atuar de maneira revolucionária.

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