Polêmica

Quem criou a teoria do ‘imperialismo russo’ foi o… imperialismo – Parte 1

A esquerda pequeno-burguesa vê imperialismo por toda a parte, mas o fundamental é ataca todos os inimigos do imperialismo, como Rússia, China e Irã

Ucrânia, bucha de canhão da OTAN

Valerio Arcary em seu texto Notas sobre a turbulência mundial, publicado no sítio Esquerda Online, nesta sexta-feira (8), repete algumas concepções equivocadas acerca do imperialismo, muito comuns ultimamente na maioria da esquerda que se diz revolucionária.

Quando se diz que “a análise das turbulências no mundo deve considerar, em primeiro lugar, as duas guerras em curso. Não são um ex-abrupto da personalidade das lideranças.” E que “não é relevante se Trump é megalomaníaco, paranoico, narcisista ou demencial. Só uma perspectiva histórica atribui sentido a estas guerras”, se passa por cima do que está acontecendo de mais importante dentro dos Estados Unidos.

A presidência de Donald Trump é um fator de crise dentro do imperialismo. Basta lembrar que o presidente era indesejado desde seu primeiro mandato, quando sofreu duas tentativas de impeachment, aprovados na Câmara dos Representantes, mas ambas rejeitadas no Senado.

A derrota para Biden foi controversa devido à questão dos votos pelo correio. Na corrida eleitoral para este segundo mandato, Trump enfrentou uma verdadeira avalanche de processos judiciais, além de tentativas de assassinato.

Está claro que o atual presidente não é um candidato “orgânico” do imperialismo, como Joe Biden, e sua gestão tem causado inúmeros problemas para o bloco imperialista.

É um equívoco considerar que as duas guerras “são uma aposta dos EUA, sob uma direção nacional-imperialista mais agressiva do governo Trump, mas em grande medida herdeira da estratégia Biden, de preservar sua posição de supremacia no mundo diante do fortalecimento da China”.

Durante a campanha presidencial, Trump vivia dizendo que acabaria com a guerra em 24 horas e que, se dependesse dele, a guerra na Ucrânia nem teria iniciado. Apesar de presidente do país mais poderoso do planeta, Donald Trump não conseguiu vencer os interesses do imperialismo.

É preciso lembrar que em sua gestão, o norte-americano impôs um cessar-fogo em Gaza; e também fez o mesmo durante a guerra dos 12 dias, em que o Irã retaliou as agressões sionistas e mostrou sua superioridade militar.

Na ocasião, os Estados Unidos lançaram três bombas sobre instalações iranianas, declararam vitória e deram o assunto por encerrado.

Na guerra contra o Irã, ficou mais do que claro que Trump não queria entrar no conflito, pois isso contraria sua plataforma eleitoral e faz cair demasiadamente sua popularidade.

Muitos cidadãos norte-americanos protestam dizendo que os Estados Unidos estão defendendo os interesses de “Israel” não os do contribuinte. Houve, inclusive, a saída de apoiadores importantes da órbita de Trump, como Tucker Carlson.

Divisão interna

Existe uma polarização crescente nos Estados Unidos. De um lado estão a população e os capitalistas que estão empobrecendo com o desvio dos recursos públicos para a especulação e setor militar. Do outro lado está o grande capital financeiro, que precisa de guerras para manter seu controle sobre os mercados mundiais.

A incompreensão da divisão dentro da burguesia americana, é que faz com que o texto de Arcary fique confuso e por vezes dê a impressão de que o imperialismo lute consigo próprio.

Valerio Arcary, diz que “há quatro anos se iniciou a guerra na Ucrânia, mas é impossível compreender o conflito ignorando que a invasão russa foi precedida por uma ofensiva imperialista de oito anos, liderada pela OTAN, contra Moscou, que passou pelo apoio a uma guerra civil no vale do rio Don”. Porém, ao mesmo tempo, afirma que “seria injusto desprezar que há uma dimensão defensiva na resistência de Kiev, mas mais grave seria desconhecer a natureza inter-imperialista da guerra, já que o governo Zelensky só se mantém porque tem apoio incondicional econômico, político e militar da União Europeia e dos EUA”.

A Ucrânia que ficou oito anos atacando a região do Donbas, antes dos russos resolverem intervir, possui uma “dimensão defensiva”, como assim? E o governo Zelensky, que continua a guerra servindo de bucha de canhão da OTAN, estaria se defendendo? Não faz o menor sentido.

Grave, na verdade, é enxergar uma guerra “inter-imperialista” quando um país está sendo atacado durante anos imperialismo. O único movimento defensivo é o da Rússia, mas Valério Arcary não consegue ver.

Que espécie de imperialismo é esse o da Rússia se o país vinha sendo cercado há anos e sofre inúmeras sanções?

Não haverá trégua

Valerio Arcary diz que o plano imperialista é “impor a exclusão ou, pelo menos, um grande isolamento da Rússia, principal Estado aliado de Pequim, do mercado mundial”. Como acreditar, então, que a Rússia seja imperialista? Pior, afirma que o imperialismo “não fará concessões a Moscou, se a Rússia não sinalizar distanciamento da China”. Ou seja, se os “imperialistas” russos não obedecerem, não terão nenhum tipo de alívio.

Por outro lado, quem poderia acreditar que o imperialismo, que avança criteriosamente em direção à Rússia desde o final da URSS, reconsideraria se os russos fizessem isso ou aquilo? Todo mundo sabe que o plano do imperialismo é fatiar a Rússia em diversas repúblicas menores para poder se apoderar de seus recursos energéticos.

Felizmente, a Rússia não acredita nesse conto de fadas de concessões, por isso vem há décadas se preparando para a guerra. Não estivesse se cuidado, e hoje os russos estariam perdidos. O mesmo serve para o Irã e para a China, que entendem de política, sabem da ameaça e tomam as devidas precauções.

Os russos, os chineses e também os iranianos sabem que o imperialismo, que atravessa sua crise mais grave, vai ter que ir para o tudo ou nada, apesar de estar sofrendo derrotas na Ucrânia e contra o Irã.

Existe uma grande confusão feita com relação ao imperialismo, que uma hora é russo, outra é chinês, ou então nacional-imperialismo. Por toda parte que essa gente olha diz enxergar imperialismo, de modo que até a palavra começa a deixar de fazer sentido.

Continua…

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