Literatura

Lançamento: compre já seu exemplar de O Espinho e o Cravo

Obra de Iahia Sinuar foi lançada no CCBP, em São Paulo; livro tem cerca de 800 páginas e pode ser adquirido por R$270,00

A Editora Democritos lançou neste sábado (9), às 17 horas, no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), em São Paulo, a edição brasileira de O Espinho e o Cravo, romance de Iahia Sinuar escrito nas prisões sionistas. A obra, publicada em dois volumes, está disponível por R$270,00. Os interessados podem adquirir o exemplar e ter acesso à versão digital pelo telefone (11) 99741-0436 ou pelo sítio oficial da editora em democritos.com.br.

Com cerca de 800 páginas, o livro apresenta a história recente da Palestina por meio da vida de uma família palestina. A obra acompanha o período que vai da Guerra dos Seis Dias, em 1967, à Segunda Intifada, mostrando a ocupação de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, a organização da resistência, a vida nos campos de refugiados e a luta dos prisioneiros palestinos dentro das cadeias de “Israel”.

A Causa Operária TV (COTV) realizou a cobertura jornalística do lançamento, transmitido a partir do CCBP. A atividade contou com a participação de Henrique Áreas, apresentador da transmissão; Juca Simonard, que participou do trabalho de tradução, edição, notas e revisão; e Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, que participou da organização dos documentos e textos da edição brasileira.

Na abertura, Áreas destacou que se tratava de “um livro inédito em português, um romance de dois volumes que a Editora Democritos junto com a editora do jornal Clandestino estão lançando impresso pela primeira vez no Brasil”. O apresentador também afirmou que a obra será lançada em outras cidades do País, começando por capitais onde existem militantes organizados.

“Se você estiver assistindo a essa transmissão e quer levar esse evento de lançamento do livro para a sua cidade, não importa onde seja, fale com a gente e a gente ajuda você a organizar o evento de lançamento do livro na sua cidade”, disse Áreas.

Simonard explicou que o trabalho editorial partiu da primeira tradução feita pelo jornal Clandestino. A equipe da Editora Democritos comparou essa versão com o original em árabe e com traduções disponíveis em outras línguas, buscando uma edição mais próxima do texto original.

“Como o Henrique falou, é um livro que é inédito em português. Agradecer ao pessoal do jornal Clandestino, que fez a primeira tradução para o português. E aí, o que nós fizemos foi pegar o livro original em árabe e comparar o livro com as traduções que nós temos em inglês e em português que o próprio Clandestino tinha feito. E através disso nós fizemos todo um trabalho detalhado para conseguir chegar ao máximo ao que o livro original representa”, afirmou Simonard.

Segundo ele, embora O Espinho e o Cravo seja um romance, a obra tem enorme valor histórico. “Ele conta a história da Palestina inteira de 67, da Guerra dos Seis Dias até a Segunda Intifada. Então são aí quase 40 anos de história da Palestina. O livro foi escrito em 2004”, disse.

Simonard lembrou que Sinuar escreveu o livro enquanto estava encarcerado por “Israel”. O texto circulou inicialmente como manuscrito clandestino entre os prisioneiros palestinos e, depois da libertação de Sinuar em 2012, passou por um trabalho maior de divulgação.

“É um livro de um militante político escrito nas prisões sionistas, representando a luta do povo palestino”, declarou.

O editor também chamou atenção para o aparato de notas da edição brasileira. Segundo ele, a obra possui mais de 100 notas de rodapé, utilizadas para explicar organizações, acordos, acontecimentos políticos e elementos religiosos citados no romance. A edição também traz uma tabela de nomes árabes, com a forma aportuguesada (que foi utilizada no livro), a forma comum, o original em árabe e a transliteração.

 

Uma das características destacadas por Simonard é que o romance apresenta a vida cotidiana da população palestina nos campos de refugiados da Faixa de Gaza. Segundo ele, o livro trata das brincadeiras das crianças, da escola, da alimentação, dos casamentos, do trabalho das famílias e das formas encontradas pelos palestinos para sobreviver sob a ocupação.

O livro, no entanto, tem como eixo principal a política palestina. A história é acompanhada a partir de uma família fictícia, cujos membros se ligam a diferentes organizações da resistência. O irmão mais velho do protagonista é militante do Fatá, enquanto os mais jovens se aproximam do Bloco Islâmico, que daria origem ao Hamas.

“O livro vai narrar essa história de 67 a 2004 através de uma família fictícia palestina. No próprio prefácio, Iahia Sinuar diz: essa aqui não é uma história pessoal minha, nem de um palestino específico. É a história de todos eles. Porque ou ele viveu isso, ou ele ouviu, ou conheceu alguém que viveu essas coisas todas que são narradas”, afirmou Simonard.

A Guerra dos Seis Dias aparece como ponto de partida da obra. Em 1967, “Israel” derrotou os exércitos árabes e ocupou Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Sinai e Golã. Na narrativa, o pai e o tio do protagonista vão lutar contra os sionistas e desaparecem. A partir desse episódio, o livro acompanha a vida da família palestina sob a ocupação.

Simonard destacou que a derrota de 1967 também transformou a organização política palestina. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP), antes mais dependente dos governos árabes, passou a ser dirigida com maior peso pelo Fatá, de Iasser Arafat. No mesmo período, outras organizações, como a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), também ganharam importância.

Outro ponto ressaltado na atividade foi a descrição das prisões sionistas. Simonard afirmou que o livro mostra o tratamento brutal aplicado aos presos palestinos, mas também a luta organizada dentro das cadeias.

“Os protagonistas são presos, vão para a cadeia, uma coisa que ele narra bastante no livro é o tratamento totalmente desumano que é imposto pelo sionismo nessas prisões israelenses. Mas também mostra a luta dos prisioneiros, que é uma coisa que até hoje eu acho que muita gente não entendeu, que é uma questão fundamental da Palestina”, disse.

A obra aborda uma greve de fome realizada no início da década de 1970, que conquistou direitos básicos para os presos palestinos. A partir dessas lutas, as prisões passaram a cumprir papel decisivo na formação política de militantes da causa nacional palestina.

Simonard também mencionou a Batalha de Karamé, quando o Fatá impôs uma derrota a “Israel” na Cisjordânia. Segundo ele, o livro apresenta esse episódio como um marco no momento em que os próprios palestinos passaram a tomar a luta em suas mãos.

“Aí tem um evento bem interessante do livro, que eles falam assim: está vendo? Quando dependíamos dos governos árabes e estrangeiros, a gente só fez perder. E agora que nós tomamos conta da nossa própria luta, nós conseguimos alguma vitória, que mostra o espírito de luta do povo palestino”, afirmou.

A exposição também tratou da ascensão do Bloco Islâmico, ligado à Irmandade Muçulmana, durante a década de 1970. Simonard explicou que, inicialmente, esse setor não se dedicava à luta armada, mas ao trabalho político nas universidades, sindicatos e associações profissionais. Esse crescimento se deu especialmente entre a juventude palestina.

A Universidade Islâmica de Gaza foi apontada como um dos centros desse processo. Segundo Simonard, Sinuar, Ismail Hanié e Mohamed Deif estudaram na instituição, que se tornou um polo de organização política na Faixa de Gaza.

O editor rejeitou a propaganda sionista, repetida por setores da esquerda, segundo a qual “Israel” teria ajudado o Bloco Islâmico a crescer.

“‘Israel’, ao contrário do que se diz na propaganda sionista que muita gente de esquerda repete, ‘Israel’ em nenhum momento ajudou o Bloco Islâmico a crescer. Pelo contrário, como tinha as disputas internas, o que acontecia é que eles deixavam o pessoal lá brigando entre si, até que, quando chega a Intifada, vai ter uma nova união”, afirmou.

Na década de 1980, o romance mostra uma nova radicalização da luta palestina. O livro aborda o surgimento da Jiade Islâmica, a Primeira Intifada e a criação do Hamas como partido político durante esse processo. Também aparece com destaque o surgimento das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, braço armado do Hamas.

Simonard afirmou que o segundo volume do livro acompanha principalmente o desenvolvimento das brigadas, desde as primeiras armas obtidas de maneira rudimentar até a criação dos primeiros foguetes artesanais na Segunda Intifada.

“As brigadas Izz ad-Din al-Qassam vão, e é uma coisa que você lê o relato, é uma coisa extraordinária, desde como eles conseguiram a primeira arma até toda a luta que eles faziam e iam conversando com os familiares. Às vezes encontravam um senhor que combateu em 1948, tinha escondido um fuzil velho embaixo do terreno, embaixo de um pomar, alguma coisa desse tipo. Toda a luta para você conseguir qualquer tipo de armamento para lutar contra os ocupantes”, disse.

O editor também destacou a figura de Emad Akel, um dos primeiros organizadores da resistência armada durante a Primeira Intifada, assassinado por “Israel” aos 21 anos. Segundo ele, o livro acompanha a atuação desses jovens combatentes em condições extremamente difíceis, com armamento precário e organização clandestina.

Outro episódio tratado no lançamento foi a deportação de militantes palestinos para o sul do Líbano. Simonard afirmou que a recusa dos deportados em aceitar o exílio deu visibilidade internacional à causa palestina e permitiu os primeiros contatos mais profundos entre o Hamas e o Hesbolá.

A exposição também abordou os Acordos de Oslo, apresentados como um duro golpe contra a Primeira Intifada. Segundo Simonard, o Hamas se recusou a reconhecer qualquer acordo com “Israel” e continuou defendendo a resistência contra a ocupação.

“Os líderes do Fatá vão e começam a negociar o que vai ficar conhecido como os Acordos de Oslo, que jogam um balde de água fria na Intifada, onde ‘Israel’ promete o Estado palestino e várias outras coisas, como sempre, e não cumpre nada”, afirmou.

Na parte final de sua fala, Simonard destacou que, embora o livro tenha sido escrito por um dos principais dirigentes da história do Hamas, a obra não é um livro do Hamas. Segundo ele, a mensagem política principal é a unidade dos palestinos contra o sionismo.

“O livro foi escrito por um dos principais dirigentes da história do Hamas. Porém, o livro não é um livro do Hamas, é um livro cuja conclusão política fundamental é a unidade dos palestinos que eles devem ter para lutar contra o sionismo. Essa é a mensagem final que ele coloca. Todas as tendências devem se juntar e atacar nosso inimigo comum, que é o que acontece durante a Segunda Intifada”, afirmou.

Rui Costa Pimenta, que também participou da atividade, destacou a importância política da literatura. Segundo o presidente do PCO, a publicação de um romance sobre a Palestina permite compreender aspectos da vida social e da luta política que muitas vezes desaparecem nos livros de história ou de análise política.

“Não é um romance qualquer. Isso daí surge no meio de uma situação quase insustentável do povo palestino. E eu tenho certeza que os acontecimentos políticos narrados são esclarecedores e fonte de inspiração para muita gente”, afirmou Pimenta.

O dirigente explicou que a literatura permite ao leitor compreender a mentalidade de uma época e a forma como a população local reagia aos acontecimentos. Para Pimenta, esse é um aspecto indispensável para entender a luta política.

“Quando uma pessoa escreve um romance, uma pessoa que participou dos acontecimentos, que viu o desenvolvimento da situação, que conversou ali com as pessoas que não estão vendo a coisa de longe, tal guerra que aconteceu em tal época, está vendo como as pessoas, a população local reagia diante dos acontecimentos, isso é uma contribuição extraordinariamente importante para a compreensão dos acontecimentos”, disse.

Pimenta afirmou que muitos têm dificuldade para compreender por que a luta contra o imperialismo na Palestina, no Líbano, no Iêmen e no Irã aparece ligada a concepções religiosas. Segundo ele, a literatura ajuda a compreender as condições concretas nas quais essas concepções se desenvolveram.

O presidente do PCO também ressaltou que a obra permite aproximar o leitor da experiência real dos palestinos, em especial diante dos acontecimentos na Faixa de Gaza. Segundo ele, fotografias, vídeos e depoimentos divulgados em tempo real têm grande importância, mas não substituem a força de um romance organizado por um participante direto da luta.

“O livro apresenta de maneira organizada, organizada pelo autor, os acontecimentos, as pessoas, as personalidades, os debates políticos pequenos que aconteciam, que a gente vive no dia a dia, o pessoal discute A e B, isso aí é difícil de aparecer num livro que trata simplesmente dos acontecimentos políticos”, afirmou.

Para Pimenta, a leitura de O Espinho e o Cravo deve ser vista como parte da atividade política em defesa da Palestina. Ele destacou que a edição brasileira tem importância especial por apresentar ao público uma obra pouco divulgada internacionalmente.

“Esse daqui é um caso, eu diria assim, quase único. Porque nós estamos lendo aí a narrativa de uma das pessoas cruciais em todo esse processo político. Quer dizer, muito importante, muito importante mesmo. Dificilmente a gente consegue esse tipo de literatura”, disse.

“Quando a gente tem a oportunidade de ver uma pessoa que é um participante de primeiríssimo plano, uma pessoa altamente consciente de tudo que estava acontecendo, uma pessoa que acompanhou todo esse desenvolvimento, que amadureceu a sua concepção política e esteve preso anos, que escreveu esse livro, ele não escreveu esse livro num escritório, num momento de lazer, ele escreveu esse livro na prisão”, completou Pimenta.

O dirigente também afirmou que a divulgação da obra constitui uma contribuição à causa palestina.

“Esse livro aí tem muito pouca divulgação. Essa edição que nós estamos apresentando aqui, provavelmente fora dos Estados Unidos, onde fizeram umas edições bem sofríveis, deve ser uma das primeiras edições. Então, é um motivo de orgulho para nós também apresentar esse livro. E nós acreditamos que o livro é uma contribuição essencial para a divulgação da luta do povo palestino. Nós estamos prestando aqui um grande serviço à causa palestina”, disse.

Iahia Sinuar nasceu em 1962, no campo de refugiados de Khan Iunis, na Faixa de Gaza. Sua família era originária de Ascalão e foi expulsa durante a Nakba de 1948. Formado em Língua e Literatura Árabe pela Universidade Islâmica de Gaza, tornou-se uma das principais figuras da resistência palestina.

Em 1988, Sinuar foi preso por “Israel” e condenado à prisão perpétua. Durante o encarceramento, escreveu O Espinho e o Cravo. Para impedir que o manuscrito fosse destruído pelos carcereiros israelenses, prisioneiros palestinos copiaram trechos manualmente e esconderam as páginas, permitindo a preservação da obra.

Depois do lançamento em São Paulo, a Editora Democritos pretende realizar atividades em outras regiões do País. Estão previstos eventos em capitais como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre nas próximas semanas.

O Espinho e o Cravo já pode ser adquirido por R$270,00. A obra tem cerca de 800 páginas, está publicada em dois volumes pela Editora Democritos e inclui acesso à versão digital. Para comprar o exemplar, os interessados devem entrar em contato pelo telefone (11) 99741-0436 ou pelo sítio oficial da editora em democritos.com.br.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.