Há um célebre livro de György Lukács intitulado “a destruição da razão”. Nele, o autor propõe a tese de que a irracionalidade é um pré-requisito para a ascensão do fascismo, tendo em vista que os discursos de Mussolini, Hitler e seus correligionários frequentemente partiam de premissas totalmente irracionais.
Lukács mostra que diversos intelectuais, como Nietzsche ou Heidegger (esse claramente um membro do partido nazista), abriram caminho para o fascismo através de suas teorias que sistematicamente minimizavam a importância da razão, contrapondo-se ao marxismo e em última instância negando a possibilidade da alocação racional dos recursos econômicos. Esse fenômeno evidentemente não estava circunscrito ao ambiente universitário, atingindo em cheio também as massas.
Atualmente, a tese de Lukács se mantém viva quando observamos bolsonaristas na frente de quarteis pedindo ajuda a extraterrestes para mudar a situação política do país, ou cantando o hino nacional de frente para um pneu em uma rodovia. Então, não é novidade que a extrema-direita seja irracional. O problema é que a irracionalidade ultimamente tem atingido em cheio também a esquerda.
Já faz algumas décadas que professores universitários que se dizem de esquerda destroem a razão ativamente. Intoxicados por altas doses de pós-modernismo, eles desconsideram qualquer critério de demarcação entre verdade e mentira, sendo assim partícipes da irracionalidade. Na esteira dessa tendência, observamos claramente que pessoas de esquerda fora da universidade também têm atuado nesse sentido.
O exemplo recente mais eloquente talvez seja o do banco central. Enquanto Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Bolsonaro, era o presidente do banco central e mantinha as taxas de juros em torno de 12%, membros do PT atacavam ele de todos os lados, acusando-o de ser playboy, manter a taxa de juros artificialmente alta, praticar crimes de lesa-pátria, brecar o desenvolvimento nacional, dentre outros. Todas críticas corretas. Entretanto, quando Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula, assumiu a presidência do banco central e elevou a taxa de juros a 15%, o PT não só se calou, como Lula disse que o povo brasileiro tinha que agradecer a Deus por Galípolo ser o presidente do banco central. Como assim?
É claro que ninguém leva a sério essas estripulias lógicas. É preciso respeitar a inteligência das pessoas e, mais do que isso, ter uma consistência programática. Alguém de esquerda querer imitar a extrema-direita destruindo a razão e jogando areia nos olhos do povo leva ao que vemos atualmente: empate técnico nas pesquisas eleitorais entre Lula e Flávio Bolsonaro. Enquanto não recuperarmos o sério compromisso com a racionalidade, nenhuma transformação importante à esquerda será possível.





