O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que o governo norte-americano iniciará uma operação naval para escoltar embarcações estrangeiras no Estreito de Ormuz. A medida, apresentada por Trump como uma iniciativa “humanitária”, foi anunciada em meio às negociações indiretas entre o governo norte-americano e o Irã para encerrar a guerra no Oriente Próximo.
O governo iraniano rejeitou a iniciativa. Ebrahim Azizi, chefe da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano, advertiu que qualquer participação dos Estados Unidos na administração do Estreito de Ormuz será considerada uma violação dos entendimentos de cessar-fogo.
Azizi afirmou que o Irã não aceitará controle externo sobre uma das passagens marítimas mais importantes do mundo. O dirigente iraniano rejeitou diretamente o chamado “Projeto Liberdade”, anunciado por Trump. Segundo ele, a administração do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico “não será definida pelos posts delirantes de Trump”.
A declaração mostra a oposição do Irã à tentativa dos Estados Unidos de se apresentarem como árbitros da circulação marítima na região. Azizi também criticou as versões norte-americanas previstas sobre a segurança marítima, que classificou como tentativas de promover um “jogo de culpa” contra o Irã.
Segundo o dirigente, esse tipo de declaração faz parte da tentativa dos Estados Unidos de moldar politicamente os acontecimentos no Estreito de Ormuz, enquanto o Irã afirma sua soberania sobre suas águas territoriais e sobre as rotas estratégicas da região.
Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que vários países pediram auxílio aos Estados Unidos para “libertar” navios que estariam impedidos de atravessar a passagem marítima. A operação recebeu o nome de “Projeto Liberdade” e, segundo o presidente norte-americano, deve começar na manhã de segunda-feira (4), no horário da Ásia Ocidental.
Trump declarou que representantes dos Estados Unidos terão a tarefa de orientar as embarcações e suas tripulações para fora da área restrita. Ele afirmou que muitos dos navios atingidos pela situação pertencem a países que não participam da guerra, classificando-os como “neutros e espectadores inocentes” da crise.
O presidente norte-americano acrescentou que essas embarcações não devem retornar à região até que a navegação seja considerada segura. Ao mesmo tempo, fez uma ameaça: qualquer interferência na operação será respondida com uso da força.
Na mesma publicação, Trump afirmou que representantes dos Estados Unidos estão envolvidos em conversas “muito positivas” com o Irã. Ele também disse que a operação seria realizada em nome dos Estados Unidos, dos países da Ásia Ocidental e, “em particular”, do Irã. A resposta iraniana, no entanto, foi de rejeição à presença norte-americana na administração do estreito.
A declaração de Trump ocorreu depois que dirigentes iranianos apresentaram um novo plano para controlar a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo. O vice-presidente do Parlamento iraniano, Ali Niczad, detalhou uma proposta de 12 pontos para regular o tráfego marítimo pela região.
Pelo plano iraniano, embarcações ligadas a “Israel” serão impedidas de atravessar o estreito em qualquer circunstância. Navios de países considerados hostis ao Irã também terão a passagem negada, a menos que paguem reparações de guerra.
Para as demais embarcações, a proposta estabelece um novo regime legal de autorização. Os navios terão de obter licenças oficiais das autoridades iranianas antes de entrar na região. Niczad afirmou que a medida será aplicada de acordo com o direito internacional e levará em consideração os direitos dos países vizinhos.
O dirigente iraniano destacou ainda que o Irã não abrirá mão de seus direitos soberanos sobre a região. Ele comparou a administração do Estreito de Ormuz à nacionalização do petróleo iraniano, indicando a importância estratégica que o governo iraniano atribui à medida.
O anúncio norte-americano também ocorreu em meio à troca de propostas entre Irã e Estados Unidos. Trump rejeitou a proposta iraniana de 14 pontos para encerrar a guerra. Em declarações citadas pela Autoridade de Radiodifusão Israelense, o presidente norte-americano afirmou que o plano iraniano “não é aceitável”.
“Não é aceitável para mim… eu estudei… não é aceitável”, disse Trump.
A proposta iraniana foi entregue ao Paquistão, que atua como mediador nas conversas indiretas entre os dois países. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que o plano trata exclusivamente do fim da guerra e não inclui negociações nucleares neste momento.
Baghaei confirmou que a resposta norte-americana foi encaminhada ao lado paquistanês e que o governo iraniano está analisando a posição dos Estados Unidos. Segundo ele, a resposta do Irã será apresentada depois que houver uma conclusão final.
“Neste momento, não temos negociações nucleares”, afirmou Baghaei.
O porta-voz iraniano também declarou que algumas informações em circulação dizem respeito ao histórico de negociações anteriores com os Estados Unidos, e não à proposta atual. Segundo ele, o plano de 14 pontos apresentado pelo Irã tem como base a formulação de um entendimento para parar a guerra, e o mecanismo de aplicação será discutido em até 30 dias.
Baghaei rejeitou ainda informações de que o Irã teria assumido compromissos sobre a retirada de minas no Estreito de Ormuz. Ele classificou essas versões como “meras fantasias” da imprensa. O porta-voz afirmou que o Irã não negocia sob pressão de prazos ou ultimatos.
“Nunca negociamos sob a pressão de prazos ou ultimatos”, afirmou. “A garantia de qualquer acordo é a força do Irã”.
De acordo com a agência iraniana Fars, pontos como a suspensão do enriquecimento de urânio por 15 anos, o destino do urânio enriquecido a 60% e a abertura gradual do Estreito de Ormuz faziam parte de uma proposta norte-americana apresentada há 20 dias e rejeitada pelo Irã.
A agência informou ainda que os Estados Unidos modificaram a proposta original outras três vezes. A versão mais recente do plano norte-americano teria nove artigos e já não incluiria publicamente algumas das condições divulgadas anteriormente, pois os Estados Unidos sabem que o Irã não aceitará esses termos.
Em resposta, o Irã apresentou sua própria proposta, composta por 14 artigos. O documento estabelece as chamadas “linhas vermelhas” do país e não aceita a suspensão do enriquecimento de urânio por 15 anos, nem a abertura do Estreito de Ormuz antes de um acordo final.
Entre os pontos do plano iraniano estão garantias contra agressões militares, retirada das forças norte-americanas das regiões próximas ao Irã, fim do bloqueio marítimo, liberação de ativos iranianos congelados, pagamento de compensações e retirada de sanções.
A proposta também exige o fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, e apresenta um novo mecanismo para administrar o Estreito de Ormuz. Com isso, o Irã procura vincular a segurança da passagem marítima ao fim da ofensiva militar mais ampla na região.





