Denúncia

Exército sionista torturou brasileiro após sequestrá-lo na flotilha

Thiago Ávila está preso em “Israel”, em greve de fome, com marcas de violência no rosto e sem saber quais acusações são usadas contra ele

O ativista brasileiro Thiago Ávila foi torturado, espancado e mantido com os olhos vendados após ser sequestrado por forças sionistas durante a interceptação da Flotilla Global Sumud, missão civil que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. A denúncia foi feita pela própria flotilha em comunicado divulgado neste sábado (2), que confirmou também a transferência de Ávila e do palestino-espanhol Saif Abukeshek para a prisão de Xikma, em Ascalão, ao norte de Gaza, na Palestina ocupada.

Segundo a Flotilla Global Sumud, Thiago foi violentado ainda na embarcação da Marinha sionista, a Nahshon. O brasileiro foi arrastado de bruços pelo chão e espancado de tal maneira que desmaiou duas vezes. Após mais de dois dias sob custódia das forças armadas de “Israel”, foi transferido ao Serviço Prisional israelense.

Os advogados que tiveram acesso a Thiago depois da visita consular relataram que ele apresenta hematomas visíveis no rosto, inclusive ao redor do olho esquerdo. O ativista também relatou dor intensa na mão e redução de mobilidade. Antes disso, segundo a denúncia, ele ficou em isolamento e vendado.

Na visita consular, representantes da embaixada brasileira só puderam vê-lo separado por um vidro. Não foi permitido que os diplomatas estivessem com celular, o que impediu o contato direto de Thiago com sua esposa, Lara, e também que ele ouvisse um áudio gravado por sua filha Teresa, de dois anos.

Lara recebeu na manhã deste sábado, no Brasil, uma ligação da embaixada brasileira em Telavive. Segundo o relato divulgado pela flotilha, Thiago contou aos diplomatas que sofreu tortura, espancamento e maus-tratos. Estava com marcas visíveis de violência no rosto e se queixava de dores, principalmente no ombro.

A advogada que o visitou afirmou que o olho esquerdo de Thiago estava fechado por causa do inchaço dos ferimentos. Até poucas horas antes, ele não conseguia enxergar por esse olho. Durante o trajeto até a prisão, ele também sofreu ameaças, violência psicológica e foi ameaçado de ser jogado da embarcação em mar aberto. Os agentes sionistas ainda ameaçaram sua família no Brasil.

Thiago está em greve de fome desde o sequestro, mas continua bebendo água. Até o momento do comunicado, nem ele nem a embaixada brasileira haviam sido informados sobre quais acusações pesam contra o ativista.

O brasileiro disse à embaixada que não deixará a prisão enquanto Saif Abukeshek, sequestrado e torturado junto com ele, não for libertado. Segundo o relato, Thiago afirmou que não há outra saída aceitável senão a libertação dos dois.

No dia 30 de abril, o Ministério das Relações Exteriores de “Israel” publicou em sua conta oficial no X que Thiago Ávila seria levado para interrogatório sob suspeita de “atividades ilegais”. A publicação também acusou Saif Abukeshek de pertencer a uma “organização terrorista”. A flotilha afirma que não há base legal para as acusações e que os dois foram sequestrados simplesmente por integrarem uma missão civil humanitária destinada a Gaza.

Thiago também relatou ter sido interrogado pela agência de inteligência Shin Bet, conhecida pela sigla ISA. De acordo com a denúncia, os agentes disseram que ele ainda seria interrogado pelo Mossad sob suspeita de “ligação a uma organização terrorista”. Os advogados da organização Adalah exigiram informações sobre as acusações, mas as autoridades sionistas se recusaram a fornecê-las.

A situação de Thiago é agravada pelo uso do sistema penal israelense contra o brasileiro. Segundo a Flotilla Global Sumud, o caso não está sendo tratado apenas sob regras imigratórias, como em outras ocasiões, mas pode ser levado ao ordenamento penal de “Israel”. A chamada lei dos combatentes ilegais, de 2002, autoriza o chefe do Estado-Maior das chamadas Forças de “Defesa” de “Israel” a emitir ordens de detenção quando considerar que a libertação de uma pessoa prejudica a segurança do Estado. Se formalmente acusado, Thiago pode ficar preso por tempo indeterminado.

O comunicado também citou o Comitê Público Contra a Tortura em Israel (PCATI, na sigla em inglês), segundo o qual todos os anos são recebidas dezenas de queixas de tortura física e psicológica praticada por interrogadores do serviço de repressão israelense. Entre os métodos denunciados estão privação de sono, exposição a calor ou frio extremos, ameaças, assédio sexual e humilhação.

A Flotilla Global Sumud classificou a transferência dos ativistas para a custódia israelense como uma grave violação do direito internacional:

“A Global Sumud Flotilla reitera que a transferência forçada de civis de águas internacionais e europeias para custódia, combinada com relatos de tortura e a ausência de devido processo legal, constitui uma grave violação do direito internacional e deve ser responsabilizada.”

A entidade também cobrou ação imediata dos governos do Brasil, da Espanha e da Suécia para garantir a libertação de seus cidadãos. A flotilha pediu ainda a intervenção de organizações internacionais e órgãos jurídicos para assegurar a integridade dos detidos e contestar acusações infundadas usadas para mantê-los presos.

O comunicado destacou que o caso de Thiago e Saif está ligado à política mais geral de prisões, torturas e detenções arbitrárias imposta pelo aparato sionista contra os palestinos:

“Saif e Thiago não são abstrações, são seres humanos com direitos invioláveis. Eles têm direito à proteção, ao devido processo legal e à plena preservação de suas vidas e dignidade. Eles são pais, filhos e pilares de comunidades que dependem de seu retorno seguro.”

A denúncia ocorre enquanto milhares de palestinos seguem presos por “Israel”, muitos deles sem acusação formal. A prisão de Xikma, para onde Thiago e Saif foram levados, é apontada como uma unidade usada para deter prisioneiros palestinos sob condições duras e também civis sequestrados em Gaza durante a campanha genocida contra a população palestina.

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