A crise interna no Estado de “Israel” se aprofundou após a guerra contra o Irã e a continuidade das frentes militares em Gaza, no Líbano, na Síria e no Iêmen. Na terça-feira (28), dezenas de judeus ultraortodoxos invadiram o quintal da residência do general de brigada Yoav Yamin, chefe da polícia militar israelense, na cidade ocupada de Ascalão, em protesto contra a prisão de ultraortodoxos que se recusaram a servir nas forças de ocupação.
Segundo veículos israelenses, cerca de 200 pessoas participaram do protesto. Parte dos manifestantes escalou a cerca da residência e entrou no terreno. Yamin não estava no local no momento da ação. Sua esposa e seus filhos, ainda de acordo com os relatos publicados em “Israel”, se trancaram dentro da casa.
A polícia israelense informou que tinha conhecimento prévio da manifestação, mas não conseguiu impedir a entrada dos manifestantes no terreno. O episódio foi tratado pelas autoridades como um grave sinal da crise aberta entre setores religiosos e o comando militar da ocupação.
O comissário da polícia israelense afirmou que o caso ultrapassou uma “linha vermelha perigosa”. O chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, também condenou a ação, chamando-a de “incidente sério” e exigindo medidas por parte da polícia. O ministro da Guerra, Israel Katz, classificou o episódio como uma “grande escalada”.
O protesto ocorre em meio ao acirramento da disputa sobre o serviço militar obrigatório. O governo da ocupação avançou com planos para ampliar o serviço obrigatório para 36 meses e, ao mesmo tempo, convocar dezenas de milhares de judeus ultraortodoxos antes dispensados. Medida que expõe a falta de pessoal nas forças armadas israelenses, desgastadas por mais de dois anos de guerra.
Os partidos ultraortodoxos usaram durante anos sua presença em governos de coalizão para preservar isenções ao serviço militar. Com a ampliação das frentes de guerra, a pressão para incorporar esses setores aumentou. A tentativa de impor o alistamento provocou manifestações, bloqueios de vias, confrontos com a polícia e, agora, a ação contra a casa de um comandante militar.
A crise militar aparece também nas pesquisas internas. Um levantamento divulgado pela emissora pública israelense KAN, nesta terça-feira (28), apontou que a maioria dos israelenses considera que o Estado sionista não obteve vitória em nenhuma guerra desde outubro de 2023.
Segundo a pesquisa, 57% dos entrevistados afirmaram que “Israel” não venceu em nenhuma frente. Outros 28% disseram que houve sucesso em ao menos uma frente, enquanto 15% não souberam responder.
Os números foram divulgados após mais de dois anos de genocídio em Gaza e de agressão contra o Líbano, o Irã, o Iêmen, a Síria e a Cisjordânia ocupada. Mesmo com o apoio militar e político dos EUA, a ocupação não conseguiu derrotar o Hamas, o Hesbolá nem impor uma vitória contra o Irã.
A percepção de sucesso aparece baixa em todas as frentes. Apenas 17% dos entrevistados consideraram bem-sucedidas as operações na Síria. Em Gaza e no Irã, o índice foi de 16%. No Líbano, caiu para 14%. No Iêmen, ficou em 12%. Na Cisjordânia ocupada, chegou a apenas 11%.
A mesma pesquisa apontou que 73% dos entrevistados consideram a presença armada do Hamas e do Hesbolá uma ameaça direta de repetição de uma operação semelhante à de 7 de outubro de 2023. Apenas 10% rejeitaram essa possibilidade, enquanto 17% disseram não saber.
No terreno, a imprensa israelense informou que “Israel” começou a retirar tropas do sul do Líbano. O jornal Maariv descreveu a campanha como terminando em “fracasso” e “amargura”, em meio aos ataques contínuos do Hesbolá, incluindo ações com VANTs que expuseram falhas importantes na preparação militar israelense.
A crise também atinge a situação política de Benjamin Netaniahu. A pesquisa da KAN apontou que 56% dos entrevistados apoiam um perdão presidencial para as acusações de corrupção contra o primeiro-ministro. Outros 26% se disseram contrários, e 18% permaneceram indecisos.
Netaniahu pediu perdão presidencial em 30 de novembro, sem admitir culpa e sem deixar o cargo. O primeiro-ministro responde a três processos de corrupção, envolvendo acusações de fraude, suborno e abuso de poder. As acusações foram apresentadas em 2019, e o julgamento começou em 2020.
Seu depoimento foi novamente adiado em 27 de abril, sob a justificativa de um incidente de segurança “sério” no sul do Líbano. A oposição e críticos internos acusam Netaniahu de usar a continuidade da guerra para postergar o avanço do julgamento.
Além dos processos internos, Netaniahu é procurado pelo Tribunal Penal Internacional desde 2024. O tribunal emitiu mandados de prisão contra ele e contra o ex-ministro da Guerra Yoav Galant por envolvimento direto no genocídio em Gaza, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como arma.
Outro dado revelador da desagregação das forças armadas israelenses é o aumento de suicídios entre soldados. O jornal Haaretz publicou, nesta quarta-feira (29), que o número de suicídios no exército israelense segue em alta, enquanto o comando militar não consegue adotar medidas eficazes de atendimento psicológico.
Segundo o jornal sionista, pelo menos 10 soldados da ativa se suicidaram desde o início do ano, seis deles apenas em abril. Outros três soldados que haviam servido na reserva durante a guerra se suicidaram no mesmo mês, já fora do serviço ativo. Dois policiais, incluindo um membro da Polícia de Fronteira convocado, também se suicidaram em abril.
O Haaretz apontou que a tendência começou após 7 de outubro de 2023 e o início do genocídio contra a população palestina da Faixa de Gaza. Fontes militares citadas pelo jornal afirmaram que o exército enfrenta dificuldades para reduzir os casos, sobretudo quando os soldados em sofrimento não buscam atendimento.
Um alto oficial israelense admitiu ao jornal: “no início da guerra, pensávamos que tínhamos a situação sob controle, e ela explodiu na nossa cara”.
A continuidade dos combates em várias frentes agravou a crise psicológica entre os militares. O próprio Haaretz informou que o alcance do apoio psicológico prestado pelo exército diminuiu, apesar das declarações públicas em sentido contrário.
As reuniões de avaliação psicológica para reservistas foram canceladas em fevereiro. Depois da guerra com o Irã e do aumento do orçamento militar, o exército decidiu restabelecer parte dessas avaliações, mas sem abranger todos os militares. O jornal afirmou ter tomado conhecimento de soldados na fronteira norte e na Cisjordânia ocupada liberados nas últimas semanas sem consulta com profissionais.
Um soldado ouvido pelo Haaretz criticou a medida: “é simplesmente irresponsável nos mandar para casa assim. Eles gastam bilhões em munições e interceptadores, e economizam nisso?”.
Outro militar afirmou: “é um pouco como colocar um curativo em uma artéria principal sangrando”.
Em outubro de 2024, um familiar de soldado israelense afirmou à imprensa hebraica: “todos no Exército que não estão mortos ou feridos estão mentalmente danificados. Restam muito poucos que voltaram para lutar. E esses também não estão bem”.
No início deste ano, o Haaretz já havia informado que 22 soldados se suicidaram em 2025, o maior número em 15 anos.
A combinação entre fracasso militar, revolta contra o recrutamento obrigatório, disputa em torno de Netaniahu e aumento dos suicídios nas fileiras militares mostra o grau da crise no Estado sionista. A ação iraniana e a resistência de Hamas e Hesbolá abriram uma situação em que a ocupação não consegue apresentar vitória militar, nem estabilizar sua própria retaguarda.





