Finalizamos aqui o debate com o artigo Pode o transmasculino falar? O feminismo não é (apenas) sobre mulheres, publicado no sítio Esquerda Online neste 20 de março. A primeira e a segunda partes podem ser lidas aqui: parte 1 e parte 2.
No texto anterior, o Esquerda Online tentava jogar o debate sobre dois conceitos: “remédios afirmativos” e “remédios transformativos”; o primeiro, supostamente, “afirma as identidades existentes sem questionar as estruturas os produziram”. O segundo, segundo defendem, “questionam as estruturas de fundo e possibilitam novos reagrupamentos políticos mais amplos”.
Um “reagrupamento” não é necessariamente mais amplo. No caso das mulheres, por exemplo, suas demandas estão eclipsadas, ou diminuídas, com a inclusão de novos “gêneros” em seu movimento, em vez de se criarem lutas específicas para trans.
Segundo o texto “esse par conceitual ilumina diretamente a tensão em debate”, sendo que, na verdade, sequer são válidos. Eles servem apenas para pressionar as mulheres, o que está implícito na seguinte pergunta: “a auto-organização do feminismo serve para afirmar uma identidade particular, consolidando um nicho com fronteiras próprias, ou para unir os afligidos por uma opressão comum e combatê-la coletivamente?”.
É o movimento da classe trabalhadora que deve ser o polo que atrai as diversas lutas dos setores oprimidos da sociedade, não se deve cobrar isso das mulheres. Qual é a dificuldade de se abrir novas frentes de luta e qual é a necessidade de invadir um movimento que já existe há tanto tempo e que tem suas próprias especificidades?
Os setores podem eventualmente fazer trabalhos conjuntos e se fortalecerem mutuamente, como a negritude e o feminismo, pois as mulheres negras são especialmente oprimidas na sociedade. Podemos dizer o mesmo das trabalhadoras sem-terra. Não há necessidade de se infiltrar “gêneros” no movimento feminista.
O Esquerda Online diz que “a resposta marxista aponta para o segundo caminho, o transformativo. Uma política de afirmação identitária que não se articule às condições materiais de existência dos sujeitos (suas condições de classe, sua inserção na divisão do trabalho, sua vulnerabilidade concreta) perde sua potência emancipatória e corre o risco de ser absorvida pela lógica do capital, que é, muitas vezes, capaz de reconhecer identidades sem alterar as estruturas que as oprimem.”.
Essa afirmação não faz o menor sentido. As condições materiais das mulheres, sua condição de classe e inserção no trabalho têm fundamento na sua condição biológica. Isso está historicamente inscrito no ser das mulheres. Homem nenhum, ou mulher trans nenhuma, estará sujeito(a) às mesmas pressões sociais às quais as mulheres estão submetidas desde que se estabeleceu a divisão social do trabalho e a família patriarcal há milênios.
A família
O texto afirma que “a família nuclear, unidade fundamental de reprodução do capital, se sustenta sobre a norma hetero-cisnormativa e oprime mulheres cisgêneras, pessoas trans, crianças e toda forma de expressão que se desvie do padrão estabelecido”. Antes de mais nada, estão felizmente proibidos os bloqueadores hormonais para antes dos 18 anos, bem como as terapias hormonais.
Qualquer norma só é efetiva se tiver suporte na realidade. Não foi uma norma que oprimiu as mulheres, mas a opressão das mulheres que suscitou uma norma. Portanto, é preciso lutar contra as condições que mantêm a vigência dessas normas. Ficar atacando, ou “questionando”, as normas sem o devido embate político é inútil e contraproducente, ou meramente moral. Por exemplo, a luta pelos direitos das mulheres passa necessariamente pelo direito ao aborto; à equiparação salarial com os homens para as mesmas funções; sistema de saúde específico, visto que adoecem mais devido às duplas e triplas jornadas de trabalho. É preciso pleitear lavanderias públicas e restaurantes para que as mulheres não fiquem presas aos trabalhos domésticos. Da mesma maneira é necessário que se tenha creches para que as trabalhadoras possam deixar seus filhos.
Sem mudanças concretas, as mulheres ficarão eternamente subordinadas. E é preciso ter claro que o Estado burguês não vai cumprir essas exigências. Por isso se faz necessária a luta e o enfrentamento.
A culpa é das mulheres
Existe um trecho absurdo no artigo do Esquerda Online que diz que “a dificuldade de parte do feminismo em reconhecer as transmasculinidades se revela como um problema político e não apenas teórico. Ao tratar o sujeito feminista como uma categoria natural e fechada, definida biologicamente ou por uma experiência de gênero considerada “original”, esse feminismo reproduz, no plano do próprio movimento, o mesmo mecanismo fetichista que sustenta a opressão: a naturalização de uma norma historicamente produzida. O resultado prático é a fragmentação do campo das lutas de gênero precisamente onde ele precisaria ser mais amplo e mais radical”.
O que está dito aí, é que se as mulheres tratarem suas demandas com base em sua existência concreta, de mulheres, estarão fazendo parte da opressão.
As mulheres serão culpadas pela “fragmentação do campo das lutas de gênero”, uma coisa que nem mesmo existe.
É preciso dizer com todas as letras que o identitarismo é mais fator de opressão contra as mulheres.
Ao dizerem que mulher é uma “categoria”, uma “identidade”, apagam o sentido concreto da palavra mulher e de seu ser.
O termo mulher pode significar qualquer coisa, ou até mesmo coisas opostas. Deixa de representar a fêmea adulta humana, e pode servir para designar um macho humano adulto que se “identifica” como mulher, ou que “transicionou”.
A confusão com o termo é uma estratégia que visa apagar a luta de metade da população da Terra. Se mulheres perder o significado, ou virar algo confuso, se apagam também os direitos e as reivindicações das mulheres.
Quando uma “mulher trans” recebe o título de “mulher do ano”, tira de uma mulher o título, não adianta querer esconder isso. Por que não criam um prêmio “mulher trans do ano”? Não, o identitarismo é mais um fator de negação, de opressão, e como tal deve ser combatido.





