As mulheres estão perdendo totalmente seu protagonismo nas lutas sociais. Se, antes, sofreram assédio identitário das “mulheres trans”, precisam agora abarcar também os “transmasculinos”. É isso que propõe o artigo Pode o transmasculino falar? O feminismo não é (apenas) sobre mulheres, assinado por Lucas Marques e publicado nesta segunda-feira (20) no sítio Esquerda Online.
No início, temos que “a relação entre identidades transmasculinas e o movimento feminista é um debate que emerge na esquerda contemporânea, revelando contradições que precisam ser enfrentadas com seriedade teórica e política. O feminismo, em muitos de seus setores, ainda se depara com alguma surpresa (ou mesmo desconforto!) ao se ver confrontado com a questão da participação transmasculina em seus espaços.”
É natural que o feminismo se sinta surpreso ou desconfortável, pois estão inserindo elementos estranhos no movimento e o descaracterizando, apagando, demandas que cabem apenas às mulheres. E, por mais estranho que possa soar, as tais “transmasculinas”, que nasceram com o sexo feminino, têm muito mais a ver com o movimento feminista que as “mulheres trans”.
Segundo o artigo, “essa surpresa não é coincidência: ela expressa um fetichismo no sentido marxista do termo, isto é, uma naturalização de relações sociais historicamente produzidas. A categoria “mulher” como sujeito político do feminismo tende a ser tratada como dado imediato da realidade, ocultando o caráter histórico e socialmente construído tanto do gênero quanto das identidades que dele derivam”, o que é um erro grosseiro, pois a questão do fetichismo da mercadoria não se aplica a esse caso.
Mulher não é uma “categoria” no sentido de conceito filosófico, é a fêmea adulta humana. É natural que seja um dado imediato, é assim que funciona na natureza, e não apenas com os seres humanos. Os animais se reconhecem como machos e fêmeas e sabem de seus papéis na reprodução da espécie.
O “sentido histórico”, ou o papel que a mulher representa na sociedade, é erguido sobre sua condição biológica. Como já dissemos, conforme a humanidade foi desenvolvendo a economia e a divisão social do trabalho foi se tornando presente, as mulheres, por engravidarem, ficaram sujeitas à criação dos filhos e a serviços domésticos. Ocupando essas posições subalternas, a mulher acabou sendo subjugada.
Pessoas do sexo masculino, os homens, não estão sujeitos às mesmas demandas e pressões sociais que as mulheres; por isso, é necessário que o movimento feminino se dirija especificamente às mulheres.
Quanto ao gênero, não passa de uma invenção. A prova disso é que há pessoas que fazem a “transição” para um determinado “gênero” e que voltam atrás, “destransicionam”. O que coloca abaixo o mito de que cada pessoa reconhece a própria identidade de gênero.
É um completo descalabro dizer que “o fetiche consiste precisamente em des-historicizar aquilo que é produto da história, e é esse mecanismo que está na base da dificuldade de parte do feminismo em reconhecer a luta das transmasculinidades como reflexo da mesma opressão de gênero que o próprio movimento combate”, pois a mulher não é “produto da história”, o que mudou foi sua condição social, a essência do sexo feminino continuou como sempre foi.
Avançando no texto, encontramos outro absurdo, o que afirma que “o ponto de partida do marxismo revolucionário é que nem o gênero nem o sexo são dados da natureza: ambos são produções históricas e sociais”. Bem, marxismo tem que ser revolucionário; se fosse reacionário, nem seria marxismo. No mais, nunca o marxismo duvidaria que o sexo fosse um dado da natureza, seria negar a biologia e um fato autoevidente.
Conforme acredita o Esquerda Online, “isso contraria uma confusão frequente, inclusive em setores progressistas, que aceitam o sexo como base biológica fixa e trata o gênero como a camada cultural que a sociedade deposita sobre ela. O marxismo recusa essa divisão”. Errado, o marxismo não defende a existência de “gêneros”.
A base biológica é fixa, pelo menos entre aves e mamíferos os indivíduos adultos procuram parceiros de outro sexo para a reprodução.
Há uma distorção na frase que diz que “não existe uma biologia neutra sobre a qual a cultura se inscreve: o próprio modo como organizamos, nomeamos e hierarquizamos os corpos sexuados é histórico”. Não existe ciência neutra, isso que diz o materialismo dialético. Ao nomearmos “macho” e “fêmea”, estamos fazendo uma classificação que determina uma função. O macho é o que na reprodução contribui com o gameta masculino (espermatozoide), e a fêmea com o óvulo, o gameta feminino. Se amanhã, por algum motivo, inverterem os nomes, nem por isso a realidade biológica será alterada.
É um completo devaneio afirmar que “a noção de que existem dois sexos naturais, fixos e complementares não é uma descoberta da ciência: é uma construção que se consolida com a revolução industrial e a reorganização da família em torno da reprodução do capital”. Então, é preciso perguntar: como era antes da “revolução industrial”, dois machos, ou duas fêmeas, conseguiam por acaso reproduzir?
“O horizonte que organiza toda essa construção é reprodutivo”, exatamente, e qual seria o problema?
“A família nuclear, o binarismo sexo-gênero e a heterossexualidade compulsória servem ao mesmo fim: garantir que a reprodução da vida humana ocorra de forma privada, invisível e não remunerada, subsidiando o capital”. A heterossexualidade não é compulsória, e a reprodução da vida é anterior ao capital.
Está errado dizer que “o sexo não é o fundamento natural sobre o qual o gênero se apoia: é ele mesmo parte do edifício ideológico e material que o capitalismo ergueu para organizar a reprodução social”, primeiro porque não existe gênero. Segundo, o papel social, a submissão da mulher, é anterior ao capitalismo, apenas que ganhou uma nova dimensão. Inúmeras civilizações, e sob outros modos de produção, já subjugavam as mulheres, e isso tem a ver, como foi dito, com o desenvolvimento econômico e da divisão social do trabalho.
Continua…





