Polêmica

Não existe ‘gênero’, o que existe é o sexo – parte 1

O movimento feminino está sendo assediado por todos os lados, principalmente pelo identitarismo, que, em nome da inclusão, se transformo em um fator de opressão contra as mulheres

Francis Picabia

As mulheres estão perdendo totalmente seu protagonismo nas lutas sociais. Se, antes, sofreram assédio identitário das “mulheres trans”, precisam agora abarcar também os “transmasculinos”. É isso que propõe o artigo Pode o transmasculino falar? O feminismo não é (apenas) sobre mulheres, assinado por Lucas Marques e publicado nesta segunda-feira (20) no sítio Esquerda Online.

No início, temos que “a relação entre identidades transmasculinas e o movimento feminista é um debate que emerge na esquerda contemporânea, revelando contradições que precisam ser enfrentadas com seriedade teórica e política. O feminismo, em muitos de seus setores, ainda se depara com alguma surpresa (ou mesmo desconforto!) ao se ver confrontado com a questão da participação transmasculina em seus espaços.”

É natural que o feminismo se sinta surpreso ou desconfortável, pois estão inserindo elementos estranhos no movimento e o descaracterizando, apagando, demandas que cabem apenas às mulheres. E, por mais estranho que possa soar, as tais “transmasculinas”, que nasceram com o sexo feminino, têm muito mais a ver com o movimento feminista que as “mulheres trans”.

Segundo o artigo, “essa surpresa não é coincidência: ela expressa um fetichismo no sentido marxista do termo, isto é, uma naturalização de relações sociais historicamente produzidas. A categoria “mulher” como sujeito político do feminismo tende a ser tratada como dado imediato da realidade, ocultando o caráter histórico e socialmente construído tanto do gênero quanto das identidades que dele derivam”, o que é um erro grosseiro, pois a questão do fetichismo da mercadoria não se aplica a esse caso.

Mulher não é uma “categoria” no sentido de conceito filosófico, é a fêmea adulta humana. É natural que seja um dado imediato, é assim que funciona na natureza, e não apenas com os seres humanos. Os animais se reconhecem como machos e fêmeas e sabem de seus papéis na reprodução da espécie.

O “sentido histórico”, ou o papel que a mulher representa na sociedade, é erguido sobre sua condição biológica. Como já dissemos, conforme a humanidade foi desenvolvendo a economia e a divisão social do trabalho foi se tornando presente, as mulheres, por engravidarem, ficaram sujeitas à criação dos filhos e a serviços domésticos. Ocupando essas posições subalternas, a mulher acabou sendo subjugada.

Pessoas do sexo masculino, os homens, não estão sujeitos às mesmas demandas e pressões sociais que as mulheres; por isso, é necessário que o movimento feminino  se dirija especificamente às mulheres.

Quanto ao gênero, não passa de uma invenção. A prova disso é que há pessoas que fazem a “transição” para um determinado “gênero” e que voltam atrás, “destransicionam”. O que coloca abaixo o mito de que cada pessoa reconhece a própria identidade de gênero.

É um completo descalabro dizer que “o fetiche consiste precisamente em des-historicizar aquilo que é produto da história, e é esse mecanismo que está na base da dificuldade de parte do feminismo em reconhecer a luta das transmasculinidades como reflexo da mesma opressão de gênero que o próprio movimento combate”, pois a mulher não é “produto da história”, o que mudou foi sua condição social, a essência do sexo feminino continuou como sempre foi.

Avançando no texto, encontramos outro absurdo, o que afirma que “o ponto de partida do marxismo revolucionário é que nem o gênero nem o sexo são dados da natureza: ambos são produções históricas e sociais”. Bem, marxismo tem que ser revolucionário; se fosse reacionário, nem seria marxismo. No mais, nunca o marxismo duvidaria que o sexo fosse um dado da natureza, seria negar a biologia e um fato autoevidente.

Conforme acredita o Esquerda Online, “isso contraria uma confusão frequente, inclusive em setores progressistas, que aceitam o sexo como base biológica fixa e trata o gênero como a camada cultural que a sociedade deposita sobre ela. O marxismo recusa essa divisão”. Errado, o marxismo não defende a existência de “gêneros”.

A base biológica é fixa, pelo menos entre aves e mamíferos os indivíduos adultos procuram parceiros de outro sexo para a reprodução.

Há uma distorção na frase que diz que “não existe uma biologia neutra sobre a qual a cultura se inscreve: o próprio modo como organizamos, nomeamos e hierarquizamos os corpos sexuados é histórico”. Não existe ciência neutra, isso que diz o materialismo dialético. Ao nomearmos “macho” e “fêmea”, estamos fazendo uma classificação que determina uma função. O macho é o que na reprodução contribui com o gameta masculino (espermatozoide), e a fêmea com o óvulo, o gameta feminino. Se amanhã, por algum motivo, inverterem os nomes, nem por isso a realidade biológica será alterada.

É um completo devaneio afirmar que “a noção de que existem dois sexos naturais, fixos e complementares não é uma descoberta da ciência: é uma construção que se consolida com a revolução industrial e a reorganização da família em torno da reprodução do capital”. Então, é preciso perguntar: como era antes da “revolução industrial”, dois machos, ou duas fêmeas, conseguiam por acaso reproduzir?

“O horizonte que organiza toda essa construção é reprodutivo”, exatamente, e qual seria o problema?

“A família nuclear, o binarismo sexo-gênero e a heterossexualidade compulsória servem ao mesmo fim: garantir que a reprodução da vida humana ocorra de forma privada, invisível e não remunerada, subsidiando o capital”. A heterossexualidade não é compulsória, e a reprodução da vida é anterior ao capital.

Está errado dizer que “o sexo não é o fundamento natural sobre o qual o gênero se apoia: é ele mesmo parte do edifício ideológico e material que o capitalismo ergueu para organizar a reprodução social”, primeiro porque não existe gênero. Segundo, o papel social, a submissão da mulher, é anterior ao capitalismo, apenas que ganhou uma nova dimensão. Inúmeras civilizações, e sob outros modos de produção, já subjugavam as mulheres, e isso tem a ver, como foi dito, com o desenvolvimento econômico e da divisão social do trabalho.

Continua…

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