Editorial

Quem tem medo da Inteligência Artificial?

Historicamente, o desenvolvimento técnico e científico sempre foi um dos principais motores das transformações sociais

O alarde recente em torno da Inteligência Artificial (IA), impulsionado por relatórios da imprensa imperialista, como a revista britânica The Economist, e por manifestações “éticas” de empresas do setor, como a Anthropic, revela o temor crescente das grandes potências imperialistas diante da perda de controle sobre um instrumento decisivo para a indústria.

A propaganda apresenta a IA como ameaça à “cibersegurança”, à “democracia” e até à estabilidade mundial. No entanto, por trás desse discurso está uma operação política bem conhecida: justificar mecanismos de controle sobre uma tecnologia que tende a escapar do monopólio das potências imperialistas e de suas grandes corporações.

Historicamente, o desenvolvimento técnico e científico sempre foi um dos principais motores das transformações sociais. Agora, porém, justamente os países que concentram riqueza, centros de pesquisa e investimentos bilionários passam a defender cautela, regulação e limites ao avanço da IA. A mudança de postura não ocorre por acaso.

O centro do problema é o medo de perder a dianteira tecnológica. A Inteligência Artificial tem potencial para reduzir a distância entre os países imperialistas e nações que hoje enfrentam bloqueios, sanções e todo tipo de pressão econômica e militar, como China, Rússia, Irã. Uma vez difundida, a tecnologia deixa de ser privilégio de um punhado de monopólios e passa a poder ser apropriada de forma mais ampla.

É nesse sentido que o discurso sobre os “riscos globais” da IA aparece como cobertura ideológica para uma política de contenção. O que se procura impedir não é o uso da tecnologia em si, já largamente empregado pelos próprios imperialistas em espionagem, vigilância, guerra e manipulação de dados, mas a possibilidade de que outros países e até a população tenham acesso a instrumentos semelhantes.

O mesmo processo já pôde ser visto com a Internet. Durante anos, os grandes meios de comunicação e setores do aparato estatal tentaram apresentar a rede como origem das “fake news” e como uma ameaça ao chamado “Estado democrático de direito”. Ao mesmo tempo, foi justamente a Internet que rompeu o bloqueio da propaganda oficial em episódios decisivos da política internacional, como no caso do massacre do povo palestino em Gaza, permitindo que circulassem imagens, denúncias e informações que a imprensa tradicional procurava filtrar ou esconder.

Com a IA, a tendência é semelhante. A tecnologia pode ser utilizada para automatizar processos, ampliar a capacidade técnica de setores antes marginalizados e democratizar o acesso a conhecimentos especializados.

Outro aspecto que chama atenção é a adaptação de setores da esquerda a esse discurso. Em vez de denunciar a tentativa de monopolizar o desenvolvimento tecnológico, parte da esquerda passou a repetir a linguagem da burguesia, pedindo censura, regulamentação e controle estatal sobre a IA e a própria Internet, sempre em nome da proteção da “democracia”.

A principal ameaça não é a existência da tecnologia, mas a tentativa de cercá-la com barreiras jurídicas, econômicas e ideológicas para mantê-la sob o controle de uma minoria. Para os povos oprimidos e para os países submetidos ao imperialismo, o avanço técnico pode representar uma brecha importante na luta contra a dominação.

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