Durante a edição desta terça-feira (31), do programa Análise Política da 3ª, da Rádio Causa Operária, Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO), comentou a reorganização ministerial do governo Lula para as eleições, o escândalo do Banco Master, a situação de Jair Bolsonaro sob prisão domiciliar, os projetos repressivos em tramitação no Congresso, a guerra contra o Irã, a situação política internacional e os 61 anos do golpe militar de 1964.
Ao tratar do anúncio de mudanças no ministério para adequação ao calendário eleitoral, Pimenta afirmou que a movimentação do PT era esperada e indicava preocupação com a disputa de 2026. Segundo ele, a troca generalizada de ministros e o lançamento de nomes fortes mostram que a situação eleitoral está longe de ser tranquila para o governo.
“Bom, esse movimento aí era previsível. O PT está se preparando para as eleições, decidiu lançar vários ministros aí como candidatos. O destaque aí é para o Fernando Haddad ser candidato a governador no estado de São Paulo. Não vejo nenhuma grande novidade nisso. A única coisa que chama atenção nessa troca generalizada de ministros é que o empenho de lançar candidatos fortes é muito grande da parte do PT, o que denota a preocupação com a situação eleitoral.”
Sobre o caso Banco Master, Pimenta disse que o escândalo envolve um grande número de figuras políticas, sobretudo do chamado Centrão, e avaliou que as apurações tendem a ser conduzidas de maneira seletiva. Segundo ele, as investigações desse tipo não são neutras e obedecem a objetivos políticos determinados.
“O problema é o seguinte: o escândalo do Banco Master envolve um número muito grande de personalidades políticas importantes, principalmente do chamado Centrão, ou seja, da direita não bolsonarista. Então, estamos em época eleitoral, isso aí evidentemente acende uma luz vermelha para o pessoal. Eu acho que a investigação do Banco Master vai se dar como acontece com a maioria das investigações parecidas com essa, de maneira seletiva. Nós temos sistematicamente assinalado que não existe investigação inocente, investigação isenta. Toda investigação tem uma motivação política.”
Ainda sobre o banco, ele afirmou que o problema é mais profundo do que já apareceu publicamente e relacionou a situação do BRB ao tamanho do rombo deixado pelo Master. Para Pimenta, o que já veio a público não corresponde ao conjunto do escândalo.
“É difícil saber quantos bancos e instituições financeiras estão envolvidas nisso e estão perdendo dinheiro. Nós já tivemos aí dois, três bancos que capotaram por causa do Banco Master. O rombo é enorme, de R$50 bilhões. Então, parece normal que o BRB, que era o banco mais envolvido com a questão do Banco Master, estivesse até para incorporar o Banco Master. Agora, isso aí mostra também a profundidade do problema. É muita coisa que tem nesse escândalo. O que foi apresentado até agora, apesar de ser muita coisa, é só a ponta do iceberg.”
Ao comentar a possibilidade de revogação da prisão domiciliar de Bolsonaro por ele ter assistido a um vídeo, Pimenta classificou a situação como arbitrária e afirmou que se trata de um endurecimento que poderá ser usado mais adiante contra toda a população, inclusive a esquerda. Para ele, a esquerda tem agido com puro partidarismo ao não defender direitos elementares quando o atingido é um adversário político.
“O caso aqui eu acho muito surpreendente, porque condenar o cara a assistir à Rede Globo é surreal. O problema disso, que a esquerda não percebe, é que isso é um endurecimento da legislação bastante grande. Imagina esse tipo de critério que vai ser usado contra a esquerda na hora que chegar o momento. Você vai viver aí num sistema de tortura. Até na prisão a pessoa pode usar o telefone. E por que a esquerda, que sempre foi uma defensora dos chamados direitos humanos, não defende o homem nessas condições aqui?”
Mais adiante, ele voltou ao tema e disse que a defesa dos direitos democráticos fica comprometida quando é feita apenas de forma partidária.
“Tem que ficar absolutamente claro que é um partidarismo, é uma questão de princípios, não é uma posição de como se deveria se posicionar diante do sistema legal, que direitos devem ser preservados e que direitos não devem ser preservados. É puro partidarismo. Se é meu inimigo, vale tudo. Se é meu amigo, aí eu defendo direitos. O que coloca, obviamente, a defesa dos direitos numa situação extremamente periclitante.”
No bloco sobre o Congresso, Pimenta comentou a nova lei aprovada pela Knesset, que amplia a possibilidade de aplicação da pena de morte contra palestinos, e afirmou que se trata de mais um ato de terrorismo do sionismo. Segundo ele, a medida tem caráter sumário e fascista.
“Aparentemente é mais um ato de terrorismo do sionismo contra os palestinos, colocando que o cidadão, uma vez apreendido, está sujeito à pena de morte, de maneira muito sumária, sem formalidade, sem garantir os direitos dos palestinos e tudo mais. É, na minha opinião, mais um ato de terrorismo. E é impressionante que tem gente que defende esse pessoal como sendo uma democracia. É uma coisa bem caracteristicamente fascista.”
Pimenta também tratou do projeto apresentado por Tabata Amaral para ampliar a tipificação de antisemitismo. Ele afirmou que a proposta busca restringir a crítica ao sionismo por meio de formulações vagas e disse que ela abriria espaço para punir manifestações políticas amplas em defesa da Palestina.
“Essa lei da Tabata Amaral é baseada numa instituição sionista internacional que quer restringir a crítica ao sionismo. É uma lei de defesa do sionismo, na realidade. Então ela quer que haja restrições cada vez maiores. E como a lei é propositalmente ambígua e vaga, isso aí abre caminho para você punir qualquer tipo de coisa. Nós já estamos sofrendo processo de racismo por falar que o Estado de ‘Israel’ não deveria existir. Imagino com essa lei agora. É mais uma lei de censura e muito dura.”
Ao ser informado de que deputados do PT haviam assinado o projeto antes de retirar seus nomes, ele afirmou que o episódio servia para expor a ala direita do partido.
“Uma das coisas boas da situação política internacional é que ela coloca às claras quem é quem. Esses deputados do PT não assinaram por engano. Isso aí é a direita do PT.”
No tema da chamada lei da misoginia, Pimenta afirmou que leis penais vagas, baseadas em interpretação subjetiva, são o pior tipo possível de legislação, pois permitem todo tipo de arbitrariedade. Segundo ele, a direita tem se aproveitado da onda identitária para aprovar medidas repressivas.
“Tudo isso, na verdade, é um grande ponto de interrogação, porque a lei vai depender da interpretação do juiz. É o pior tipo de lei possível ou imaginável, porque a pessoa não sabe o que ela pode fazer ou deixar de fazer. Em geral, as leis que penalizam o que as pessoas falam, o que as pessoas sentem, que penalizam o ódio, são leis absurdas e até grotescas. Elas abrem caminho para todo tipo de arbitrariedade.”
No campo agrário, ao comentar a nota do MST criticando o volume de desapropriações no governo Lula, Pimenta disse não entender por que o governo deixa de realizar mesmo a reforma agrária mais limitada prevista na legislação. Para ele, trata-se de mais um fracasso decorrente da pressão dos latifundiários.
“Sinceramente, não entendo. Porque a expropriação para a reforma agrária é uma expropriação bastante circunscrita e limitada. São terras improdutivas, são terras do próprio Estado. Não se trata de sair por aí expropriando o latifundiário. Eu sinceramente não entendo por que o governo Lula faz essas coisas.”
Em seguida, resumiu: “é um fracasso do governo Lula, mais um fracasso. Só podemos atribuir isso ao fato de que o governo cede à pressão de todos os lados”.
Na parte internacional, Pimenta comentou a situação da Hungria e afirmou que a crise em torno de Viktor Orbán expressa o choque entre o governo húngaro e setores centrais do imperialismo europeu, em meio ao agravamento da guerra na Ucrânia. Segundo ele, a pressão sobre Budapeste mostra que a aliança com o imperialismo não garante estabilidade.
“A crise com os russos, que está cada vez mais intensa, na medida em que o imperialismo se vê meio que com muita dificuldade de manter a situação na Ucrânia, está levando a um enfrentamento entre o Orbán e o setor fundamental do imperialismo europeu. Quer dizer, uma política de golpe de Estado que está acontecendo aí. Isso aí mostra que ser aliado do imperialismo não garante nada para ninguém nunca.”
Sobre a guerra contra o Irã, Pimenta avaliou que Donald Trump calculou mal a ofensiva e entrou num impasse, o que teria aberto uma crise internacional e enfraquecido seu governo. Segundo ele, o imperialismo apoiou a iniciativa no começo, mas passou a atacar Trump quando a operação não produziu o resultado esperado.
“O imperialismo apoiou a iniciativa do Trump de atacar o Irã. Todo mundo viu isso aí no começo. Só que, à medida em que ele chegou numa situação de total impasse com o Irã, ele demonstrou fraqueza, mostrou que tinha calculado mal as possibilidades. A situação escalou, se transformou numa crise mundial, uma crise que ameaça inclusive derrubar a economia capitalista de maneira internacional, então eles passaram a atacar o Trump. Como ele fracassou, o cálculo do imperialismo parece ser que é uma entalada que não tem saída boa. Vai terminar no enfraquecimento do governo Trump tanto internacionalmente como dentro de casa.”
Na mesma parte do programa, ele também afirmou que a lei israelense de pena de morte para palestinos é um sinal de desespero diante do fato de que o Eixo da Resistência não foi derrotado.
“Essa lei é um sinal de desespero, não há dúvida nenhuma, porque acirra ainda mais as contradições, dificulta qualquer tipo de entendimento, de saída diplomática, de saída negociada. É uma medida desesperada de terrorismo contra os palestinos. Agora, a situação de ‘Israel’ fica muito mais comprometida. Eles precisariam neutralizar o Irã e o Eixo da Resistência. Agora, o Eixo da Resistência está intacto. O Hesbolá enfrentou de maneira bem-sucedida as tropas israelenses no sul do Líbano. E o Ansar Alá mal entrou no conflito até agora.”
O presidente do PCO comentou ainda a possível candidatura de Jones Manoel pelo PSOL e afirmou que a mudança expressa puro oportunismo eleitoral. Segundo ele, o dirigente ensaiou uma campanha antipetista e, ao obter espaço partidário, passou a apoiar Lula.
“O deputado é totalmente antipetista. Agora ele vai apoiar o Lula no primeiro turno. Ele estava ensaiando uma campanha anti-Lula. Aí conseguiu o cargo no PSOL. Agora a campanha dele vai ser pró-Lula. É impressionante como o pessoal aceita essas coisas.”
Na reta final do programa, Pimenta falou sobre os 61 anos do golpe militar de 1964 e defendeu a necessidade de recordar os responsáveis e beneficiários do regime. Segundo ele, muitos dos grupos que sustentaram a ditadura permanecem ativos e foram reabilitados politicamente.
“Eu acho importante lembrar o golpe porque os autores do golpe estão todos aí. A Rede Globo continua sendo o grande monopólio da televisão. E não só eles continuam aí, como estão encobertos. Tentaram recentemente um golpe de Estado derrubando o governo da Dilma Rousseff. O PT, infelizmente, meio que lavou o currículo dessa gente aí com o negócio do bolsonarismo. Por isso eu acho importante lembrar o golpe de 1964. A gente não deve deixar o pessoal esquecer, a gente deve dizer quem é que deu o golpe, quem foram os autores, quem foram os beneficiários.”
Ao falar sobre os militantes da luta armada assassinados pela ditadura, Pimenta disse que, apesar dos erros estratégicos, eles devem ser defendidos e resgatados como heróis do povo brasileiro.
“O pessoal finalmente lutou, sacrificou a própria vida. Tem que ser defendido, tem que ser resgatado. São heróis, não há dúvida nenhuma. É assim que a gente deve ver a coisa. No momento em que estava todo mundo abaixando a cabeça para a ditadura, eles, ainda que sem muita perspectiva de êxito, pegaram em armas para lutar contra a ditadura. São heróis do povo, sem dúvida nenhuma.”





