O jornalista Hüseyin Dogru, cidadão alemão residente em Berlim, denunciou no sábado (28), em sua conta oficial no X, que as autoridades alemãs apreenderam a conta bancária de sua esposa, embora ela não esteja sancionada e não tenha sido acusada de qualquer crime. Segundo ele, a medida deixou a família com cerca de 104 euros, apesar de haver na casa dois recém-nascidos e uma criança de sete anos, e tornou ainda mais grave a situação criada pelas sanções impostas pela União Europeia por sua atividade jornalística em defesa da Palestina e por suas reportagens sobre o genocídio em Gaza.
Na publicação, Dogru afirmou que a justificativa apresentada pelas autoridades foi o fato de o casal ser casado, ter três filhos em comum e de sua esposa ter contratado o seguro do carro da família depois que o seguro em seu nome foi cancelado. Segundo ele, as autoridades alegam que, por isso, ele poderia controlar a conta da esposa, o que levou ao bloqueio dos fundos dela também.
O jornalista afirmou que a decisão colocou seus filhos em uma situação de emergência humanitária. As sanções ainda determinam que a família não pode receber dinheiro, não pode pagar o aluguel e não pode comprar alimentos. Ele acrescentou que agora enfrenta também o risco de ficar sem moradia, já que, nas condições impostas, não consegue sequer pagar a renda da casa.
“Até agora, temos apenas cerca de 104 euros — com dois bebês recém-nascidos e uma criança de sete anos”, escreveu. Em seguida, resumiu as consequências da medida: “meus filhos agora estão em uma situação de emergência humanitária. Minha esposa foi colocada numa posição de fato equivalente à de uma pessoa sancionada, apesar de não ter sido sancionada”.
Dogru também declarou que, toda vez que seu caso ganha repercussão pública, as autoridades alemãs impõem medidas ainda mais repressivas, não apenas contra ele, mas contra toda a sua família. Na mesma publicação, ele fez um apelo à comunidade internacional para que pressione políticos, sindicatos, organizações humanitárias e entidades que se apresentam como defensoras da liberdade de imprensa.
“Eles colocaram conscientemente a vida dos meus filhos em perigo. Estou fazendo um apelo à comunidade internacional por apoio — não por mim, mas pelos meus filhos. Agora se trata da vida deles.”
A nova proibição piora uma situação que já havia sido denunciada em reportagem de Ali Abunimah, publicada no The Electronic Intifada. Em janeiro, a União Europeia impôs sanções contra Dogru, congelando seus bens, proibindo-o de viajar e, na prática, retirando-lhe qualquer acesso normal ao próprio dinheiro. Na ocasião, o jornalista informou que não conseguia fornecer à família nem mesmo as necessidades mais elementares, incluindo alimentação para seus filhos recém-nascidos.
Dogru foi impedido até mesmo de aceitar ajuda financeira ou material de terceiros. Em mensagem reproduzida por Abunimah, o jornalista afirmou que não tinha autorização para receber qualquer apoio, o que, na prática, impunha à família uma situação de asfixia completa.
“Não estou autorizado a existir mais, não estou autorizado a fornecer aos meus filhos as necessidades básicas”, afirmou Dogru ao The Electronic Intifada Podcast. Em outro trecho, resumiu o alcance da medida: “não posso pagar meu aluguel, não posso pagar meus advogados e sim — não estou autorizado nem mesmo a aceitar qualquer tipo de comida, água ou remédio de terceiros”.
Dogru é o primeiro cidadão da própria União Europeia, vivendo em território da UE, a sofrer esse tipo de sanção extrajudicial com tal alcance. Também é o primeiro alvo desse mecanismo especificamente por trabalho jornalístico ligado à Palestina, em particular por sua cobertura dos crimes de “Israel” em Gaza.
As medidas contra ele foram formalmente incluídas num regime de sanções que a União Europeia diz dirigir à Rússia, mas que passou a atingir jornalistas, analistas e comunicadores europeus por suas publicações e opiniões. Outros nomes afetados por esse tipo de medida são Xavier Moreau, Alina Lipp, Thomas Röper, Jacques Baud e Nathalie Yamb. No caso de Dogru, porém, a diferença é que a punição esteve ligada diretamente às reportagens sobre a Palestina e ao trabalho de denúncia da cumplicidade europeia com o genocídio.
A própria publicação Red, fundada por Dogru, também foi sancionada. O veículo acompanhava amplamente os protestos realizados na Alemanha contra o genocídio em Gaza. Para justificar a medida, a UE recorreu a acusações vagas, afirmando que o jornal teria difundido informações falsas em temas politicamente controversos e disseminado versões atribuídas ao Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas. Antes mesmo da entrada em vigor das sanções, o Red já havia sido fechado, algo que o veículo denunciou como sendo resultado de uma campanha coordenada de acusações falsas promovida por órgãos de imprensa, jornalistas, representantes sindicais e ONGs alemãs.
Outro aspecto ressaltado por Abunimah é que as sanções pessoais da União Europeia são adotadas sem processo judicial e sem direito prévio de defesa. No caso de Dogru, a situação foi agravada por um ponto particularmente grave: embora ele seja cidadão alemão e não tenha cidadania turca, a decisão europeia o identifica apenas como cidadão turco. Segundo a reportagem, Alemanha e União Europeia estão, na prática, negando sua cidadania alemã com base em sua origem étnica.
Dogru já entrou com ação na Justiça da União Europeia para contestar as sanções, mas o processo pode levar anos e não oferece qualquer alívio imediato à família. Ao mesmo tempo, a nova apreensão da conta da esposa mostra que o bloqueio, que já havia isolado o jornalista, agora se voltou abertamente contra toda a casa.
Na publicação de 28 de março, Dogru afirmou que não pode comentar detalhes sobre possíveis formas de resistência por razões legais, mas declarou que resistir à injustiça por meio da desobediência civil é legítimo e moralmente justificado. Também responsabilizou o silêncio das entidades às quais recorreu.
“Também faço um apelo aos jornalistas que conhecem meu caso e tiveram acesso aos autos — vocês escolheram ficar em silêncio. Vocês também são responsáveis pela situação dos meus filhos.”
Mesmo com o fechamento do Red, Dogru continua se manifestando em suas redes sociais e mantém em atividade a conta redstreamnet, no X. Segundo ele, o que está sendo testado em seu caso é um mecanismo que busca primeiro silenciar vozes palestinas e pró-Palestina para, depois, ampliar o precedente contra qualquer voz dissidente.
“Eles estão me usando como teste porque silenciar vozes palestinas ou pró-palestinas é, agora, o mais aceitável. E, quando conseguirem isso e estabelecerem um precedente, vão atrás de todas as outras vozes também.”
UE está matando jornalista alemão com sanções por reportagens sobre Gaza





