Europa

Eleições municipais revelam tendências na França

Cenário pós-eleitoral projeta um país dividido em três blocos nítidos para a eleição presidencial de 2027

As eleições municipais francesas de 2026 foram marcadas por um índice de abstenção historicamente elevado, atingindo 42,18% no segundo turno realizado em 22 de março. Segundo dados do Ministério do Interior, a participação nacional foi de 57,82%, o que representa uma queda de mais de quatro pontos percentuais em relação ao pleito de 2014, embora o índice global, incluindo a Polinésia Francesa, tenha se fixado em 57,43%. A mobilização variou drasticamente entre as regiões, com o departamento do Cantal registrando a maior taxa de participação, 78,85%, enquanto o departamento de Aube teve a menor, com apenas 47,84%. Nos grandes centros urbanos com mais de 100 mil habitantes, a média de comparecimento ficou em 56,50%.

O partido do presidente Emmanuel Macron, Renascimento, juntamente com seus aliados de centro, obteve o controle de 589 comunas. No entanto, o crescimento mais expressivo em termos de capilaridade veio da direita tradicional e da extrema direita. O Reagrupamento Nacional (RN) e seus aliados da União das Direitas para a República (UDR), bloco de extrema direita, venceram em 55 cidades com mais de 3.500 habitantes, sendo 17 vitórias garantidas logo no primeiro turno. O Reagrupamento Nacional, partido de Marine Le Pen e Jordan Bardella, conseguiu eleger 3.006 conselheiros municipais em todo o país, quase o dobro do recorde anterior de 2014, consolidando sua presença em zonas geográficas tradicionais do Sudeste e Nordeste, mas também avançando sobre antigos redutos da esquerda.

Um dos resultados mais simbólicos ocorreu em Nice, a quinta maior cidade da França, onde Eric Ciotti, agora aliado ao Reagrupamento Nacional, derrotou o atual prefeito Christian Estrosi. Ciotti obteve 48,54% dos votos em uma disputa acirrada, contra 37,20% de Estrosi, que anunciou sua retirada da vida política local após 18 anos de mandato. Outro avanço significativo da extrema direita foi registrado no antigo cinturão mineiro do Norte, especificamente em Liévin. A cidade, que era um bastião do Partido Socialista desde o fim da Segunda Guerra Mundial, elegeu Dany Paiva, do Reagrupamento Naciona, com 53,58% dos votos, derrotando o senador socialista Jérôme Darras. Com isso, o RN passou a dirigir 14 municipalidades na região onde antes controlava apenas duas.

A esquerda francesa, liderada pela França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, apresentou resultados contraditórios. O bloco da Nova Frente Popular, que inclui o Partido Socialista, Os Ecologistas e a França Insubmissa, obteve sucessos importantes em Lyon e Tours. Em Lyon, o ecologista Grégory Doucet foi reeleito com 50,67% dos votos contra 49,33% de Jean-Michel Aulas. Contudo, a vitória de Doucet na prefeitura foi ofuscada pela derrota na poderosa Metrópole de Lyon, onde a candidata da direita, Véronique Sarselli, conquistou a maioria absoluta. Jean-Michel Aulas, por sua vez, anunciou que pretende contestar judicialmente o resultado municipal devido a supostas irregularidades. Em Tours, Emmanuel Denis também garantiu a reeleição com 47,2% após fusão com a LFI.

Por outro lado, em cidades importantes como Paris e Marselha, o Partido Socialista optou por frentes de “esquerda” que excluíram a França Insubmissa. Na capital, Emmanuel Grégoire, do Partido Socialista, venceu com 50,52% dos votos, derrotando Rachida Dati, que obteve 41,52%, enquanto Sophia Chikirou, da França Insubmissa, ficou em terceiro com 7,96%. Em Marselha, Benoît Payan, também do Partido Socialista, foi reeleito com 54,34%, batendo Franck Allisio do Reagrupamento Nacional por uma margem de 14 pontos. Em Montpellier, Michaël Delafosse também manteve o comando da cidade com cerca de 51%, mantendo uma linha de oposição direta a Jean-Luc Mélenchon.

A França Insubmissa, apesar da traição do Partido Socialista, registrou vitórias diretas em sete prefeituras na França metropolitana, incluindo Saint-Denis com Bally Bagayoko, Roubaix com David Guiraud e Creil com Omar Yaqoob, além de conquistas no cinturão de Lyon como Vaulx-en-Velin e Vénissieux. Na ilha de Reunião, o partido elegeu Emmanuel Séraphin em Saint-Paul e Alexis Chaussalet no Tampon.

Aproveitando-se da sabotagem do Partido Socialista à Nova Frente Popular, a direita tradicional conquistou Clermont-Ferrand, Limoges, Brest e Besançon, cidades que não eram controladas pela direita havia décadas. Em Bordeaux, Thomas Cazenave (Renascimento) derrotou o ecologista Pierre Hurmic com 50,95%, enquanto em Pau, o veterano François Bayrou foi surpreendido e derrotado por Jérôme Marbot, do Partido Socialista.

O cenário pós-eleitoral de 2026 projeta um país dividido em três blocos nítidos para a eleição presidencial de 2027. De um lado, uma esquerda que oscila entre o apoio a Mélenchon e à capitulação diante da aliança com o Partido Socialista. De outro, o bloco macronista que tenta se fundir à direita republicana para manter a governabilidade. Por fim, o bloco liderado pelo Reagrupamento Nacional, que utiliza sua inédita implantação territorial e o sucesso do modelo de “união das direitas” em Nice como trampolim para a quarta tentativa de Marine Le Pen de chegar à presidência.

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