O artigo EUA e Trump: perdieron la ternura, do advogado Antônio Carlos “Kakay”, publicado no portal Poder360 nesta sexta-feira (20), é um verdadeiro muro das lamentações.
Obviamente, o título artigo é uma alusão à frase de Ernesto Che Guevara “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Essa frase, apesar de famosa, romantiza a luta. A violência necessária para se vencer inimigos cruéis, como o imperialismo, que bombardeia escola de meninas, que mata prisioneiros empalados, não deixa espaço para vacilações, pois elas podem ser a diferença entre a vitória e a derrota.
Não se pode perder uma coisa que não se possui, e isso faz com o título não faça sentido. Além disso, Trump não é mais cruel que, por exemplo, o prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, e seu vice, Joe Biden que, dentre muitos crimes, destruíram a Líbia e mataram à vontade no Afeganistão, Síria, etc.
Kakay inicia dizendo que é “desalentador o que ocorre no mundo inteiro com as decisões criminosas dos EUA, especialmente do estranho e decrépito presidente Trump” e que “o povo norte-americano sempre foi, em regra, voltado só a si mesmo, além de desinformado e tosco”. Qual exatamente a culpa do povo norte-americano, ter votado em Trump, ou ser indiferente? Se a questão for essa, estão longe de estarem sós. Eventualmente, podem sofrer influência pela propaganda que diz que são eles os escolhidos por Deus, mas nem isso seria original.
Sobre as decisões criminosas dos EUA, fica difícil saber que tomou a pior. Guerras, promoção de golpes de Estado, bloqueios econômicos genocidas. Mas tudo é aceito e aprovado pelo “mundo civilizado”.
O autor diz sustenta que “existia certa regra internacional que delimitava ou, às vezes, demarcava os abusos intervencionistas e megalomaníacos do poder de Washington”. A única regra que vale no mundo é a violência. As “regras internacionais” são muito boas para tempos de paz, ou para subjugar países pouco desenvolvidos e pobres.
Segundo o autor, “ainda que tenhamos presenciado, ao longo dos últimos tempos, muitas invasões a outros países, os EUA tentavam, de alguma maneira, anunciar as ações temerárias como parte de uma estratégia para manter a paz”, mas que diferença faz?
Kakay reclama que “agora, despiram as máscaras. É a guerra de dominação. O fim do direito internacional. A força pela força e pelo objetivo econômico. Não existem mais desculpas a serem dadas. É a barbárie institucionalizada”. Ótimo, pois não há nada melhor do que perder as ilusões. É melhor que imperialismo mostre sua cara, assim as pessoas poderão ver que as “democracias liberais” são, de fato, regimes fascistas que estão neste exato momento apoiando a guerra de agressão contra o Irã.
A comédia brasileira
Segundo Kakay, “quando o Brasil enfrentou os golpistas do 8 de Janeiro e os submeteu a um julgamento público pelo Supremo Tribunal, com a condenação e a prisão dos líderes, inclusive do ex-presidente Bolsonaro, o país deu uma demonstração ao mundo de civilidade e maturidade institucional”. Os golpistas sem armas que iriam dar um golpe de que jeito? Com batom? Sentando na cadeira do Xandão e se recusando a levantar?
Que maturidade é essa que condena uma cabeleireira a 14 anos de reclusão por pichar uma estátua? Por que ela, uma pessoa comum, não teve seu caso remetido à primeira instância? Isso é sinal de barbárie e ditadura institucional. É a definição da abolição do Estado Democrático de Direito.
Adiante, o articulista afirma que “enquanto isso, nos EUA, os norte-americanos elegiam o chefe do golpe do Capitólio. Era o sinal do vale-tudo institucionalizado. Não apenas a submissão dos poderes constituídos ao jugo do presidente Trump, mas também uma carta branca para os delírios golpistas muito além das fronteiras do país. A corrida armamentista e colonizadora não encontra limites.”
Não se sabe se deliberadamente, mas Kakay não faz referência ao golpe de 2016, orquestrado por Obama e Biden, que com isso elegeram Bolsonaro. É bem conveniente passar por cima do fato, pois dele foi peça fundamental o Supremo Tribunal
ONU: ferramente imperialista
Kakay reclama da ousadia de Donald Trump de “até mesmo criar um conselho, sob o completo controle norte-americano, para substituir e desmoralizar a ONU, foi efetivado”. O que a humanidade perde com esse escritório que só serve para legitimar ou se calar diante dos crimes do imperialismo?
O que fez a ONU diante do sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores? E o que fez o governo o Lula? Disse que a libertação de Maduro não era importante, não sem antes ter atirado o país aos leões ao impedir sua entrada no BRICS, apesar de não ter criado caso com Egito e Arábia Saudita.
Lula também andou se estranhando com a Nicarágua, outro país desafeto do imperialismo americano.
“As declarações de Trump são cada vez mais delirantes e desencontradas. Como não tem interlocutor, ele fala o que quer. Parece que o mundo capitulou e a barbárie é a regra”, pondera Kakay. Por que “parece” que o mundo capitulou? A barbárie sempre foi a regra. A menos que Coreia, Vietnã, Líbia, Iugoslávia, Gaza, Irã etc., sejam atos “civilizatórios”.
Trump o fascista
“A última manifestação de Trump”, continua, “dizendo, em tom de galhofa –mas é sério–, que vai ter ‘a honra de tomar Cuba’ e que fará lá ‘o que quiser’, é estarrecedora”. Verdade. Mas não é mais estarrecedor que as “democracias liberais” abaixem a cabeça?
Dizer que “quando os EUA estiverem liquidando os cubanos, já esgotados pelo embargo assassino, é importante observar a reação das pessoas. Com essa invasão, morrerá um pouco do que há de humano em cada um de nós”, não serve para nada além ficarmos culpando uns aos outros. Não mobiliza, é derrotista.
Segundo propõe o articulista, “talvez só nos reste sofrer com os cubanos e esperar que os excessos desse imperador do mundo despertem o sentimento da necessidade de resistência”. Mas, como diz a música Bom Conselho, de Chico Buarque: “Espere sentado, ou você se cansa, está provado, quem espera nunca alcança”.





