Movimento negro

O problema não é a ‘branquitude’, é a ‘banquitude’

No identitarismo, desigualdade deixa de ser tratada como produto de um sistema econômico concreto e passa a ser apresentada como herança moral e racial

Em artigo publicado no Poder360 em 21 de março de 2026, por ocasião do Dia Internacional contra a Discriminação Racial, Djamila Ribeiro procura explicar a desigualdade social no País a partir de uma oposição entre “homens brancos” e “populações negras e periféricas”. O texto, intitulado Quem paga a conta da desigualdade racial?, apresenta uma operação política conhecida: trocar a luta contra os poderosos e o aparato estatal por uma divisão racial e moral da população. Em vez de apontar contra bancos, governos neoliberais, Polícia Militar e todo o mecanismo de opressão do regime, a autora dilui o problema em uma ladainha identitária que serve, no fim das contas, para blindar os poderosos.

Logo na abertura, Djamila Ribeiro dá o tom da manobra. Ao comentar um escândalo envolvendo recursos de fundos de pensão, ela fala em “mais um escândalo masculino e branco” e acrescenta, com ironia, ser “curioso como isso raramente é nomeado”. A formulação não é apenas errada. Ela é politicamente desastrosa. O problema central de um caso como esse não é a cor dos envolvidos, mas o fato de se tratar de um mecanismo de espoliação operado por autoridades públicas, operadores do capital financeiro e parasitas do Estado contra trabalhadores e aposentados. Transformar isso em um problema de “homens brancos” é esconder a natureza de classe da roubalheira.

O aposentado que perde seu dinheiro não é assaltado pela “branquitude” em abstrato. É assaltado por um regime dominado por banqueiros, por gestores ligados ao grande capital, por governos que entregam o patrimônio público e por uma máquina estatal montada para proteger os de cima. O trabalhador negro da periferia sofre mais duramente esse ataque, sem dúvida. Mas ele não sofre porque exista um ente metafísico chamado “homem branco”. Sofre porque ocupa, em uma sociedade capitalista mantida pela exploração, uma das posições mais esmagadas da pirâmide social.

Esse é justamente o ponto que o identitarismo apaga. Djamila escreve:

“Opressões de raça, classe, território e gênero produzem experiências distintas.”

O que ela chama de “opressões” colocadas lado a lado não tem o mesmo peso político. Classe não é um detalhe entre outros. Classe define a posição do indivíduo no sistema de produção, isto é, sua relação com a riqueza social, com os meios de produção e com o poder do Estado. Ao rebaixar a exploração de classe a mais um item na lista, a autora transforma a análise social em inventário de identidades. O resultado é que os exploradores desaparecem e sobra apenas uma coleção de grupos em disputa entre si.

É assim que a autora chega à sua conclusão política: em vez de organizar a luta dos explorados contra o capital e o Estado, ela propõe uma leitura na qual “população feminina, negra, periférica” aparece de um lado, e “homens na política”, “privilégio masculino e branco” e “branquitude” aparecem de outro. Com isso, o alvo real sai de cena. Não são os bancos. Não são os fundos privados. Não é a política de arrocho. Não é a destruição dos serviços públicos. Não é a Polícia Militar que aterroriza os bairros operários. Não é o regime de concentração de renda. O inimigo passa a ser uma categoria racial genérica.

Esse tipo de política interessa profundamente à burguesia. Nada agrada mais aos capitalistas do que ver o povo dividido entre negros e brancos, homens e mulheres, centro e periferia, cada setor olhando para o outro como adversário imediato, enquanto eles seguem mandando. O banqueiro agradece quando o debate deixa de ser juros, privatização, desemprego e repressão policial para virar catecismo sobre “lugar de fala” e “privilégio”. O governador que comanda chacinas na periferia agradece quando sua política desaparece sob um palavrório acadêmico sobre identidades. O mesmo vale para as universidades, fundações e grandes empresas, que podem posar de inclusivas enquanto continuam explorando a classe trabalhadora.

A própria Djamila oferece um exemplo cristalino desse desvio ao dizer:

“As cotas raciais são um ótimo espantalho que a casta política masculina desse país, sobretudo, adora bater.”

E depois:

“Eu também não herdei a branquitude e todas as oportunidades, camaradagem e injustiças que dela decorrem.”

Aqui a operação aparece sem disfarce. A desigualdade deixa de ser tratada como produto de um sistema econômico concreto e passa a ser apresentada como herança moral e racial. O filho de um banqueiro branco e o operário branco desempregado aparecem embaralhados na mesma categoria ideológica. Ao mesmo tempo, a autora desloca o debate para o terreno da disputa por acesso à universidade e por reconhecimento institucional, como se esse fosse o centro da questão negra no Brasil.

Não é. O jovem negro que vive na periferia não encontra pela frente, em primeiro lugar, um problema de “meritocracia” universitária. Ele encontra desemprego, subemprego, escola destruída, transporte degradado, violência policial, falta de moradia, salário de fome e ausência de perspectiva. O problema decisivo é material. É a estrutura econômica do País. É o Estado burguês. É a máquina de repressão. É a drenagem da riqueza nacional para o capital financeiro. É isso que mantém a massa da população negra em posição inferior.

As cotas podem abrir a porta da universidade para uma parcela de jovens. Mas apresentá-las como eixo estratégico da luta do povo negro é reduzir uma questão histórica gigantesca à integração de uma minoria ao aparelho universitário e profissional. Enquanto isso, a imensa maioria dos negros continua submetida ao inferno social produzido pelo capitalismo. O identitarismo se satisfaz em promover uma camada de representantes, professores, consultores, gestores e executivos. O problema das massas permanece. Nesse sentido, é revelador que a autora destaque sua atuação como “conselheira do Fundo Patrimonial da USP” e celebre programas de permanência estudantil.

A passagem final do artigo resume bem o espírito da coisa, quando a autora fala em gente “confortavelmente instalada no privilégio masculino e branco”. Trata-se de uma fórmula cômoda porque desloca o debate do terreno político para o moral. O explorador deixa de ser o capitalista e passa a ser o branco. O opressor deixa de ser o Estado burguês e passa a ser o homem. O saque deixa de ser função do sistema e passa a ser atributo de identidades. Com isso, a esquerda pequeno-burguesa oferece um imenso serviço à reação: transforma a luta social em guerra entre segmentos do povo.

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