Polêmica

Identitarismo vise interditar o debate público

Identitária, em vez de ampliar o debate, convida seus leitores a não acompanharem determinadas páginas, pois isso as favoreceria, e o debate fica de lado

René Magritte - Couples

O artigo O poder silencioso dos números, de Sara York, publicado no Brasil247 nesta terça-feira (17), é um convite para que as pessoas não sigam páginas como o Matria, pois isso a favoreceria.

No início, York informa que “em visita ao Brasil neste mês, a relatora especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, mobilizou uma agenda que não passou despercebida. Suas críticas às políticas de reconhecimento de identidade de gênero e à inclusão de pessoas trans encontraram eco em espaços institucionais e midiáticos. No dia 5, esteve no Senado, em reunião da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, presidida por Damares Alves. Antes disso, participou, em São Paulo, de um evento promovido pela organização Matria, conhecida por posições contrárias à inclusão de pessoas trans. Em entrevista ao site Poder360, reiterou seu posicionamento”.

A entrevista

Nessa entrevista, resumidamente, Reem Alsalem critica a Lei de Alienação Parental no Brasil, diz que somos o único país que conhece com uma lei específica e defende sua revogação, pois, segundo acredita, ela é “instrumentalizada” e “usada como arma” por homens acusados de violência doméstica ou abuso sexual contra os filhos para descredibilizar as denúncias das mães.

Segundo sustenta, o sistema de justiça muitas vezes ignora evidências de abuso para manter o vínculo da criança com o agressor, baseando-se no conceito de alienação.

Outro ponto levantado na entrevista foi a definição jurídica de “mulher” e sexo biológico. Sua postura que converge com o feminismo crítico de gênero, que levanta os seguintes pontos:

Realidade Material: Reem Alsalem afirma que “mulher” e “homem” não são apenas ideias ou sentimentos, mas realidades biológicas. Para ela, o apagamento do sexo biológico nas leis (substituindo “mulher” por termos neutros como “pessoa com vagina”) prejudica a proteção das fêmeas humanas.

Coleta de Dados: A entrevistada também defende que o Estado deve continuar coletando dados baseados no sexo biológico para monitorar a violência masculina contra mulheres, sob risco de “invisibilizar” o fenômeno se tudo for baseado apenas em identidade de gênero.

Sobre a oposição à autoidentificação de gênero, embora reconheça o direito de indivíduos se identificarem como desejarem, é contra a autodeclaração automática para fins legais, pois há falta de salvaguardas, e argumenta que a mudança de registro sem critérios objetivos pode permitir que predadores abusem do sistema.

Abordando o tema dos espaços segregados, defende que o acesso a espaços exclusivos (presídios femininos, abrigos para vítimas de violência e esportes) deve ser mantido com base no sexo biológico para garantir a segurança e a dignidade das mulheres.

Falando sobre violência digital e *deepfakes, Reem Alsalem aponta o ambiente virtual como uma nova fronteira da misoginia, onde vê exploração. Cita o impacto de deepfakes pornográficos e a “pornificação” de mulheres em plataformas como OnlyFans como formas de violência.

*Deepfake é uma técnica de inteligência artificial (IA) que permite a criação de conteúdos falsos extremamente realistas — incluindo vídeos, áudios e imagens.

Alsalem defende que as plataformas digitais sejam responsabilizadas e que haja mais mulheres em cargos de liderança nas empresas de tecnologia para mudar essa dinâmica.

Falou também sobre o feminicídio, que descreve como uma “emergência global” e aponta falhas sistêmicas, como a falta de recursos. Diz que muitas vezes existem leis que considera boas (como a Lei Maria da Penha), mas pondera que falta investimento para operacionalizar medidas de proteção e treinamento policial.

Por fim, diz que há dados insuficientes e reforça a necessidade de observatórios de feminicídio para entender as motivações dos crimes e melhorar a prevenção.

Esses são os temas abordados, cabe aos leitores aceitarem, ou não, seus argumentos. Sara York, no entanto, diz que “há algo que [a] interessa mais do que o conteúdo imediato dessas falas”. Diz que “há uma engrenagem menos visível, porém decisiva, que sustenta esse tipo de circulação. É sobre ela que precisamos falar”. Um ponto que, segundo sustenta, “parece simples, mas que ainda escapa ao debate público. A força de uma página, de um discurso ou de uma posição não está apenas no que se diz, mas em como isso se espalha e em quantas pessoas, mesmo em silêncio, sustentam essa circulação”.

Apesar de não rebater qualquer ponto da entrevista, a articulista diz que “uma página transfóbica não cresce apenas com aplausos, ela cresce com presença, cresce com seguidores que não comentam, não curtem, não compartilham, mas estão lá! Pessoas que dizem estar ali apenas para observar, monitorar, entender. Só que, nas dinâmicas digitais, observar não é só observador. Seguir é um gesto que pesa imensamente nesse mundo digital”. – grifo nosso.

Não ficou claro em que consistiria a “transfobia” da página Matria, esse grupo diverge, tem uma opinião contrária a certas concepções sobre sexo e gênero.

Nada de debate?

As ideias apresentadas deveriam ser debatidas, em vez disso, todo o esforço de Sara York é dizer que “os algoritmos não leem intenção, eles leem volume. Cada novo seguidor aumenta a densidade daquele perfil, amplia seu alcance, empurra suas postagens para mais pessoas. Não importa se há concordância ou repulsa. O que importa é que há número. E número, hoje, é sinônimo de relevância”.

Como as pessoas podem ser contra de algo que desconhecem? O debate tem que ser estimulado. Ficar dizendo para as pessoas não entrarem, ou não seguirem, determinados perfis, pode configurar um certo obscurantismo.

É uma espécie de “cancelamento”, prática muito comum no identitarismo, ainda que York se apresse em dizer que “não se trata de defender o isolamento ou a ignorância estratégica. Trata-se de compreender o funcionamento dessas arquiteturas [dos algoritmos]”.

A esquerda não pode correr do debate, tem que estimular o pensamento crítico, caso queira continuar a ser chamada de esquerda.

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