Polêmica

Homem não ‘representa’ mulher nenhuma

O identitarismo tem avançado sobre os direitos das mulheres. Essa ideologia de direita tem servido também para questionar entendimentos básicos da ciência

Montagem sobre Magritte

A política identitária do imperialismo é tão agressiva que setores inteiros da esquerda pequeno-burguesa se sentem acuados e acabam aderindo e caindo em uma ideologia que não se sustenta. Como o artigo Érika Hilton me representa, de Jacqueline Muniz, publicado no Brasil 247 neste sábado (14).

O artigo inicia dizendo que “a tentativa de deslegitimar a Érika de seu lugar como representante das mulheres, ou das múltiplas mulheridades, apoiando-se em argumentos biologistas, reflete um equívoco. Qual? Esquecer que o corpo humano – qualquer corpo – é muito mais do que um equipamento genético, bioquímico e anato-fisiológico. O corpo da mulher é exatamente muito mais por ser tudo isso mesmo. Ele constitui um todo complexo e dinâmico que se transforma ao longo da vida. A chamada vida biológica é inseparável da vida psíquica”.

Érika Hilton não pode ser representante das mulheres, pois nasceu com um corpo biológico masculino. Por mais que tenha feito intervenções cirúrgicas ou tratamentos hormonais, se os fez, nada disso tem o poder de transformar sua herança genética. Dizer que o corpo “humano é muito mais que” também não interfere no genótipo. A vida biológica e a vida psíquica são inseparáveis. No entanto, se um indivíduo humano acredita ser uma ave, nem por isso será capaz de voar.

Jacqueline Muniz diz ainda que “somos uma composição indissociável entre o que chamamos de corpo e o que nomeamos de mente, consciência ou alma”. No entanto, a articulista mistura esses três últimos itens que, embora possam se parecer, não são o mesmo. Além disso, nunca foi provado que exista a alma. Por mais que filósofos tenham se batido em debates intermináveis. Sendo assim, não cabe dizer que “a harmonia entre corpo e alma não é um dado biológico puro e simples”.

O erro fundamental de Jacqueline Muniz é atirar em uma coisa na esperança de acertar em outra. Dizer que a mente e o corpo nem sempre estão em harmonia serve para os identitários sustentarem que pode existir um homem preso dentro do corpo de uma mulher, ou vice-versa. Mas uma sensação não define o corpo. Por isso que o identitarismo precisa recorrer a um linguajar cheio de curvas para ver se alcança algum significado.

Discurso torto

Dizer que uma certa harmonia “é uma construção processual, resultado de acasos, descompassos, exigências e tensões entre as múltiplas dimensões” é só um floreio desnecessário. Pois usar isso para dizer que “não há determinismo nem mecanicismo nisso” é desconsiderar a própria realidade. Se uma pessoa nasce com um certo corpo, isso já é uma determinação.

Ninguém sabe o que é “mulheridade”, “argumentos biologistas”. A Biologia é uma ciência, gostem ou não. Amanhã, quando as pessoas que acreditam que a Terra é plana acusarem os outros de serem “esfericistas”, os identitários vão ter que aceitar.

Jacqueline Muniz sustenta que “quem acredita numa harmonia natural do corpo – anatomia de mulher com cabeça de mulher, tende a projetar a mesma ficção sobre a sociedade. Tende a fazer crer em uma ordem homogênea e uniforme que nunca existiu”. Desvia do assunto, pois o problema não é harmonia, mas a condição da mulher, determinada por sua condição, que está em jogo.

Friedrich Engels, no famoso livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, demonstra que, pelo fato de as mulheres, por suas condições biológicas, engravidarem, e pelas transformações econômicas e sociais, acabaram ficando com a tarefa de cuidar dos filhos e, assim, presas aos trabalhos domésticos, em uma posição subalterna que levou à sua opressão. Entender essa questão não é biologismo. Quem não nasceu com um corpo do sexo masculino jamais estará sujeito às mesmas situações de quem nasce com um corpo do sexo feminino.

A mulher, por ficar presa ao lar, se tornou uma escrava, propriedade do homem. Por ter menos tônus muscular, está propensa a ser dominada fisicamente. Essas condições fazem com que as mulheres, finalmente, recebam salários, na média, menores que os homens para fazerem os mesmos trabalhos. Mulheres têm dificuldade de estudar ou de ocupar cargos de relevância por conta dos cuidados com os filhos.

Aqueles que nasceram com físico masculino, mesmo que alterem a aparência, jamais entenderão o que significa ser mulher, é impossível, pois não é uma questão de “se sentir”, não é uma condição “psíquica”.

A questão da violência, por exemplo, não é a mesma se compararmos uma mulher biológica com uma trans, que tem muito mais condições de se defender.

Indefinição para quê?

Como disse Reem Alsalem, relatora especial das Nações Unidas sobre Violência contra Mulheres e Meninas, é absurdo que uma palavra, “mulher”, represente duas coisas completamente diferentes. E, muito importante, “não se pode proteger o que não se pode definir”.

Como bem explicou Rui Costa Pimenta em sua Análise Política da Semana (assista): “temos uma situação em que não se pode levar adiante a luta das mulheres porque já não se sabe mais o que é uma mulher. Qual é a luta exatamente? Por exemplo, as lutas das mulheres são por garantias à maternidade? Diante dessa falta de definição, não. A luta das mulheres é contra a violência masculina contra as mulheres? Diante dessa definição, não”.

Rui C. Pimenta alertou ainda sobre a censura, pois o STF impôs leis que impedem o debate sobre as questões que envolvem sexualidade e gênero. “É um problema essencial na sociedade. As mulheres são 50% da população. As leis no Brasil impedem que metade da população expresse seus problemas. Não podem protestar contra a eleição de Érika Hilton para presidente da Comissão de Mulheres. Neste caso, temos uma censura potencialmente dirigida contra metade da população”.

A esquerda

As pessoas de esquerda precisam repudiar o identitarismo, que é uma ideologia direitista, liberal, que tenta confundir até mesmo o que seja um homem ou uma mulher. Mas isso é deliberado. A burguesia sabe que é importante enfraquecer a luta das mulheres; por isso, tem investido milhões em ONGs que semeiam a confusão.

A biologia, quando classifica os sexos em uma espécie, permite até que se estude quem não se encaixa nessas duas categorias. E isso é importante, pois quem tem diferenças de desenvolvimento sexual – DDS, precisa também de políticas especiais. Quando o ativismo trans confunde tudo, não apenas as mulheres, mas esse grupo também fica prejudicado.

Os identitários acusam os outros o tempo todo de serem “negacionistas”, mas quem se recusa a entender uma verdade tão categórica deve ser chamado de quê.

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