O início do governo de José Antonio Kast, empossado nesta quarta-feira (11) no Chile, foi marcado pela repressão a uma manifestação estudantil contrária a sua posse. O Corpo de Carabineiros atacou um ato realizado por estudantes na comuna de Ñuñoa, em Santiago, depois que alunos do liceu Augusto D’Halmar denunciaram ameaças de cancelamento de matrícula e convocaram a mobilização de estudantes de escolas próximas.
Os Carabineiros efetuaram cerca de oito disparos durante a repressão a uma manifestação organizada em repúdio à chegada de Kast à presidência. Os fatos foram registrados em vídeo por uma manifestante e divulgados pelo canal popular Voz en Fuga.
A mobilização começou depois de uma das primeiras aparições públicas de Kast no liceu Augusto D’Halmar. Segundo os estudantes, houve ameaças de anulação de matrículas escolares, o que levou alunos de outros estabelecimentos da região a se dirigirem ao local para expressar sua oposição. A resposta do aparato policial foi a intervenção armada contra o ato.
ASÍ 👇🏻 fue la detención de la menor M.S que pidió a Carabineros no grabar los rostros de menores en la protesta que estudiantes organizaron afuera del Liceo Augusto D’Halmar de Ñuñoa hasta el que llega el Presidente Kast como una de sus primeras actividades pic.twitter.com/Jzxbi8FIZa
— Pao Dragnic (@PaolaDragnic) March 11, 2026
A repressão ocorreu no mesmo momento em que Kast confirmava outra medida ligada à política de perseguição e violência estatal no Chile. Em entrevista ao Canal 13, na quinta-feira (12), o novo presidente declarou que utilizará o poder de indulto para libertar policiais e militares condenados por crimes cometidos durante a repressão aos levantes de 2019.
Kast afirmou que seu governo já trabalha nessa direção. “Estamos trabalhando nisso”, declarou. Em seguida, acrescentou: “o poder de indulto é um poder que o presidente da República possui até hoje, e eu vou usá-lo”. Segundo ele, os casos estão sendo analisados individualmente e o governo avançará nessa linha.
Durante a campanha presidencial de 2025, Kast já havia prometido indultar todos os policiais presos por crimes cometidos naquele período, sob o argumento de que estariam sendo “perseguidos”. O atual presidente sempre atacou os levantes iniciados em outubro de 2019 e os classificou como uma “revolta criminosa”.
A repressão desencadeada pelo Estado chileno naquele processo deixou 30 manifestantes assassinados. De acordo com relatório da Procuradoria-Geral da República, entre 18 de outubro de 2019 e 31 de março de 2020 foram registrados mais de 35 mil crimes no país, dos quais 34% corresponderam a crimes cometidos por agentes do Estado. O mesmo período deixou ainda 464 pessoas com lesões oculares.
Embora não exista um número oficial consolidado de policiais condenados pelos crimes praticados na repressão, a imprensa chilena noticiou dezenas de sentenças. Kast também declarou, durante a campanha, que estava disposto a considerar indulto para integrantes das Forças Armadas condenados por violações cometidas na ditadura de Augusto Pinochet.
A ditadura pinochetista deixou mais de 3,2 mil vítimas, entre assassinados e desaparecidos. Mesmo assim, Kast evitou comentar de forma direta um projeto impulsionado pela direita para permitir que presos com doenças terminais ou mais de 70 anos cumpram pena fora das prisões, medida que poderia beneficiar antigos agentes condenados por crimes contra a humanidade.





