Análise Internacional

Rui Pimenta e Robinson Farinazzo analisam guerra no Oriente Médio

Rui Costa Pimenta e comandante Farinazzo avaliam reação iraniana após assassinato de Khamenei e debatem cenários da guerra contra o imperialismo

O programa Análise Internacional do Diário Causa Operária desta semana foi dedicado ao conflito entre o Irã e os Estados Unidos e “Israel”, após o assassinato do líder supremo da Revolução Islâmica, aiatolá Ali Khamenei. O presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta, e o comandante Robinson Farinazzo, do canal Arte da Guerra, avaliaram a reação militar iraniana, os desdobramentos econômicos do conflito e os riscos de uma escalada para uma guerra mundial.

O assassinato de Khamenei e seus efeitos

Para Rui Costa Pimenta, a morte de Khamenei representou um erro de cálculo político do imperialismo. “O assassinato foi um erro político, um erro de cálculo político, na minha opinião. Isso aí reforça o caráter bárbaro e selvagem da guerra, do ataque traiçoeiro que foi feito contra o Irã. E eu acho que nos funerais do Khamenei nós vamos ver uma das maiores manifestações de massa que o Oriente Médio já viu até hoje”, afirmou.

O comandante Farinazzo concordou com a avaliação, e foi além: destacou que Khamenei era, paradoxalmente, a ala moderada do regime. “Se você for olhar bem mesmo, o Khamenei era o moderado do regime. Ele não queria armas nucleares, apoiou a eleição do Pezeshkian, era a favor de negociação. Não sei o que vem depois. Mas você tem que olhar uma coisa: o portfólio americano-israelense é sempre esse. Eles não sabem dialogar. Então vai lá e mata o sujeito”.

Sobre a sucessão, Pimenta avaliou que o processo aparenta estar sendo bem organizado: “a impressão é de que essa eventualidade era esperada, que já havia um sistema estabelecido de substituição. Tanto que o Khamenei não tomou nenhuma providência especial para se defender dos ataques que acabaram custando sua vida”.

A questão da bomba atômica

Um dos principais pontos do debate foi a opção iraniana de não desenvolver armas nucleares. Para o comandante Farinazzo, trata-se de um erro estratégico histórico. “Você só vai enfrentar os Estados Unidos com a bomba. Você vê a Coreia do Norte: quem é que mexe com a Coreia do Norte? Todo mundo que não fez a bomba caiu. A Líbia caiu, o Iraque caiu, a Síria caiu e o Irã tá balançando. A Coreia do Norte, ninguém mexe com ela. Você pode até mexer, mas saiba que você vai perder o Japão e a Coreia do Sul. A Coreia do Norte, se ela vê que vai perder tudo, ela vai para cima com tudo”.

Rui Costa Pimenta concordou:

“A bomba atômica é uma apólice de seguro para o Estado operário da Coreia do Norte, sem dúvida nenhuma. É um meio de dissuasão absoluto — não absoluto porque pode acontecer uma guerra atômica, mas vamos dizer que coloca a coisa num patamar muito superior. O nível de crise que você teria para enfrentar essa situação seria extraordinariamente grande. Não daria para fazer uma guerra do estilo que estão fazendo com o Irã hoje.”

Reação iraniana: ‘irrepreensível no momento’

Sobre a pergunta que deu título ao programa — se o Irã está respondendo à altura —, ambos foram categóricos em separar a conduta histórica do país persa da conduta atual. Farinazzo usou uma analogia futebolística:

“O Irã é aquele time que fez um péssimo campeonato, vinha jogando muito mal. Agora ele tá na final, jogando tudo que sabe, jogando bem. Se ele perder, acabou. Então ele tá na medida certa. Destruíram radares de centenas de milhões de dólares, obliteraram todas as bases americanas do Golfo Pérsico, fecharam o Estreito de Ormuz, bombardearam ‘Israel’ com força, puseram o Hesbolá em campo. Os curdos estão com medo de intervir, as milícias xiitas iraquianas estão operando. A estratégia iraniana no momento é padrão Sun Tzu. Tá muito bem feito.”

O comandante ressaltou que a crítica não é à capacidade iraniana, mas ao atraso nas decisões:

“Ninguém tá fazendo uma crítica meritocrática ao Irã. Não é isso. Nós estamos criticando o erro de conduta, o atraso em tomar ações decisivas. Porque quando mataram o Soleimani, já tinha que ter acendido todas as luzes vermelhas em Teerã. E quando bombardearam a embaixada iraniana em Damasco e mataram diplomatas e generais, não tinha mais desculpa, tinha que ter partido para a bomba atômica.”

Pimenta acrescentou que o Irã ainda tem mais poder de fogo a revelar:

“O método iraniano ficou claro nos outros enfrentamentos: eles vão por etapas, eles vão aumentando progressivamente o grau de ofensividade. Eu concordo com a informação que o comandante deu. Eu acho que os chineses e também os russos já estão envolvidos na guerra. Eles não querem que o Irã seja derrotado. Para eles seria um desastre político enorme.”

China como fiel da balança

Os dois analistas foram unânimes em apontar a China como o fator decisivo do conflito. “Se a China ajudar o Irã militarmente, em termos de logística militar e na economia, o Irã não perde. Se a China fizer pelo Irã o que ela fez pelo Vietnã e pela Coreia na guerra, o Irã não perde”, afirmou Farinazzo, citando declarações do general russo Vladimir Popov sobre o envolvimento do complexo militar chinês.

Pimenta avaliou que Moscou e Pequim já compreenderam a dimensão global do conflito:

“O dado mais importante dessa situação, talvez o menos aparente, é que os chineses, principalmente, se deram conta de que tudo que está acontecendo já é a guerra mundial, é a guerra contra a China. Que não adianta ser bonzinho, não adianta ser amigo do mercado, não adianta jogar pela regra do jogo, não adianta defender a lei internacional: o negócio vai para o enfrentamento militar.”

Crise econômica e o Estreito de Ormuz

O fechamento do Estreito de Ormuz foi apontado como o maior problema estratégico para os Estados Unidos. “O problema do fechamento do Estreito de Ormuz é o abacaxi que o Trump não vai conseguir descascar. Cada dia que passa o petróleo sobe um pouco mais. É um pântano. É a famosa situação em que a pessoa entrou e não consegue avançar como gostaria”, disse Pimenta. Durante a transmissão, o petróleo Brent chegou a subir cerca de 4% no dia, acumulando alta de 23% em cinco dias de conflito — com o Goldman Sachs projetando o barril a 120 dólares, segundo Farinazzo.

O comandante também apontou a falência logística das forças norte-americanas na região: “a Marinha americana está precisando abastecer agora na Índia ou em Diego Garcia, porque as bases que ela tinha no Barém, no Catar, na Arábia Saudita estão todas obliteradas. O Irã arrasou essas bases e as tornou impraticáveis no momento”.

Popularidade da guerra e limites políticos de Trump

Pimenta chamou atenção para a impopularidade da guerra nos próprios Estados Unidos:

“A popularidade da guerra é baixíssima. Fizeram várias pesquisas: 25% é a favor, 43% é contra e o resto deve ser contra também, mas não falou nada. Ele entrou numa coisa que não tinha base para entrar. Na guerra contra o Iraque eles deslocaram para o Oriente Médio cerca de 400.000 soldados norte-americanos, mais equipamento pesado. Não é nada nem parecido com o que estão usando nesse momento. O que mostra que subestimaram o Irã — achavam que iam bombardear e pronto, ia ficar tudo por isso mesmo.”

Para Farinazzo, uma eventual derrota norte-americana terá consequências diretas dentro do próprio governo Trump: “se o Irã vencer essa guerra, os primeiros que vão cair no governo Trump são o Pete Hegseth e o Marco Rubio. O Rubio tá meio em cima das cordas esses dias porque sabe que vai rodar. O Trump vai precisar dar umas cabeças. Agora, se o Trump ganhar essa guerra, você tem um Trump primeiro que faz o que quiser”.

Terceira Guerra Mundial já começou?

Ao final do programa, Pimenta foi direto ao afirmar que o mundo já entrou numa guerra de alcance global:

“Eu acho que nós estamos vendo os primeiros episódios de uma guerra mundial. Não há como ter a menor dúvida disso. O imperialismo está empurrando a situação toda para uma guerra generalizada, ele não tem condições de manter a situação do jeito que está.”

Farinazzo concordou com o diagnóstico, mas ressaltou a complexidade do cenário:

“É difuso. Falta cair algumas máscaras ainda. Mas se o Irã tiver fôlego por umas cinco semanas de guerra, acabou o Japão, acabou a Europa, acabou um monte de coisa e acabou a guerra. Agora isso aí não tenho como dizer para vocês — seria uma irresponsabilidade muito grande minha dado o público enorme que temos aqui. Mas o que posso dizer é que o Trump não esperava essa reação.”

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