Eleições 2026

Esquerda pequeno-burguesa entre sonho e fantasia

Jornalista se recusa a enxergar a realidade e não compreende que a burguesia não quer Lula no poder

Lula

Não se pode fazer política sem uma análise concreta dos fatos, mas é exatamente isso que se vê no artigo É preciso derrotar Lula, de Emir Sader, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (18). Ficar repetindo que o governo está bem, que existe pleno emprego, não fará com que o governo melhore, ou que brotem empregos do chão. A realidade se impõe.

Sader inicia seu texto dizendo que “a direita fica entre a resignação de que Lula se reeleja e a possibilidade de desgastá-lo ao máximo para que, mesmo que se reeleja, tenha que conviver com um Congresso como o atual, muito hostil a ele”. Por enquanto, não há sinal de resignação, antes o contrário. Quanto ao desgaste, já começou desde o dia da posse. Em uma eventual vitória de Lula (caso concorra), a tendência é encontrar um Congresso ainda mais hostil.

Outra ilusão de Sader é acreditar que Flávio Bolsonaro, que estaria sendo incentivado “com pesquisas de duvidosa credibilidade, terá poucas possibilidades nos debates eleitorais”. Será mesmo que seria um massacre nos debates e isso asseguraria uma vitória para Lula? Talvez o adversário nem compareça aos debates. Há ainda fatores a serem considerados: não se sabe como serão os desdobramentos dos casos do Banco Master e do INSS, que podem muito bem ser utilizados pela direita.

Como disse no terceiro parágrafo, a imprensa, “como verdadeiro partido da direita brasileira, trata de desgastar Lula de todas as formas que consegue”, sim, e a tendência é piorar conforme se aproximam as eleições. A Folha de São Paulo vai continuar colocando “chamadas mentirosas de primeira página, caluniosas contra Lula, desmentidas pela matéria no interior”. O Estadão vai produzir editoriais cada vez mais virulentos; a revista Veja continuará com seus ataques sórdidos. Nunca foi diferente disso. A burguesia não quer o PT no poder.

Ainda assim, Sader pinta um mundo que não existe. Pergunta: “Por que se opõem tanto a Lula, se a economia vai bem, o prestígio do Brasil no mundo é cada vez maior e há emprego para todo mundo?”.

Isso de emprego para todo mundo é fantasia, e o prestígio do Brasil só vale quando algum presidente de outro país quer fazer média e tira foto ao lado de Lula.

Antilulismo

Para o articulista, os jornais se opõem a Lula, “em primeiro lugar, porque Lula coloca em prática políticas antineoliberais, e o neoliberalismo é o projeto assumido pelo grande empresariado brasileiro, com o qual a mídia tem estreitos laços”. Mas não é isso. Trata-se de um problema da luta de classes.

Lula não é representante legítimo da burguesia, por mais que tenha se mostrado inofensivo para o capital, sua base é operária, o que o torna incapaz de tomar medidas muito à direita. Apesar de o Banco Central estar mantendo juros elevadíssimos e feito os bancos lucrarem como nunca.

Um candidato com uma base eleitoral e com votos é difícil de controlar, por isso a burguesia tirou Jair Bolsonaro da frente, quer tirar Lula e está à procura de um candidato à la Milei.

Segundo Emir Sader, “Lula é o PT, é a esquerda, é o partido que melhor representa o povo brasileiro”. E que “ele derrota e seguirá derrotando os candidatos da direita brasileira, com a qual a mídia tem estreitos laços”. O problema para a burguesia, o articulista sustenta, “é preciso derrotar Lula. Senão, o Brasil será uma sociedade cada vez menos injusta, cada vez mais democrática”.

Nesses quase cinco mandatos do PT, o que mudou de verdade na vida do trabalhador?

O País não está mais democrático, vivemos uma ditadura judiciária, sem liberdade de expressão, e mais de 50 milhões dependem do Bolsa Família. Não houve nenhuma mudança estrutural. A burguesia não tem medo de nada nesse sentido, apenas que ela quer um presidente que seja uma espécie de franco-atirador neoliberal que implemente um forte ataque contra o que restou de direitos sociais e trabalhistas.

Política internacional

Outra ilusão de Sader é acreditar que não querem Lula porque, supostamente, “o Brasil, cada vez mais, liderará os países da América Latina e fortalecerá, cada vez mais, os BRICS, enfraquecendo, cada vez mais, os Estados Unidos, com quem o grande empresariado tem interesses comuns”.

A política externa de Lula tem sido um fracasso. O Brasil não rompeu relações com “Israel”; chamou a resistência palestina de terrorismo; bloqueou a Venezuela que entraria para o BRICS; ficou “neutro” no cerco dos Estados Unidos ao nosso país vizinho. Além disso, Lula disse recentemente em entrevista que a libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores não são prioridades.

Lula não tem enfraquecido os Estados Unidos, disse que é amigo de Donald Trump, e que até existe uma “química” entre ele e seu homólogo americano.

Fantasia x Realidade

Emir Sader sustenta que “é preciso derrotar Lula, senão a esquerda se consolidará, cada vez mais, como a força hegemônica no país. E a direita seguirá colecionando derrotas”. No mundo real, a esquerda não consegue formar maioria no Congresso. Os ministros do STF indicados pelo PT ou votaram pela prisão de Lula, ou o impediram de ir ao velório do irmão, ou aparecem envolvidos em escândalo.

O PT consegue eleger o presidente, porém, como não tem trabalho de base, toma decisões por cima, não consegue uma força real de apoio nas ruas. Os eventos são todos esvaziados. Não se viu a militância do partido nos atos em favor da Palestina ou da Venezuela. Nem mesmo no 1º de Maio, a comemoração mais tradicional da esquerda, se tem conseguido mobilização.

Para Sader, o problema dos meios de comunicação burgueses é que, sem derrotar Lula, teriam que “sempre que se enfrentar ao melhor comunicador brasileiro, que poderá sempre contrapor a mídia com resultados cada vez mais positivos para o Brasil”. Mas eles enfrentam, como tem sido, e levam vantagem, pois um dos piores erros do PT foi nunca ter dado ouvido aos militantes de esquerda da Causa Operária que, à época, ainda era uma tendência e que acabou sendo expulsa.

O resultado está aí, os mandatos presidenciais do PT se sucedem e os tais “resultados cada vez mais positivos” ninguém os vê.

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